Month: agosto 2015

COLUNA SKOOB – Alice: aventuras através do espelho, da imaginação e da matemática

 

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Em 2015 comemoramos 150 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas! Um marco. Uma alegria. Uma celebração à grande literatura! Se hoje em dia pensamos cada vez mais nos limites e nas possibilidades de se fazer literatura; e também no que se pode falar (e o que se deve calar, ou não…), Alice emerge diariamente para abalar nossas estruturas, nossas crenças, nossa razão, nossa moral e nossa lógica. Alice desconstrói, desfigura, transmuta, transtorna. Alice é a nossa lolita eterna. Nosso infindável desejo. Nossa pulsão pelo gozo inacessível. Alice precisa ser reescrita diariamente.

Ler Alice é se entregar aos mistérios e ao estranhamento da lógica. É não entender, e mesmo assim se admirar. É debochar dessa lógica tradicional de sentidos e sensações que estamos totalmente acostumados e inseridos. Ela, a perpétua e perversa menina, nos convida a experimentar o desejo e a repulsa pela compreensão de um mundo que não parece ser nosso. Um mundo do inconsciente, da inatingível busca pelo crescimento, da ilusória inserção, da quimérica assimilação. Alice, nunca esqueçamos, é uma estrangeira no espelho e nas maravilhas desse incrédulo país. Ela, sempre inconformada, metamorfoseia-se constantemente buscando seu lugar nesse universo completamente improvável mas, talvez, muito mais possível, plausível e humano que o nosso.

Eu leio Alice e sempre me encanto. Encanto-me com poder ingênuo e inventivo de uma suposta percepção da simplicidade. Essa menina é simples, mas também é densa, complexa, sensual. Ela desperta desejos recalcados, provoca o inconsciente, incita e instiga o leitor. Eu quero saber mais sobre essa menina-mulher-lolita que exala certezas e dúvidas, que liberta os sentidos, que não reprime a fantasia. Eu preciso saber mais sobre esse personagem leviano e maravilhoso, fascinante e impiedoso, obsceno e também extremamente fantástico. Eu quero me tornar Alice. Eu quero possuir suas letras, suas palavras, sua textura. Eu quero, mas não posso.

Ler Alice dá tesão! Um tesão insano e literário. Uma vontade angustiante de escrever um livro com toda essa potência e com todo esse pecado. Um livro que possa perpetrar e desvirtuar inúmeras e infinitas leituras. Um livro leve, rápido, exato, (in)visível, múltiplo e consistente em suas inconsistências (Ítalo Calvino iria adorar). Eu preciso reescrever Alice. Roubar sua lógica, seu deslumbramento, seu fascínio. Eu quero me tornar o espelho do espelho, o estrangeiro do estrangeiro, o menino ingênuo e indefeso diante da monumental e esplêndida criação artística. É tudo isso (e também nada disso) que Alice propõe. É tudo isso que almejo, que ambiciono, que persigo. E é tudo isso que nunca, autor nenhum, literatura nenhuma irá atingir. Não conseguiremos jamais entender esse livro. E nem reescrevê-lo. Esse livro já foi legitimado pela passagem tensa do tempo, pelas diversas e contraditórias culturas, pelas falaciosas e improváveis leituras, pela fútil e despedaçada justiça. Amém! Vida longa à grande literatura. Vida longa à Alice!

(Semana que vem (19 de agosto na Travessa Leblon, e 20 de agosto na Livraria da Vila da Fradique, ambos de 19:00-22:00) lanço finalmente meu novo e polêmico livro. Brochadas. Vou falar sobre tabu e censura!).

Brochadas em 4 vídeos

Quatro vídeos mostram um pouco do universo de Brochadas — confissões sexuais de um jovem escritor:

Chulé, mau hálito, erro de português, pensar na ex… O que te faz brochar?

Jacques Fux, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 como melhor autor estreante, explora mais uma vez (e com muito humor) os limites da realidade e da ficção em seu segundo romance Brochadas — confissões sexuais de um jovem escritor.

A primeira vez em que Jacques “ficou na mão” foi inesquecível.

Jacques é autor e personagem de Brochadas. Não só ele, mas as ex-namoradas também abrem o jogo sobre como falharam em alguns de seus (des)encontros amorosos.

Bruxaria, maldição e olho gordo foram, por muito tempo, algumas das explicações para as brochadas.

Para combater a impotência, elixires, orações e várias referências literárias e históricas são reveladas em Brochadas.

As mulheres! Elas deveriam escrever esse livro, elas são as verdadeiras poetas-fingidoras!

E Jacques, como Colombo, faz a sua descoberta.

Brochadas chega às livrarias pela Rocco em agosto de 2015.

George Best e sua brochada

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Gastei boa parte do meu dinheiro em mulheres,

bebida e carros esportivos, o resto eu desperdicei.

Fontes fidedignas me contaram esta história. Afirmaram, categoricamente, que tudo não se passava de uma grande invenção do jogador irlandês George Best. Incorro, porém, no gigantesco erro de tentar transformar mera ficção em doce realidade. E isso não é a função da Literatura?

Disseram-me que tudo aconteceu num dia qualquer. Numa partida de futebol ou numa praça em algum lugar desse assombroso mundo. Mas, quem é que se importa de verdade com a realidade? Talvez somente os escritores e sonhadores. Por isso, transcrevo a verdadeira dor desse jogador.

“J. apareceu assim, como imagens em sonhos, um pouco fora de foco. Desconfiei dos meus olhos. Desconfiei do vazio do meu coração. Seu sorriso me perturbava. Provocava-me a sua beleza ainda não descoberta. Inflamavam-me sentimentos de dúvidas, incertezas e encantos a serem descobertos.

Logo depois da primeira mirada, procurei-a no meio da multidão. Não era capaz de reconhecer seus olhos. A memória traía meus sentimentos. Seria ela especial? Algumas horas se passaram até reencontrá-la. Primeiro encanto. Encanto que despertou o brilho do meu olhar. Brilhamos juntos. A neblina dos meus olhos transformava-se em nitidez.

