Month: julho 2015

Rua Labat Rua Ordener: quando as palavras não salvam

Eu sempre imaginei que as palavras salvariam. Sempre imaginei que o processo analítico de falar, juntamente com a escrita, poderia socorrer qualquer um, ou pelo menos aliviar o sofrimento que existe necessariamente na vida. Estava completamente enganado.

Estava morando nos EUA e fazia meus pós-doutorado em Harvard! Um lugar lindo, encantador e repleto de conhecimento (confesso, somente aqui, que eu definitivamente era o mais burro daquela universidade… mas, talvez, o mais empolgado!). Assisti uma disciplina sobre a participação francesa na Segunda Guerra e como eles vêm enfrentando o problema da memória e da culpa (a França é terrível: nunca assumiu a colaboração com o governo nazista. Resolveram recalcar essa parte da memória. Não é de se estranhar que hoje exista uma ascensão gigantesca do antissemitismo por lá). Foi então que li Rua Labat Rua Ordener pela primeira vez. Meu mundo desabou.

Meu Antiterapias já tinha sido premiado e meu novo livro Brochadas já tinha sido vendido para Rocco. Já me considerava um escritor (na verdade ainda ando repleto de dúvidas, mas preciso eventualmente preencher alguns formulários. Uso, depois do Prêmio, ‘escritor’ como profissão). E eu imaginava que a literatura me salvaria. Que ao falar das minhas memórias, das minhas questões judaicas, das minhas frivolidades e mesquinharias eu poderia me entender melhor e finalmente me salvar. Também imaginava que escrever um livro sobre brochadas me curaria dessa praga! Amém! Infelizmente tudo isso desmoronou ao ler o livro de Sarah Kofman.

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Sarah Kofman foi uma filósofa que escreveu duas dezenas de livros sobre diversos temas acadêmicos. Era considerada uma das mais importantes pesquisadoras na obra de Nietzsche. Falou sobre estética, psicanálise, arte. Releu e trouxe novas interpretações para os clássicos gregos. Foi professora na França, na prestigiosa École Normale Supérieure e em Sorbonne. Passou um período em Harvard. Era uma pessoa de difícil trato, que não gostava de ser tocada e nem de carinhos e elogios, e que vivia sempre regurgitando e com problemas estomacais. Tinha intensos problemas com suas memórias. O mundo desconhecia sua terrível história.

E num angustiante dia ela resolve escrever Rua Labat Rua Ordener e finalmente acaba contando sua vida. Ressalta que toda sua majestosa obra acadêmica teria sido somente uma preparação para escrita desse livro. Um livreto de pouco mais que oitenta páginas. Ela então conta ‘tudo’. Tudo que já tinha tentado contar (ou esquecer) antes. Conta que durante a Guerra sua mãe a escondeu na casa de uma mãe católica. Uma mãe católica que não gostava de judeus e queria limpá-la da praga do judaísmo. Ela, Sarah, era filha de um rabino, e por serem religiosos tinham uma alimentação especial. A mãe católica, com seus ódios e suas limitações, obrigava a pequena Sarah a comer coisas proibidas. Ela vivia em constante dor e relutava em aceitar essa vida imposta pelo Deus que tanto rezava. Foi aí que ela começou a regurgitar. Ela vomitava diariamente a vida que insistia e parecer real. Mas elas, ‘mãe’ e ‘filha’ acabaram gostando uma da outra. Afinal, Memé (a mãe católica) estava ‘salvando’ Sarah dos Campos de Extermínio.

Mas sua mãe judia ainda estava viva e escondida. Ambas podiam se encontrar secretamente. Porém esse encontro era muito pesado. Muito cheio de dor. Repleto de lembranças do Pai, que havia sido levado pelos colaboracionistas franceses aos nazistas e queimado nos fornos de Auschwitz. Sarah vivia um conflito de emoções, de sentimentos e de dores pela presença dessas duas mães. Dessas duas casas: uma na Rua Labat e outra na Rua Ordener. O tempo passou, cheio de pavor e pânico e ela surpreendentemente conseguiu ‘sobreviver’.

