O mundo mágico da Flip?

Escrevo da Flip. Escrevo o encantado mundo da Flip. Escrevo o mundo fantasioso, fantasiado e talvez inconcebível das festas literárias. Onde as obras dão lugar aos autores. Onde a morte do autor, já conclamada e cultuada décadas atrás por Barthes, deixa de fazer certo sentido. Ou passa a ser encarada de uma outra forma ainda mais literária. Enfeitiçada, roubada e falseada pelo olhar do poeta (como já diria ou inventava Rilke).

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Caminhando pelas ruas tortuosas e cheias de pedras (que fatalmente fez ou fará alguém torcer o pé ou o joelho e, com uma dor insuportável, mandar todo esse mundo artístico para aquele lugar) encontro vários autores. Verdadeiros autores ou apenas personagens da Festa e de si mesmos? Não sei. Desconfio. Peço indicações do melhor caminho a tomar, a partir dali, a Joca Reiners Terron, que passeava alegremente ao lado do rio com sua inconfundível barba. Ele me aponta, meio enigmático, algumas ruas. Não entendo muito bem suas indicações e continuo caminhando sem destino. O fato é que eu tinha que chegar a algum lugar, por isso prossegui. Um tempinho depois esbarro com um João Carrascoza apressado, ansioso e visivelmente atrasado, indo assistir alguma palestra, ou fugindo desesperadamente de alguém. Nem consigo perguntar direito o que ele está achando de tudo isso aqui. Ele some no meio da multidão, mas sei que nos encontraremos novamente. Por isso não ligo. Esse nonsense faz parte dos contos de fada. Vejo também o Marcelino Freire tomando um chá (especial) na Praça da Matriz. Não me sento com ele. Não tive a ousadia de me convidar e tampouco fui convidado. Por certo não havia lugar na mesa para mim. A verdade, acho, é que ele nem me notou. Eu sou estrangeiro nesse país daqui. Será que estou imaginando ou estou vivendo de fato tudo isso? Não sei. Mas, imerso nesse mundo de faz-de-conta, não posso deixar de sonhar Joca, Carrascoza e Marcelino como personagens de um possível País das Maravilhas de Paraty! Sorrio e continuo caminhando (com muito cuidado para não torcer meu pé!).

Surpreendentemente encontro Beatriz Sarlo. Bom, encontrar é uma palavra forte demais para o caso em questão. Até gostaria que nesse suposto ‘encontro’ ela tivesse se jogado em meus braços e apertado na bunda. Assim eu teria muito mais literatura e invenções para escrever! A verdade é que apenas a escutei falando no telão da Praça e bem mais tarde a vi jantando com as amigas num restaurante chique. Nada de intimidades entre nós, pelo menos por enquanto. (Ela ainda não me descobriu!).

Ah, a Beatriz Sarlo sempre foi uma figura mítica para mim! Fábula, fabulosa, fabulista (uma versão ainda mais encantada do que escreveu Drummond sobre Guimarães Rosa). Porém, acho que aqui minto e caio no erro comum dessas festas literárias. A verdade é que os livros da Beatriz Sarlo sempre foram cultuados e idealizados por mim. Nossa! Como eu li, reli, rabisquei, rasurei e chorei de raiva e emoção desbravando seus estudos crítico-literários. Como eu me apaixonei ainda mais por Borges por conta de suas profundas palavras! Como eu me vi, e me vejo, completamente en las orillas de tudo, de toda literatura, de todos os sentimentos e invenções após conhecer seu poderoso e revolucionário trabalho! … E como encarar, a partir de agora, a figura personificada, reles e humana, dessa outra Beatriz Sarlo? Lembro-me quase instantaneamente de Ray Bradbury e de seu Fahrenheit 451. A Beatriz Sarlo que caminha e sorri por aí não passa de uma cópia pífia e ordinária dos maravilhosos livros e invenções da ‘Beatriz Sarlo’ que tenho criado dentro de mim. Ela é, e sempre será para mim (mesmo que amanhã, em alguma esquina de Paraty, ela resolva me dar uns amassos) uma fantástica autora-livro sonhada como os personagens idealizados de Bradbury. Recrio aqui (um pouco decepcionado) uma outra Sarlo completamente metamorfoseada.

Antes de dormir reflito sobre minhas catarses e sobre a magia da Flip. Iludido e enamorado, convenço-me de que tudo isso aqui é mágico e louco, apesar do desencanto e do desencontro entre livro e autor. Resolvo descansar dessa vigília onírica que já foi demais para mim. Aguardo ansioso pelo dia seguinte e por novas e fantásticas aventuras. Sonho com o Bairro de Gonçalo Tavares (e também com uma jovem Sarlo).

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