E o dia passou. Outro dia chegou. Outra partida qualquer. Inesperada aparição. Cantarolava uma canção. Sua voz era uma canção. Nitidez. Lembrança. Sentimentos desgelando. Dançamos em outro lugar. Meu olhar não parava de persegui-la. Perscrutava seu corpo. Invadia sua mente. Sonhava seus sonhos. Tudo velado. Inventado. Sonhado. Joguei como nunca.

E o dia chegou. Final. Coração disparado. Literatura. Paixão. Minha paixão. J., minha única interlocutora. Expectadora. Fã. Mundo parado. Ansiedade. Ausência. Medo da sua descrença. Da sua partida. Mas J. chegou. Reluzente. Esvoaçante. Encantadora. Encantada. Fabulada. Fabulosa. Fábula. E todos meus gols seriam para ela. Só para ela. E assim foi.

Mas J. era silêncio. J. era labiríntica. J. era perversão. Procurei-a. Não encontrei nada além de rejeição. Dor. Escapei. Fugi. Resolvi esquecer. Desencantar. Voltar deliberadamente à solidão dos que estão acompanhados. Sem amor. Bebidas! Muitas bebidas. Sarjeta.

Mas ela me procurou novamente. Sem muita razão. Sem muito motivo. Tentando fugir da sua solidão. Seria ela capaz de vencer seu Pai? Edipiana? Relações incestuosas? Eu, o incesto? E ela mudou de foco. De objetivo. E reconquistou meu encanto. O Encanto. Voltei a jogar.

E num dia inventado qualquer. De um tempo sem tempo. De um lugar encantado. Algo aconteceu. “Não sei”, virou “Sim, eu quero”. “Eu posso”. “Eu sinto”. Demasiadamente humana e feliz. Rememoro seu gosto. Seu perfume. O beijo. O Beijo.  Klimt. Nossos corpos viraram um. Gol. Pintura. Cores. Beleza. Encanto. E o banco. Ainda não vazio. Ainda sem sonhos. Brilhou. Brilhamos. A Lua. O rio. Eu e J. O futuro incerto, mas mais provável. Carinhos. Carícias. Calores. O seu cheiro. O seu gosto. Suas palavras. Entranhas. Gozo. Vulcão de sensações e desejos. Aproveitei o momento. As nossas mãos enlaçadas. Não há nada como fazer gols!

O dia seguinte amanheceu enfeitado. Enfeitado com meu sorriso. Com minha alegria. Com o perfume de J. Gols, gozos e lembranças. Treino e mundo sem graça; sem ela. A paixão aflorando no meu corpo e na minha alma. Versos. Votos de amor. Nomes belos. Nomes feios. E um beijo roubado. O encontro repetido. Revivido. Revisitado em novos e fascinantes sabores.

Seu corpo. Meu corpo. Encontro. Encontro! O Encontro! Coitos. Carne. Pele. Gozo. Gosto do seu sexo na minha boca. A boca que mastigava e gritava palavras agora fascinava a vulva. Retorcia seu canto. Muito carinho. Muito do meu amor. Muito da minha paixão. Pequenas mortes. Pequenas e eternizadas mortes. Eu poderia prosseguir? Só, e somente só, com seu corpo e sua alma caminhando ao meu lado. Dormimos. Sustentável leveza do ser. O meu ser finalmente leve. Livre. Belo. Beleza. Leveza. Seu corpo era quente. Quente como meus sonhos. Meus pensamentos. Minha imaginação.

O dia amanheceu sem eternizar o orgasmo. Escolhi J., com todas suas belezas e imperfeições poéticas. Mas J. revivia seus monstros. Fantasmas povoavam sua mente estranha. Meu sexo lembrava o sexo de outro? Meu amor lembrava o desencontro com outro? Podia ela suportar a perfeição do meu desejo? Da minha escolha? Da minha certeza? Não. Definitivamente não.

J. retrocedeu. J. se absteve. J. se desencontrou. J. recriou pecados. Pesadelos. O meu falo não a preenchia. Ela era de outro. De outros tempos. Outros momentos. Outras dores. E eu queria acessá-la. Eu queria dizê-la que corpos não se encontram todo dia. Que almas só se encontram em momentos especiais. Talvez únicos. E esse tinha sido um desses poucos momentos. Um desses únicos encontros errantes. E que minha alma seria só dela. Só para ela. E meu corpo não saberia jogar outros jogos senão com ela. Para ela. Por ela.

Mas J. não me entendeu. J. não se entendeu. Partiu. E minha carreira, assim como minha vida, despedaçou.”

E diz que foi por isso. Só por isso. Por mais uma paixão desencontrada que George se perdeu. Brochou. Ele foi o talento que não vingou. A alegria que não contagiou. O gol que não fez. E assim se dedicou ao que de fato importa nessa vida inventada: mulheres, bebidas e carros. Já o amor… seu grande amor… o verdadeiro amor… George, assim como eu, desperdiçou.

Kit antibrochante: dicas dos sábios do passado

Em 2014, quando morava em Boston, vivi alguns momentos brochas, digamos assim. Entenda a brochada como quiser. Eu, confesso, sofri e brinquei bastante com o tema. Foram milhares de horas pesquisando e, para tentar me libertar e exorcizar meus monstros, resolvi escrever um livro inteiro sobre a questão!

O começo foi difícil. Falhei muitas vezes. Falhei miseravelmente entre idas e vindas, tentativas e mais tentativas. Nada de livro… nem de sexo! Mas, por ironia, falhando, e falhando cada vez melhor, acabei encontrando meu caminho. E qual não foi meu deleite, meu gozo, minha ereção, ao me ver ali, numa biblioteca lotada de gatinhas e de raros documentos que atestavam as brochadas dos maiores pensadores e escritores de todos os tempos! Indescritível! Once I was lost, but now I am found!