Ao fim da Guerra sua mãe judia veio lhe buscar, mas ela e Memé já estavam ligadas sentimentalmente talvez por culpa. Memé, não querendo largar da perversão por Sarah, resolve entrar com um processo pela sua guarda. O juiz (colaboracionista?) concede. Mas a mãe judia decide não respeitar a lei desse país que entregou voluntariamente milhares e milhares de crianças às fornalhas de Auschwitz. Sarah foi sequestrada pela própria mãe e acabou vivendo uma vida de entre mundos.

O livro segue contando as terríveis memórias de Sarah. Você se lamenta por ela. Você lamenta pela História. Você sofre uma outra dor, se ilude, e transforma o Holocausto em algo compreensível, apesar de assombroso e absurdo (mas isso é um erro. Ninguém, nunca, poderá saber o que foi aquilo. Mesmo assim precisamos continuar falando e lembrando para que não se repita). Chegando ao fim do livro, você acha que compreende Sarah, mas se surpreende com o desfecho de sua vida.

Meses depois de publicar esse livro e reavivar suas lembranças, Sarah se suicida. Seria esse o único caminho a seguir? Em algum momento, em algum dia, em algum instante Sarah realmente foi salva? Apesar de ter ‘sobrevivido’, realizado grandes feitos, escrito e perpetuado palavras e livros, ela nunca conseguiu superar seus momentos. Eu me pergunto com muita tristeza: será que existiu, de fato, algum sobrevivente do Holocausto? Rezo. Escrevo. Sonho. Mas duvido.

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/90p4Nn

A vida modo de usar e outras enganações

! G Perec

 

Uma vez mais, fui como uma criança que brinca de esconde-esconde

e que não sabe o que teme ou deseja mais: 

permanecer escondida, ser descoberta.

Georges Perec

Eu nunca tinha ouvido falar de Georges Perec até fazer uma disciplina eletiva no doutorado em Letras. Estava fazendo um curso sobre ‘Escritas Híbridas’ e parte d’A vida modo de usar caiu em minhas mãos. Não entendi nada. Nadinha de nada. Até achei que seria um livro de autoajuda fornecendo-me indicações e recomendações de como usar (ou manusear) minha própria vida. Vida essa que, naquele momento (como em todos), se encontrava completamente confusa. Mas o estranhamento, o mal-estar, o desconforto que o livro causou me motivou a continuar lendo e relendo as famigeradas páginas. Eu tentava descobrir, revelar e desvendar todos os mistérios do puzzle que Perec ofertava. Assim, depois de uma grande labuta, um caminho de sonhos e de novas possibilidades literárias se abriu. Fiquei fascinado. Encantado. Iludido com uma nova literatura improvável, mas ao mesmo tempo maravilhosa. E esse brave new world nunca mais se fechou. E me formou definitivamente escritor.

Perec foi membro do OULIPO, um grupo que brincava com ideias e estruturas matemáticas diversas e as utilizavam na composição de seus livros. Parece complicado e limitante. E poderia até espantar alguém. Mas não é. Garanto! Um novo universo se abre. Um universo expandido de novos e esplendorosos conhecimentos humanos. A matemática funciona aqui como o desejo de se buscar mais explicações, mais belezas, mais profundidade na já fantástica e perturbadora mãe de todas as ciências e sentimentos: a Literatura.

A vida modo de usar começa com um Preâmbulo perturbador: o narrador supostamente compara uma obra literária a quebra-cabeças.  “Podemos deduzir algo que é, sem dúvida, a verdade última do puzzle: apesar das aparências, não é um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzle, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro”. Seria possível o escritor imaginar todas as possibilidades de leitura e intepretações de seus leitores? Seria possível controlar a recepção de sua obra? De suas palavras? Seria plausível controlar a vida?

