(In)certezas lúdicas

De que é feito um texto? Fragmentos originais, montagens singulares, referências, acidentes, reminiscências, empréstimos voluntários. De que é feita uma pessoa? Migalhas de identificações, imagens incorporadas traços de caráter assimilados, tudo (se é que se pode dizer assim) formando uma ficção que se chama o eu.

Michel Schneider

Foto: Editora Rocco

Foto: Editora Rocco

Ontem foi a minha primeira mesa aqui na Flip – Casa Rocco. Frei Betto e eu conversamos sobre literatura infantil e falamos sobre algumas questões delicadas para todos nós. Morte, vida, fé, amor, literatura. Questões, acredito, que não têm e nunca terão nenhuma resposta. E, por isso, e somente por isso, são tão belas, profundas, sensíveis e misteriosas… O espaço da literatura, imagino, é o espaço da dúvida, do estranhamento e do estrangeiro. O falacioso lugar a arte habita. Completamente inútil, apesar de concebida para preencher de alma um corpo (e uma vida) vazio. Essa, talvez, seja a minha única crença… e minha única incerteza. Porém, supreendentemente, foram as muitas certezas que permearam a discussão.

A casa estava lotada! (Certamente, se eu falasse alguma besteira, como não deixo nunca de fazer, muitas das pessoas ali presentes poderiam rapidamente pisar no meu dedão do pé… ou até fazer algo pior… vai saber!) Encantei-me com a proximidade das pessoas. Encantei-me com a vontade e a felicidade delas por estarem ali presentes (não sei se elas desconfiaram, mas a felicidade maior era nossa… há sempre muita vaidade naqueles que falam…) Seus olhos, cheios de carinho e empatia, buscavam interagir e se integrar à festa… e se aproximar dos autores. Mas, conjecturo, elas também almejavam algumas respostas… respostas que eu não daria…

A verdade é que eu gostaria de ter alguma certeza. E alguma fé. E seguir algum caminho preestabelecido. Viver uma outra espécie de loucura. E de revelação. Porém, acho que me encontro eternamente na Tabacaria, acompanhado de Pessoa e do Esteves sem metafísica, cantarolando os seguintes versos: “Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”

Mas tudo isso é uma grande mentira! Ontem, confesso, não tinha nenhuma certeza… somente dúvidas, indagações e dilemas. E a literatura me auxiliando. Eu definitivamente não estava na minha zona de conforto. Mas hoje, sim, sou uma outra pessoa. Completamente metamorfoseado. Cheio de convicções e inúmeras respostas. Hoje posso responder todas as conjecturas imaginadas. Hoje tenho conhecimento empírico, literário, metafísico, religioso e científico no assunto! Falo, canto e recito a fantástica Ilíada das Brochadas (19h, na Casa Rocco)! “Vinde a mim, todos os que estão cansados, sobrecarregados e impotentes; eu vos aliviarei!” Amém!

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