Entre as muitas histórias peneiradas, encontrei ‘causos’ de gente como Rousseau que, em Confissões, afirmou: “E repente, ao invés de chamas devorando meu corpo, senti um frio mortal percorrendo minhas veias; minhas pernas tremeram e, quase desmaiando, sentei e chorei como uma criança.” Também li o próprio Platão  reclamando, e muito, de seu “Platinho”: “Desobediente e teimoso, como uma criatura deficiente de razão.” Casos, histórias e livros muito engraçados. Descobri que John Ruskin, um grande pensador da Era Vitoriana, ao ver os vastos pelos pubianos de sua mulher na noite de núpcias em Veneza, brochou e fugiu desesperadamente, se recusando a consumar o casamento. Isso tinha acontecido comigo também! Eu não estava só!

Parte da pesquisa mostra como a maneira dos sábios e cientistas enfrentavam a questão da impotência. Ainda num tempo em que a pílula azul estava muito distante dos sonhos humanos, havia muitas receitas e os chamados ‘elixires antibrochantes’. Acabei criando um Kit Antibrochante para ajudar na publicidade do meu livro! Abaixo compartilho esse segredo e espero ajudá-los! Boa sorte (eu tenho vários desses kits espalhados na minha casa!)

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Kit antibrochante (uso contínuo)

Hipócrates (460 a.C. — 370 a.C.) considerado uma das figuras mais importantes da história da saúde, chamado “pai da medicina”, dizia que: “Legumes, cereais e nozes continham ar e calor necessários para ‘erguer’ a paixão.” Também recomendava o uso de “Cantárida [feito do corpo triturado de besouro] para evitar a brochada”.

O maior catálogo de antibrochantes foi escrito por Plínio, o Velho. Caio Plínio Segundo (23 — 79) recomendava: “Usar no pescoço o molar direito de um crocodilo para garantir a ereção nos homens.” Também indicava o consumo de “alho-poró, coentro fresco, aspargos para excitar o desejo sexual”.

Marco Valério Marcial (40 —102), poeta latino, escreveu em seus Epigramas: “Se o teu desejo diminui e afrouxa o ‘nó nupcial’/ tua comida será cebolinha/ teu banquete será de chalota.”

Pedânio Dioscórides (40 — 90) autor greco-romano, considerado o fundador da farmacognosia através da sua obra De materia medica, fonte preciosa de informação sobre drogas medicinais desde o século I até o século XVIII, indica: “Orquídeas mergulhadas em queijo de cabra se fores deitar com uma mulher e acaso precisares de coragem extra.”

Paulo de Égina (625 — 690) médico grego bizantino, conhecido por ter escrito o Compêndio médico em sete livros sugeria: “Moluscos, nabo, ervilha, anis, açafrão, mel, grão de bico e vinho contra o mal da impotência.”

Durante o século XIX, os médicos recomendavam: “Evitar café, chá, conhaque e tabaco e se fartar de arroz, milho, pão, aveia, frutas, pois a impotência sexual também significa impotência em tudo: mental, física, social, literária, etc.

Marie Charlotte Carmichael Stopes (1880 — 1958) escritora britânica, paleontologista, eugenista, ativista pelos direitos das mulheres e pioneira no campo de controle de natalidade, sugeria: “O uso de uma solução de Listerine e alume para evitar a ‘semi-impotência’ masculina.”

Seria essa a verdadeira dor?

Um livro. Um livro de memórias. Um livro de memórias traumáticas e terríveis. Um livro para mudar de vez a compreensão acerca do mundo, do ser humano, da História e de toda literatura. É isto um homem? descreve a dor, o espanto e o sofrimento de toda uma geração, de toda uma raça, de toda a suposta racionalidade humana. Primo Levi, então doutor em Química, é levado ao inferno de Auschwitz e por lá permanece onze meses. Período que muda sua vida e todo seu entendimento humano. Período que é narrado dolorosa e lucidamente nesse livro fundador da literatura de testemunho.

Testemunho, sob um viés, é o ato de escrever sobre os seus próprios momentos e as próprias lembranças. E isso não é tarefa fácil. Muito pelo contrário. A memória é enganosa, falaciosa e cheia de lacunas. E por ser extremamente limitada, é necessário tomar muitos cuidados. Cuidados para não se perder e nem para cair no lugar comum. E nem se esquecer de que está fazendo literatura de qualidade. Primo Levi sabe disso muito bem, e consegue escrever uma das mais belas obras sobre o sofrimento, sobre a memória e sobre a Shoah.

Nessa busca pelas lembranças dessa geração perdida; geração que entendeu que não haveria sentido algum em fazer poesia e beleza, Levi relata e medita sobre seu passado e sobre essas memórias coletivas. Mas ele não sabe como reconstruí-las. (Alguém, algum dia, saberá?) Como recriar algo que de fato ‘falta’. Algo que está inteiramente perdido. Algo que se busca constantemente, mas que se encontra tão recalcado e escondido que talvez nem apareça em pesadelos. Mas ele sabe também que, embora tudo isso permaneça subterrâneo e obscuro, sempre insiste em emergir como chagas e feridas tatuadas no corpo, na alma e em toda cultura humana. (Será que foram essas terríveis aflições revisitadas e resimbolizadas que o levaram a escolher sua morte em 1987?)

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Primo Levi, nesse brilhante livro, reflete sobre as limitações das palavras para expressar os sofrimentos e os assombros pelos quais passou nos campos da morte. Ele sabe, e sente, que recordar é sofrer novamente. É perscrutar inutilmente pela compreensão de algo ininteligível, apesar de extremamente racional, humano e verídico. É ter consciência que a vida, a História, a memória e a Shoah são coisas indecifráveis que ele, e todos nós, vivemos. Vivemos e enfrentamos diariamente.

É isto um homem? mostra, e prova, um pouco de todo o absurdo humano. Uma minúcia de toda capacidade de fazer e inventar o mal. Uma ninharia do que o homem (isto mesmo?) é capaz de conceber diariamente. Eu leio e releio esse livro com lágrimas nos olhos… e um certo ódio no coração. Eu me emociono com as palavras, com a sensibilidade, com a autoanálise do autor… e fico espantado de saber como algo assim foi capaz de ocorrer. Depois me lembro, ainda mais surpreso e angustiado, que, guardadas as devidas proporções (a Shoah foi um marco e um evento único), coisas assim acontecem e acontecerão enquanto existir o ser humano. Sim, Primo Levi, é isto mesmo que é o homem.