A vida pregou peças em Perec. Sua mãe morreu em Auschwitz e seu pai no front de guerra. Ele viveu só, angustiado e saudoso buscando alguma memória do pouco convívio teve com sua família. A contingência da História o fez brincar com o controle matemático na literatura. Ele, então, buscando as inacessíveis ‘certezas’ escreve La Disparition, um livro com trezentas e tantas páginas que nunca aparece a letra ‘e’, a mais frequente no francês. Loucura? Insanidade? Projeto impossível. Não sei. Não tente fazer isso em casa. E qual seria o motivo? Ele dizia que, ao se ver privado pelos nazistas do convívio com as pessoas mais importantes do mundo, ele também teria que ser capaz de escrever um livro sem a letra mais importante do alfabeto. Também escreve Palindrome, um livreto com cinco mil palavras que foi parar no Guiness Book já que poderia ser lido de trás para frente (com ‘ana’, mas um livro inteiro), e ainda sim permanece sendo o mesmo livro. Fantástico? Tentativa absurda de controlar o incontrolável? Surge, finalmente, o A vida modo de usar: em cada capítulo Perec se obriga a usar quarenta e duas regras distintas e lógicas. Aparecem inúmeras citações, referências a países diversos, personagens que sentados, em pé, de lado, segurando algo, etc… centenas de tabelas foram confeccionadas para compor esse livro (Se quiser saber mais, basta baixar o meu livro Literatura e Matemática na Amazon!). Difícil, né? Mas vale a leitura. O livro é maravilhoso!

A questão principal, talvez, é que você não precisa saber nada de matemática ou das regras utilizadas para ler os livros do Perec. São bonitos, delicados, profundos, sublimes (ou não, vai depender de cada um com é geralmente). Mas, se você é capaz de desvendar os mistérios, de saber das ‘leis’ que regem cada capítulo, cada linha, cada pensamento, o livro se torna mais mágico. Mais fabuloso. Mais empolgante! O poder inventivo da mente! A cada nova leitura, a cada nova resenha, a cada novo comentário alguém descobre (ou inventa) algo diferente. E, além das leituras de cada um (que são infinitas), as possibilidades lógicas que Perec apresenta abrem sempre novos caminhos.

Eu continuo me encantando diariamente com Perec… e por mais que estude, que trabalhe, que leia tudo relacionado ao seu projeto, mais eu fico sem saber. Mais e mais eu desconheço sua mágica… mais e mais eu me curvo diante da grandiosidade da nossa adorada literatura! (Semana que vem falo do livro Rua Labat Rua Ordener, de Sarah Kofman, um livro que me levou às lágrimas, que me fez enxergar finalmente que as palavras, por mais belas, matemáticas e profundas, não salvam e nunca salvarão ninguém).

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/NhqkgC

Uma última vereda

Fonte: Editora Rocco

Fonte: Editora Rocco

Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
Marcel Proust
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira
Este é meu último texto sobre a Flip. Já um pouco atrasado. Será que as minhas impressões sobre esse passado, ainda muito recente, estão se adulterando? Será que a construção da minha memória, da minha narração, da minha busca por uma fração desse tempo perdido é minimamente confiável? Verdadeira? Possível? E se eu me obrigar a escrever essas sensações, que ainda estão vívidas, mas um tanto falseadas, daqui a dez anos, o que permanecerá? O que será esquecido? O que ficará recalcado e subterrâneo? Não sei. Só sei que escrevo, mesmo sabendo que as reminiscências percorrerão uma nova e imponderável vereda.
Fonte: Editora Rocco

Fonte: Editora Rocco

Eu não parava de imaginar como seria o tão esperado papo sobre as Brochadas. Eu idealizava, sonhava, flanava pelas ruas de Paraty. O livreto com a “tentativa de esgotamento dos motivos das brochadas masculinas e femininas” já estava sendo distribuído e todos podiam conhecer um pouco mais do meu trabalho. E da minha loucura. Ao chegar na Casa Rocco já conseguia ver muitas pessoas ‘saboreando’ essas divagações brochantes. Estava tenso; não há, felizmente, controle algum sobre qualquer obra de arte…  mas, ao reparar sorrisos, gargalhadas e brincadeiras, fiquei um pouco mais tranquilo. Com mais vontade de entrar de cabeça nesse fantasioso mundo literário, transformando-me, portanto, num personagem sem vergonha, sem recalques… sem nenhuma gota de timidez. Assim começou o esperado debate.

