Uma última vereda

Fonte: Editora Rocco

Fonte: Editora Rocco

Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
Marcel Proust
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira
Este é meu último texto sobre a Flip. Já um pouco atrasado. Será que as minhas impressões sobre esse passado, ainda muito recente, estão se adulterando? Será que a construção da minha memória, da minha narração, da minha busca por uma fração desse tempo perdido é minimamente confiável? Verdadeira? Possível? E se eu me obrigar a escrever essas sensações, que ainda estão vívidas, mas um tanto falseadas, daqui a dez anos, o que permanecerá? O que será esquecido? O que ficará recalcado e subterrâneo? Não sei. Só sei que escrevo, mesmo sabendo que as reminiscências percorrerão uma nova e imponderável vereda.
Fonte: Editora Rocco

Fonte: Editora Rocco

Eu não parava de imaginar como seria o tão esperado papo sobre as Brochadas. Eu idealizava, sonhava, flanava pelas ruas de Paraty. O livreto com a “tentativa de esgotamento dos motivos das brochadas masculinas e femininas” já estava sendo distribuído e todos podiam conhecer um pouco mais do meu trabalho. E da minha loucura. Ao chegar na Casa Rocco já conseguia ver muitas pessoas ‘saboreando’ essas divagações brochantes. Estava tenso; não há, felizmente, controle algum sobre qualquer obra de arte…  mas, ao reparar sorrisos, gargalhadas e brincadeiras, fiquei um pouco mais tranquilo. Com mais vontade de entrar de cabeça nesse fantasioso mundo literário, transformando-me, portanto, num personagem sem vergonha, sem recalques… sem nenhuma gota de timidez. Assim começou o esperado debate.

E foi aí que descobri como o tema é relevante para todos! As pessoas se esbaldaram. Todo mundo queria fazer de si um personagem do Brochadas. Contar casos, fazer piadas, falar, falar muito mais do que devia. Todos poderiam finalmente entender essa questão tão tocante a todos nós, seres incompletos, impotentes e contingentes. Aquele era o ambiente perfeito para encontrar confidentes em textos literários, sagrados, canônicos. As pessoas se surpreenderam ao saber que Santo Agostinho, Platão, Montaigne já falavam sobre brochadas. Que a poesia de Pessoa, de Drummond, de Bernardo Guimarães já se encantava com o tema. E que a brochada era um assunto simples, belo e cotidiano, assim como a pornografia, o erotismo e imaginação dos textos picantes de Sade, Bataille e Safo lidos pela querida Professora Eliane Moraes. Eu acabei ficando um pouco calado: a obra, que ainda nem foi publicada, já era do leitor, do público, do outro. Estrangeiro de mim, o livro já transformava e se perdia do meu eu, da minha dor, das minhas invenções.

Assim eu me recordo ardilosamente, neste agora, daquele já passado sábado à noite. Assim eu me lembro daquela chuva. Daquela ansiedade. Daquela grande felicidade em atuar e viver de literatura.

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