(Sem mais, semana que vem falo sobre Alice, em homenagem aos seus 150 anos).

Eventos de lançamento de Brochadas

Quatro cidades terão eventos de lançamento de Brochadas, a partir de 19 de agosto.

O primeiro evento será no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, com um bate-papo com a escritora Mary Del Priore:

Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/862982637089449/

No dia seguinte, estarei em São Paulo para um bate-papo com Márcia Tiburi e sessão de autógrafos na Livraria da Vila – Fradique:

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Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/972153636170355/

No dia 26 de agosto, às 19h, encontro os amigos, familiares e leitores de Belo Horizonte na Livraria Leitura do Pátio Savassi — e também haverá bate-papo com a Profª. Eneida Maria de Souza, da UFMG:

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Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/923689434337173/

Por último (por enquanto), encontrarei Diana Corso e Lina Wainberg para um bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria Cultura – Bourbon, em Porto Alegre:

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Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/1635765939971150/

Brochadas: A Jewish blind date

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O primeiro encontro às escuras (que na verdade foi muito às claras!) está bem descrito nas páginas iniciais do livro inaugural. Adão, até então sozinho e incompleto, pede a Deus uma companheira para preencher seu próprio vazio no Paraíso. Deus, que também vivia eternamente isolado, embora fontes apócrifas discordem desse fato ao referenciar Lilith como a ex-mulher renegada do Divino, resolveu atender ao pedido primordial. Nunca saberemos se Eva passou por algum crivo, se foi avaliada e aprovada por alguma família, e se os amigos e parentes foram com a cara e as vergonhas dela. O que sabemos é que Adão conheceu Eva e teve que se encantar com ela no primeiro dos primeiros encontros que a humanidade, a literatura, e deidade conceberam. E como essa história rendeu frutos pecaminosos, herdeiros e muita ficção, podemos dizer que esse blind date foi um sucesso! Essa peripécia artística teatral moldou principalmente a sociedade judaica que, desde então, vem (des)unindo incontáveis almas cabalisticamente incompletas. E eu, membro fálico do pacto firmado entre Abraão e o Divino Matchmaker, não poderia ser diferente. Participei de muitos desses encontros às escuras.

Podemos perceber todos os dias como a sociedade evoluiu. Antes éramos macacos desnudos poligâmicos, segundo a ficção evolucionista não adotada aqui, e hoje, após um grande mal estar na cultura, nos tornamos seres relativamente capazes, parcialmente monogâmicos, livre de odores e fezes, buscando perpetuar e assegurar a longevidade do nosso gene através do folclórico casamento. Tudo mudou, exceto a forma judaica de lutar contra a assimilação: os encontros às escuras continuam a todo vapor, porém com o auxílio contemporâneo da tecnologia.

A network judaica é muito forte. Informações circulam constantemente entre mães histéricas, rabinos barbudos e velhotas desmemoriadas. Recentemente essa Rede detectou a minha solteirice. Após ter namorado anos com não judias, descobriram que estava disponível um macho alfa judeu. Recebi algumas indicações, recomendações, sugestões, declarações e intimações de diversas judias prontas para reprodução. Entrei em contato com várias, conheci muitas, relacionei-me por frações mínimas e copulatórias de tempo com algumas, mas que não foram um grande sucesso como o tal do encontro primordial bíblico. Estava quase desistindo de praticar essa antiga modalidade e com isso jogar por terra (como fazia Onam) a minha possibilidade de um casamento judeu, quando me indicaram uma carioca via Facebook.

Fiquei admirado com seu perfil. Magistrada com lindos olhos verdes, pele clara, corpo malhado e muitas histórias em comum. Assim como eu, ela tinha morado em Israel, participado de um movimento juvenil, tomado gosto pelas viagens desbravadoras e também tinha o sonho secreto de ter muitos descendentes judeuzinhos. Trocamos algumas mensagens virtuais, mas ela nunca esboçou grande empolgação em me conhecer. Explico: uma magistrada no Brasil, apesar de ser tão qualificada quanto muitos outros profissionais, recebe um salário que desmerece qualquer outra ocupação (exceto a dos políticos, corruptos e repugnantes) além de possuir poder e hierarquia social superiores. Eu, apesar de 100% judeu, resolvi me dedicar à arte, à literatura à contemplação da Beleza (resumindo: um grande vagabundo ao olhar utilitarista), coisa que atrai uma parcela muita pequena das mulheres. Porém, conhecendo todas as histórias e poemas de amor, não poderia deixar de tentar conquistá-la sem antes lutar titanicamente. Propus um encontro às claras que foi aceito sem muita exaltação.

Viajei. Viajei em todos os sentidos. Tive que tomar o avião em direção à sua cidade e imaginei idealmente o encontro. Os corpos e as almas, assim como os falaciosos emails, se encontrariam? Preencheríamos o nosso Éden com muitos descendentes melequentos judeus? Ela seria minha uma grande merchante de filhos e de arte? Marcamos o nosso rendez-vous em um barzinho boêmio do Rio de Janeiro. Repleto de pessoas, ninguém saberia que naquela mesa ocorreria mais um dos históricos e antigos encontros arranjados. Em busca da inspiração para minha poesia, cheguei ao local combinado. Ela, radiante com seu vestido verde, dava-me esperanças e prometia-me devaneios. Diante da possibilidade de deixar essa minha vida errante, errando e desperdiçando minhas muitas sementinhas, resolvi empenhar-me na tarefa masculina da conquista. Dispus todo meu arsenal poético, cultural e lúdico. Contei e cantei histórias, músicas, casos e acasos. Inventei e me convenci de encontros às escuras que deram certo e que prosperam por gerações e gerações até chegar naquela fatídica mesa de bar.

A magistrada mirava-me sem me admirar. Quando tinha uma oportunidade de voltar à vida real, contava-me sentenças e julgamentos realizados. Atrelava-se à praticidade e a utilidade de sua profissão. Atestava o valor e o lastro do dinheiro que poetas e sonhadores não possuíam. Tornava-se lentamente desinteressante, exceto pelos seus lindos olhos verdes e por sua desejosa bundinha. Os poetas, assim como os cegos, sabem ver na escuridão e imaginar as redondices drummondianas de sua divertida e saborosa nádega. Assim, sendo mais homem que poeta, mesmo sendo ela desinteressante e desinteressada, encantei-me com a possibilidade de possuir seu corpo adâmico.