E foi aí que descobri como o tema é relevante para todos! As pessoas se esbaldaram. Todo mundo queria fazer de si um personagem do Brochadas. Contar casos, fazer piadas, falar, falar muito mais do que devia. Todos poderiam finalmente entender essa questão tão tocante a todos nós, seres incompletos, impotentes e contingentes. Aquele era o ambiente perfeito para encontrar confidentes em textos literários, sagrados, canônicos. As pessoas se surpreenderam ao saber que Santo Agostinho, Platão, Montaigne já falavam sobre brochadas. Que a poesia de Pessoa, de Drummond, de Bernardo Guimarães já se encantava com o tema. E que a brochada era um assunto simples, belo e cotidiano, assim como a pornografia, o erotismo e imaginação dos textos picantes de Sade, Bataille e Safo lidos pela querida Professora Eliane Moraes. Eu acabei ficando um pouco calado: a obra, que ainda nem foi publicada, já era do leitor, do público, do outro. Estrangeiro de mim, o livro já transformava e se perdia do meu eu, da minha dor, das minhas invenções.

Assim eu me recordo ardilosamente, neste agora, daquele já passado sábado à noite. Assim eu me lembro daquela chuva. Daquela ansiedade. Daquela grande felicidade em atuar e viver de literatura.

(In)certezas lúdicas

De que é feito um texto? Fragmentos originais, montagens singulares, referências, acidentes, reminiscências, empréstimos voluntários. De que é feita uma pessoa? Migalhas de identificações, imagens incorporadas traços de caráter assimilados, tudo (se é que se pode dizer assim) formando uma ficção que se chama o eu.

Michel Schneider

Foto: Editora Rocco

Foto: Editora Rocco

Ontem foi a minha primeira mesa aqui na Flip – Casa Rocco. Frei Betto e eu conversamos sobre literatura infantil e falamos sobre algumas questões delicadas para todos nós. Morte, vida, fé, amor, literatura. Questões, acredito, que não têm e nunca terão nenhuma resposta. E, por isso, e somente por isso, são tão belas, profundas, sensíveis e misteriosas… O espaço da literatura, imagino, é o espaço da dúvida, do estranhamento e do estrangeiro. O falacioso lugar a arte habita. Completamente inútil, apesar de concebida para preencher de alma um corpo (e uma vida) vazio. Essa, talvez, seja a minha única crença… e minha única incerteza. Porém, supreendentemente, foram as muitas certezas que permearam a discussão.

A casa estava lotada! (Certamente, se eu falasse alguma besteira, como não deixo nunca de fazer, muitas das pessoas ali presentes poderiam rapidamente pisar no meu dedão do pé… ou até fazer algo pior… vai saber!) Encantei-me com a proximidade das pessoas. Encantei-me com a vontade e a felicidade delas por estarem ali presentes (não sei se elas desconfiaram, mas a felicidade maior era nossa… há sempre muita vaidade naqueles que falam…) Seus olhos, cheios de carinho e empatia, buscavam interagir e se integrar à festa… e se aproximar dos autores. Mas, conjecturo, elas também almejavam algumas respostas… respostas que eu não daria…

A verdade é que eu gostaria de ter alguma certeza. E alguma fé. E seguir algum caminho preestabelecido. Viver uma outra espécie de loucura. E de revelação. Porém, acho que me encontro eternamente na Tabacaria, acompanhado de Pessoa e do Esteves sem metafísica, cantarolando os seguintes versos: “Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”

Mas tudo isso é uma grande mentira! Ontem, confesso, não tinha nenhuma certeza… somente dúvidas, indagações e dilemas. E a literatura me auxiliando. Eu definitivamente não estava na minha zona de conforto. Mas hoje, sim, sou uma outra pessoa. Completamente metamorfoseado. Cheio de convicções e inúmeras respostas. Hoje posso responder todas as conjecturas imaginadas. Hoje tenho conhecimento empírico, literário, metafísico, religioso e científico no assunto! Falo, canto e recito a fantástica Ilíada das Brochadas (19h, na Casa Rocco)! “Vinde a mim, todos os que estão cansados, sobrecarregados e impotentes; eu vos aliviarei!” Amém!

Minha casa, minha vida

Eu me sinto um pouco sem ar na Flip (brocha?). É tanta coisa acontecendo simultaneamente que acabo me perdendo no meu próprio quarteirão (acho que as ruelas daqui conspiram e te transportam para algum outro mundo possível). São tantas pessoas, tantos eventos, tantas performances, personagens, egos e atores (“Arre, estou farto de semideuses”). A gente fica querendo conhecer tudo. Escutar e participar das lamentações e orações literárias, descobrir autores, canções, artistas. Saber falar de todos assuntos, de todas fofocas e talvez de toda literatura. E ainda se equilibrando por entre as tortuosas pedras munido daqueles malditos livretos das programações das casas. Como dizia o Tom Jobim sobre morar em Nova Iorque, e que cabe direitinho aqui: “é bom, mas é uma merda”.

Ilustração de João Paulo Rocco.

Ilustração de João Paulo Rocco.

Mas eis que encontro um oásis no meio de toda essa confusão. Um descanso de toda essa loucura. Um lugar para ficar curtindo as deliciosas horinhas de descuido que Riobaldo uma vez conclamou. A Casa Rocco é uma delícia! (E lá eu sou amigo do rei! Sonho também que tenho a mulher que quero, na cama que escolherei!) Um lugar arejado, calmo, colorido e cheio de sorrisos, de afagos e de cerveja (eu nem gosto tanto assim de cerveja, mas o primeiro gole caiu muito bem!). As pessoas podem circular tranquilamente, bater papo com a equipe, conhecer alguns autores e ainda comprar uns livrinhos da Editora. Uma grande alegria!  E lá também todos podem pegar um livreto com o primeiro capítulo do meu famigerado livro Brochadas. A nova e audaciosa Ilíada da impotência. Ai meu Deus! (Falando em Deus, hoje, dia 3 de julho às 15:00h, converso sobre literatura infantil, e a fé que não tenho, ao lado do Frei Betto. Todos estão convidados).

Confesso que estou um pouco em pânico e novamente sem ar. Acho que agora, finalmente, me dei conta que as minhas brochadas de fato existiram e se tornaram públicas! Todos estão convidados a compartilhá-las! Na minha casa (Rocco), minha vida (Brochadas) está totalmente escancarada. O livreto está lá, todo pintado obviamente de azul e pode ser levado para casa sem contraindicações. Apenas uma prévia do que virá em agosto.

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Há, no entanto, um incrível segredo na tinta: com uma brocha, untamos de citrato de sildenafil (Viagra) a capa.  Assim, caso seu amigo ou amiga passe por algum imprevisto (merdas acontecem), bastar rasgar um pedacinho do livreto e colocá-lo sobre a língua (estilo LSD) enquanto recita em voz alta partes do livro (condição necessária). Pronto! Nunca mais terá os terríveis problemas narrados por mim! Amém!

Bom, é isso: apareçam na Casa, ouçam as mesas, conversem calmamente com as pessoas longe do agito oficial da Festa… e se preparem para as grandes Brochadas!

O mundo mágico da Flip?

Escrevo da Flip. Escrevo o encantado mundo da Flip. Escrevo o mundo fantasioso, fantasiado e talvez inconcebível das festas literárias. Onde as obras dão lugar aos autores. Onde a morte do autor, já conclamada e cultuada décadas atrás por Barthes, deixa de fazer certo sentido. Ou passa a ser encarada de uma outra forma ainda mais literária. Enfeitiçada, roubada e falseada pelo olhar do poeta (como já diria ou inventava Rilke).