Continuei tentando. A magistrada, após muito escutar, e com todo seu poder institucionalizado como renomada juíza e como mulher que escolhe se o primeiro encontro terminará na troca de líquidos, exclamou com muito desânimo: “Que legal. Você sabe um tanto de coisa inútil!”. Refleti bastante. Que declaração! Ela conseguiu resumir em algumas poucas palavras toda a questão artística, além de me eliminar de qualquer disputa pelo seu corpo e pelo seu coração. Resignei-me. Resignei-me em nome de todos os poetas, escritores, literatos e sonhadores. Recordei-me de Oscar Wilde: “all art is quite useless” e retomei a inutilidade das minhas palavras e ações.

Toda arte, inútil por definição, tem a função libertadora. A arte, diferente do direito aplicado, não tem que se atrelar à funcionalidade, à aplicabilidade e à defesa dos direitos fundamentais do cidadão. Não. A arte inútil visa o desenlace de tudo que nos prende e nos distancia da verdadeira contemplação e admiração pela Beleza. A Arte, diferente da vida, almeja a Idealização. A magistrada rica e repleta de utilidade buscava no encontro às escuras, não a complementação do seu eu, e sim o reflexo de sua imagem. Alguém que engrandecesse suas conquistas. Eu, poeta, buscava às escuras a minha imagem refletida nos lindos olhos verdes da judia. Não nos encontramos. Perpetuamos mais uma das muitas histórias fracassadas de amor. Desencontramo-nos às claras no sonho das almas às escuras. Ambos, cegos, não estávamos dispostos a nos complementar. Só agora percebo que o pragmatismo da magistrada precisava da liberdade artística e somente agora também entendo que a arte liberta, mas que não pode viver só.

Mais um dos muitos Jewish blind dates se realizou. Mais um dos muitos desencontros da vida. Mais uma história apócrifa dos casais que não se uniram. Se o primeiro encontro às escuras da humanidade, apadrinhado pelo Divino Matchmaker, foi um sucesso, o último, tendo eu como figurante e apadrinhado pela mulher do rabino, não teve êxito algum. Acho que vou recorrer à praticidade jurídica exigindo meus direitos como sonhador, poeta e judeu.

*Publicado originalmente no saopauloreview.com.br

As coisas de que não me lembro, sou

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. 

Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. 

En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos.

Jorge Luis Borges

… des petits morceaux de quotidien, des choses que, telle ou telle année, tous les gens d’un même âge ont vues, ont vécues, ont partagées, et qui ensuite ont disparu, ont été oubliées; elles ne valaient pas la peine de faire partie de l’Histoire, ni de figurer dans les Mémoires des hommes d’État, des alpinistes et des monstres sacrés.

Il arrive cependant qu’elles reviennent, quelques années plus tard, intactes et minuscules, par hasard ou parce qu’on les a cherchées, un soir, entre amis.

Georges Perec

Nossas lembranças infantis nos mostram nossos primeiros anos não como eles foram, mas tal como apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas. Nesses períodos de despertar, as lembranças infantis não emergiram, (…) elas foram formadas nessa época.

Sigmund Freud

Há várias formas de esquecimento. A mais estudada é a extinção. Outra, popularizada por Freud, é a repressão. Existem memórias que não ultrapassam poucos segundos, e ficam na memória de trabalho. 

Outras não ultrapassam a memória de curta duração (e não ficam na memória de longa duração). 

Outras memórias duram poucos dias e depois desaparecem. 

Por último, há o esquecimento real: memórias que desaparecem por falta de uso, com atrofia sináptica.

Ivan Izquierdo

1. Tudo que lembro de não me lembrar

Eu não me lembro do dia em que nasci. Nem do dia em que fui concebido. Não me lembro de ter crescido, e nem de ter habitado aquele lugar quentinho e confortável durante nove meses. Não me lembro de ter mamado sequer uma vez (e olha que mamei até um ano). Não me lembro do sabor do leite materno. Não me lembro do meu brit-milá (e deve ter doído bastante). Também não me lembro do meu primeiro gole de vinho, que foi com oito dias de idade. Não me lembro daquele primeiro período da vida que se iniciava em que dormia horas e horas feliz e amamentado. Também não me lembro do toque no meu corpo nu, das mãos carinhosas e amáveis dos meus pais. Não me lembro do meu cheiro, do cheiro da minha casa, do cheiro da minha bisavó que tanto tomava conta de mim. Não me lembro de abrir os olhos, de abrir a boca, de babar, de chorar, de fazer manha. Não me lembro da noite, do dia, da minha respiração e da respiração dos meus entes amados. Não me lembro do meu pé gordinho, dos meus joelhos inchados, das minhas coxas redondas, da minha boca sem dentes. Não me lembro dos abraços, dos beijos, das carícias, dos suspiros, das conversas, dos sorrisos e nem das lágrimas. Não me lembro do amor dos outros, nem tampouco do meu.

Não me lembro de engatinhar. Engatinhar para todos os lados descobrindo que o mundo poderia ser maior. Muito mais repleto de coisas, de cheiros, de perigos. Não lembro do meu joelho doer no fim do dia após ter desvelado tantos mistérios e enigmas. Não tenho a menor recordação do dia em que fui incentivado a levantar. A bater palmas. A sorrir. A encantar e chantagear quem estivesse por perto. Não me lembro de usar fraldas. Não me lembro de tirá-las. Não me lembro do meu próprio cheiro quando ainda não sabia ir ao banheiro. Também não lembro dos cheiros ruins e dos cheiros gostosos. Do mundo de novas e fantásticas sensações que me cercava. Não me lembro do meu primeiro passo, que foi na Bahia. Também não me lembro do meu primeiro tombo, dessa primeira vez em que me abandonaram por uma mínima fração de segundo, quando finalmente conheci o susto. Não me lembro de nenhuma dor, de nenhuma vacina, de nenhum soluço, de fome alguma. Não me lembro de estar no colo dos meus pais, dos meus avós, da minha bisavó, dos vizinhos, dos falsos amigos. Não me lembro do bafo de ninguém. Não me lembro da minha primeira refeição. Da minha primeira banana amassada. Da primeira maça raspada. Da minha primeira papinha. Também não me lembro de ficar na cadeirinha esperando o tão aguardado aviãozinho da refeição. Não me lembro da mamadeira, das estórias contadas antes de dormir, de não ter medo algum de nada e nem de ninguém. Não me lembro da alienação, não me lembro de ter sonhos e desejos, não me lembro de nenhuma noite dormida. E de nenhum dia acordado. Não me lembro de saber o que era o amor.