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Caminhando pelas ruas tortuosas e cheias de pedras (que fatalmente fez ou fará alguém torcer o pé ou o joelho e, com uma dor insuportável, mandar todo esse mundo artístico para aquele lugar) encontro vários autores. Verdadeiros autores ou apenas personagens da Festa e de si mesmos? Não sei. Desconfio. Peço indicações do melhor caminho a tomar, a partir dali, a Joca Reiners Terron, que passeava alegremente ao lado do rio com sua inconfundível barba. Ele me aponta, meio enigmático, algumas ruas. Não entendo muito bem suas indicações e continuo caminhando sem destino. O fato é que eu tinha que chegar a algum lugar, por isso prossegui. Um tempinho depois esbarro com um João Carrascoza apressado, ansioso e visivelmente atrasado, indo assistir alguma palestra, ou fugindo desesperadamente de alguém. Nem consigo perguntar direito o que ele está achando de tudo isso aqui. Ele some no meio da multidão, mas sei que nos encontraremos novamente. Por isso não ligo. Esse nonsense faz parte dos contos de fada. Vejo também o Marcelino Freire tomando um chá (especial) na Praça da Matriz. Não me sento com ele. Não tive a ousadia de me convidar e tampouco fui convidado. Por certo não havia lugar na mesa para mim. A verdade, acho, é que ele nem me notou. Eu sou estrangeiro nesse país daqui. Será que estou imaginando ou estou vivendo de fato tudo isso? Não sei. Mas, imerso nesse mundo de faz-de-conta, não posso deixar de sonhar Joca, Carrascoza e Marcelino como personagens de um possível País das Maravilhas de Paraty! Sorrio e continuo caminhando (com muito cuidado para não torcer meu pé!).

Surpreendentemente encontro Beatriz Sarlo. Bom, encontrar é uma palavra forte demais para o caso em questão. Até gostaria que nesse suposto ‘encontro’ ela tivesse se jogado em meus braços e apertado na bunda. Assim eu teria muito mais literatura e invenções para escrever! A verdade é que apenas a escutei falando no telão da Praça e bem mais tarde a vi jantando com as amigas num restaurante chique. Nada de intimidades entre nós, pelo menos por enquanto. (Ela ainda não me descobriu!).

Ah, a Beatriz Sarlo sempre foi uma figura mítica para mim! Fábula, fabulosa, fabulista (uma versão ainda mais encantada do que escreveu Drummond sobre Guimarães Rosa). Porém, acho que aqui minto e caio no erro comum dessas festas literárias. A verdade é que os livros da Beatriz Sarlo sempre foram cultuados e idealizados por mim. Nossa! Como eu li, reli, rabisquei, rasurei e chorei de raiva e emoção desbravando seus estudos crítico-literários. Como eu me apaixonei ainda mais por Borges por conta de suas profundas palavras! Como eu me vi, e me vejo, completamente en las orillas de tudo, de toda literatura, de todos os sentimentos e invenções após conhecer seu poderoso e revolucionário trabalho! … E como encarar, a partir de agora, a figura personificada, reles e humana, dessa outra Beatriz Sarlo? Lembro-me quase instantaneamente de Ray Bradbury e de seu Fahrenheit 451. A Beatriz Sarlo que caminha e sorri por aí não passa de uma cópia pífia e ordinária dos maravilhosos livros e invenções da ‘Beatriz Sarlo’ que tenho criado dentro de mim. Ela é, e sempre será para mim (mesmo que amanhã, em alguma esquina de Paraty, ela resolva me dar uns amassos) uma fantástica autora-livro sonhada como os personagens idealizados de Bradbury. Recrio aqui (um pouco decepcionado) uma outra Sarlo completamente metamorfoseada.

Antes de dormir reflito sobre minhas catarses e sobre a magia da Flip. Iludido e enamorado, convenço-me de que tudo isso aqui é mágico e louco, apesar do desencanto e do desencontro entre livro e autor. Resolvo descansar dessa vigília onírica que já foi demais para mim. Aguardo ansioso pelo dia seguinte e por novas e fantásticas aventuras. Sonho com o Bairro de Gonçalo Tavares (e também com uma jovem Sarlo).