Não me lembro de falar errado. Não me lembro de ser analfabeto como meus avós. Não me lembro de saber se as palavras que pronunciava, ou escutava, eram em iídiche ou português. Não me lembro da dor, visível nos olhos da minha bisavó, por causa da sua filha especial. Também não me recordo do sofrimento dos meus pais por causa do meu irmão. Não tenho lembrança alguma do meu irmão como alguém diferente. Não me lembro do frio, de sentir fome, cansaço, sono, tristeza, dor. Não existiam na época, ou eu era totalmente privado (e blindado) contra eles. Não me lembro do amor, mas era só isso que vivia.

Não me lembro do primeiro encontro com um outro. Um outro que não existisse somente para me dar amor. Não lembro de saber que a vida pudesse ter outro sentido que não fosse a minha própria existência. Não me lembro quando me dei conta de que eu não era meus pais.

Não me lembro do dia em que fui para escola pela primeira vez. Não me lembro de nenhuma mordida, nenhum soco, nenhuma briga que tive com algum colega. Nem me recordo de ter sido colega de ninguém no jardim de infância. Não me lembro das brincadeiras, dos sorrisos, das corridas e saltos mirabolantes. Também não me lembro das lágrimas da minha mãe quando me deixou pela primeira vez nessa escola. Não me recordo do meu desespero, do meu pranto, dos soluços e da dor de barriga de tanto chorar. Não me lembro da professora, de sua tentativa em ludibriar, transformar e recriar um mundo fora do útero dos meus pais. Também não me lembro do dia em que a escola passou a ser essencial e que os amigos se tornaram fundamentais. Não lembro da profunda atenção que meus pais davam ao meu irmão, da completa ausência de tios e avós na minha criação. Não me lembro (e gostaria muito de reviver) o carinho especial da minha bisavó. O amor que ela viveu com minha mãe e que revivia comigo. Também não me lembro do seu desaparecimento. De ser capaz de ressignificar amor e ausência.

Não me lembro do primeiro grito de reprovação que recebi (nem do segundo, nem do terceiro). Também não me lembro de ter aprendido algo com esse grito, com esse tapa, com o dedo em riste, com o olhar sério, com a voz grossa, com a necessidade de ser educado. Não me lembro dos professores da minha infância. Devem ter sido sensíveis, carinhosos e tolos. Não me lembro de colorir, de encaixar brinquedos, de jogar objetos em rebeldia, mostrando que eu tinha vontade própria, de gritar, fazer pirraça e calar quando bem entendia. Não me lembro de começar a escrever, de repetir infindavelmente as letras do meu nome, de descobrir o som distinto e paradoxal da última letra do meu sobrenome. De entender a herança pesada da minha família e da minha cultura. Não lembro de descobrir o fabuloso mundo que se desvelava com a minha alfabetização. Mundo imponderável para meus avós e bisavós. Não me recordo de trazer para aula o nome e a profissão dos meus pais, avós, tios. Não me lembro de construir a árvore genealógica de minha família, de escutar sobre a origem dos meus ancestrais e dos ancestrais de meus amigos. Não me lembro de me dar conta de que as professoras não eram judias, de que o mundo não era judeu, de que tatuagens com números estranhos nos braços dos avós não eram coisas normais, comuns e cotidianas. Não me lembro de estranhar o nome Auschwitz ou de compreender que genocídios não eram coisas cotidianas e banais. Não me lembro de associar as palavras barbárie, poesia e amor.

Não me lembro de ter aprendido o alfabeto. De repetir fastidiosamente o som das vogais e das consoantes. Não me recordo de ter aprendido o estranho som da letra ‘h’ e nem de ter a percepção e consciência do ‘w’. Não me lembro de sentir nenhum desejo, cobiça e volúpia pelo outro. Ele ainda fazia parte de mim. Não me lembro da disputa e da competição pelo olhar da professora. Por seu amor e admiração. Não me lembro das brigas, das desilusões, das primeiras angústias que só aconteciam na escola. Não me lembro quando diferenciei pela primeira vez meninos de meninas. Não me recordo do dia em que olhei para uma menina e algo diferente se passou em mim. Talvez um brilho mais intenso no meu olhar. Talvez uma quentura inaugural percorrendo meu corpo.

Não me lembro da primeira vez em que cheguei em casa desiludido. Não me lembro do dia em que descobri que todos os outros alunos da escola também eram especiais, e que uns eram muito mais especiais e queridos pelas professoras que os outros. E eu não era um dos queridinhos. Não me lembro do dia em que algum amigo preteriu outro a mim. Também devo ter apagado completamente a lembrança do dia em que uma menina escolheu olhar para outro e fechar os olhos para minha perfeição. Não lembro de compreender que o mundo poderia ruir um dia. Que eu podia me abalar. Que eu poderia sofrer.

Também não lembro do dia em que descobri que meus pais não eram perfeitos. Que meu pai não era herói. Que minha mãe o havia escolhido antes de me gerar. E que eu era somente o segundo, ou o terceiro. Não me lembro do dia em que reparei algum defeito nos meus pais. Não me lembro do dia em que eu percebi o cheiro deles. Um cheiro que já não era meu. Não me recordo do dia em que tive vergonha dos meus pais. Em que concebi as terríveis diferenças e limitações do meu irmão. E também tive vergonha e me escondi. E passei a esconder as histórias da minha casa. Também não me lembro do dia em que comecei a invejar as outras famílias, fantasiadas na minha mente como normais, e que desejei estar no corpo de outro. Também não sei quanto tempo isso tudo durou. E quanto tempo depois descobri que nada disso tinha sentido. Que cada um tinha que viver com suas próprias dores. E com suas próprias invenções.

Não me recordo de aprender hebraico. Não me lembro de saber que hebraico não se falava correntemente no Brasil. Também não me lembro do dia em que comecei a esquecer propositalmente essa língua. Nem de quando percebi que iídiche não se falava na rua. Também não me lembro do dia em que entendi que as palavras em iídiche tinham uma conotação negativa. Uma conotação de dor, de saudade da diáspora da minha família e de sentir no corpo e na fala o não pertencimento a lugar algum. Uma tentativa inútil de preservação cultural. De recordar tempos e épocas em que meus antepassados tinham que fugir constantemente. Também não me lembro quando entendi que falar essa língua era discriminar as pessoas e o país que acolheram minha família. Também não sei se eles foram acolhidos, se foram felizes, se viveram em paz. Não me lembro de conversar com eles sobre isso. Nem sei como eles me passaram os valores culturais, históricos, familiares e dolorosos do judaísmo. Também não lembro da primeira vez que comi guelfite fish.

Não me recordo da paixão pelas rezas matinais. Não me lembro o porquê cantava com tanto fervor e alegria versos em hebraico (que eu não entendia nada). Não me lembro da certeza que tinha em relação à existência de Deus. Do Deus judeu. Não sei dizer quando eu rezava acreditando que Deus me ouviria. E quando eu trapaceava, e era vil e mesquinho, almejando que Deus me esquecesse naquele momento. Não me lembro do dia em que Deus me abandonou e nem do dia em que eu o abandonei. Eternamente. Não me lembro de tê-lo matado, e nem de quando ele matou meu tio. Também não sei quem o fez. Tampouco entendi a dor da minha família, da minha avó, dos meus primos. Também não lembro do dia que compreendi que eu e meus pais éramos mortais.

2. Tudo que lembro de não compreender

Não me lembro mais do dia em que passei a considerar o amor como sofrimento. Não me recordo o dia em que amei a primeira menina que não me queria. Em que passei a me tornar melancólico. Também não lembro da certeza que tinha que era o melhor e o mais inteligente de todos. Não me lembro de me tornar estúpido, arrogante e metido. De me retrair. De ficar na minha. De blasfemar. De achar que o mundo não era bom o suficiente para mim. Também não me lembro do dia em que gostei de me ver inserido no mundo goy, E que passei a detestar e amar simultaneamente o judaísmo. A detestar fazer jejum e lembrar, constantemente, das infelicidades desse meu povo. A me encantar com a possibilidade de viver em um país forte, novo, briguento. Também não me lembro do dia em que tive pela primeira vez ojeriza da sinagoga e de muitos de seus membros. Não lembro mais o motivo. Não me lembro mais da aversão que tive dos seus cheiros, roupas e mesquinharias.

Não lembro mais porque me achava diferente e melhor em meio ao mundo católico. Também não me lembro da razão por me considerar um estranho e pior no mundo judeu. Não me lembro porque comecei a ler. Não me lembro mais do primeiro, do segundo e do terceiro livro que li. Não me lembro das sensações que senti. Não me lembro porque me achava especial por carregar um livro nas mãos. Não me lembro de gostar de ler nenhum livro para o colégio.

Não me lembro o motivo de ter gostado da matemática. De ter gostado de física. De ter gostado de esportes. Não me lembro porque deixei de gostar de todo conhecimento teórico. Não me recordo porque voltei a gostar da teoria. Não me lembro quando gostei de amar o amor, e quando comecei a detestar o amor. Não me lembro de quantas meninas amei. Não me lembro quantas deixaram de me amar e quantas eu nunca amei de verdade. Não me lembro porque admirava a todo instante meninas com culturas distintas da minha e porque as depreciava por não serem judias. Também não sei quando isso tudo mudou. E nem se mudou.

Não me lembro da primeira vez em que conheci de perto a loucura. A loucura da outra. A loucura pelo amor. A loucura de todos. A minha própria loucura. Não me lembro das quedas, da constatação da minha própria ignorância e dos meus próprios limites. Não lembro o porquê fugia sempre quando algo estava complicado. Não compreendo o motivo de nunca encarar a vida e seus percalços. Não me lembro porque sempre ludibriava a dificuldade. Não me lembro de aprender nada, apenas fingir, falsear e fugir.

Não me lembro do dia em que conheci o mal. O mal nos outros e em mim mesmo. Não me recordo do dia em que fui pela primeira vez mesquinho, babaca e egoísta. Algo que se repetiria em mim. Algo que se repete constantemente no mundo. Não me lembro do dia em que achei que só o outro era capaz de me fazer mal. Que só o outro poderia trair minha confiança. Que só o outro podia roubar meu amor, meus sonhos e meus desejos mais íntimos. Não me lembro do dia em que eu também roubei, traí e desejei o desejo do outro.

Não me lembro das coisas que esqueci para poder viver. Não me lembro dos amores que extingui por medo de ressurgirem. Não lembro o motivo da invenção do meu ódio. Da minha raiva pelo mundo judeu e pelo mundo não judeu. Não me lembro de idealizar a beleza e a tristeza da Shoah. Não me lembro de quando me coloquei como vítima para ser amado pelos outros e nem de quando compreendi a grande estupidez em me colocar nessa posição. Não me lembro porque aceitava tudo. Não me lembro o motivo de me encontrar em Macabéa. De estranhar Borges. De me ver como um lobo da estepe. De amar os olhos de Capitu. De sofrer na Sibéria. De me masturbar na Irlanda, nos Estados Unidos, na Grécia e em Roma. Infelizmente não me lembro (e como gostaria de viver tudo de novo) das sensações ao ler um livro pela primeira vez. O Livro. Das emoções de passar, página a página, o amor e a dor de Riobaldo. Das lágrimas que deveriam ter escorrido ao penetrar no Sertão. Não me lembro do dia em que entendi que a literatura muda a vida. Que a arte é literatura. Também não me lembro do dia em que compreendi que ela não serve para nada. Que pode ser bela, forte e burra.

3. Tudo o que me tornei em função de não me lembrar

Não me lembro dos livros que li. Não me lembro de quais livros inventei que li. Não me lembro dos livros que fantasiei que li. Também não me lembro da vida que eu vivi. Da memória que eu inventei. Dos fatos que recalquei. Das dores que ludibriei. Dos sonhos que não tive. Não me lembro dos sonhos que descartei. Dos medos que me frearam. Das dores que nunca cicatrizaram. Dos versos que escrevi. Que inventei. Que copiei. Que gostaria de ter escrito. Que nunca serei capaz de escrever. Também não me lembro de todas as idealizações do amor. De todas as invenções que depositei no outro. De todo amor que tive somente pelo espelho.

Não me lembro de ter aprendido a não tentar, mesmo tendo sido recusado muitas vezes. Não me lembro de ter deixado de amar, mesmo após várias desilusões. Não me lembro de ter deixado de escrever, mesmo não acreditando que escrevia algo importante. Também não entendo o motivo de continuar escrevendo e almejando um amor.

Não me lembro mais das vidas que roubei. Dos sonhos que reinventei. Dos versos que plagiei. Não me lembro de tudo que sei. Não me lembro de tudo que não sei. Não consigo contabilizar todo conhecimento que tenho. Ou que acho que tenho. Ou que invento que tenho. Ou que escrevo para mostrar.

Inútil dizer que não esqueço nada que não me lembro.

Conto publicado originalmente na Revista da Academia Brasileira de Letras.

JACQUES FUX (http://www.skoob.com.br/autor/13652-jacques-fux) nasceu em Belo Horizonte em 1977. Com extenso currículo acadêmico, Jacques é graduado em matemática, mestre em ciência da computação, doutor e pós-doutor em literatura, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (http://www.skoob.com.br/literatura-e-matematica-383339ed493616.html -Tradição Planalto, 2011) recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras/Linguística do Brasil. Antiterapias (http://www.skoob.com.br/antiterapias-352603ed395864.html – Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito do próximo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Editora Rocco, 2015, prelo), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

Holocausto, Auschwitz ou Shoah?

Jacques Fux

Universidade Harvard / FAPESP Unicamp

Em 20 de Janeiro de 1942 aconteceu a Conferência de Wannsee. Liderada por Reinhard Heydrich, e com a presença do alto escalão do partido nazista, entre eles Adolf Eichmann, os participantes resolveram exterminar onze milhões de pessoas. Essa resolução ficaria sendo conhecida como a “Solução Final da questão judaica europeia”.

Os eficientes burocratas, entretanto, ainda teriam que definir algumas regras e classificações de quem se enquadraria nessa condenação. Resolveu-se que quem possuísse ao menos um avô ou avó de origem judaica seria caçado e ‘removido’ para os Campos de Concentração e Extermínio. Mesmo aqueles que estavam completamente assimilados à cultura alemã e que não se sentiam mais judeus, por exemplo, se enquadrariam na classificação. Gershom Scholem, um dos maiores estudiosos do misticismo judaico, narrou a incredulidade de muitos judeus alemães que se sentiram ultrajados ao serem levados de suas casas pois se achavam mais ‘alemães’ que os próprios perpetradores. Foi neste momento que o judeu percebeu que, mesmo estando completamente assimilado a outra cultura ou crença, seria sempre visto como diferente e estrangeiro.

Os eventos seguintes a essa conferência, apesar das nossas reais limitações em entendê-los, produziram uma das maiores catástrofes (talvez a maior) que a humanidade já conheceu. Essa indústria ou máquina da morte, que resultou na quase total destruição dos judeus da Europa, posteriormente recebeu alguns nomes: Holocausto, Shoah, Auschwitz, entre outros.

Uma das primeiras pessoas a usar o termo Holocausto para designar o aniquilamento das comunidades europeias durante a Segunda Guerra foi o escritor e prêmio Nobel Elie Wiesel. Sobrevivente, Wiesel perseguiu durante toda sua vida (e ainda persegue) uma forma de tentar descrever as atrocidades desse período. “Guerra, tragédia, destruição: essas palavras não me convinham e eu procurava uma outra. Nesta  época, eu estudava o sacrifício de Isaac e encontrei no texto o termo holocausto, em hebraico “ola”, que significa oferenda pelo fogo. Ele ressoava com tonalidade diferente, implicava um aspecto místico”. Assim o escritor passou a usar o termo Holocausto durante um período de sua vida

Posteriormente, o próprio escritor deixou de usar esse termo e preferiu criar outro: Événement ou Reino da Noite. Um estudo mais aprofundado sobre o termo revelou um sentido de ‘oferenda’ e de ‘sacrifício ritual’. Assim como, segundo a concepção católica, Cristo teria se sacrificado para expiar os pecados da humanidade, alguns estudiosos acreditam que o emprego conotativo do termo Holocausto poderia sugerir uma forma de sacrifício, de ‘dar-se em Holocausto’ para expiação de algum pecado, o que não poderia e deveria ser empregado neste caso.

O termo Shoah, encontrado no Deuteronômio, e que pode significar devastação, aniquilamento e destruição sem explicação, é o termo mais utilizado principalmente na França. A própria intraduzibilidade do termo Shoah ajudaria a tentar entender o que se passou durante a Solução Final. Um dos mais importantes filmes sobre o tema, produzido pelo diretor francês Claude Lazmann, e recém-lançado no Brasil, leva o nome de Shoah, contribuindo para a difusão do termo.

A cidade de Oswiecim, na Polônia, conhecida como Auschwitz, abrigou a maior indústria da morte até então conhecida. O gigantesco complexo de Auschwitz abrigava, simplificadamente, um Campo de Prisioneiros (Auschwitz I), um Campo de Extermínio (Auschwitz II – Birkenau) e um Campo de Concentração (Auschwitz III), próximo às indústrias alemãs que utilizavam trabalho escravo, como a Siemens e a Krupp.

Talvez o Campo de Extermínio Treblinka tenha sido mais eficiente que o complexo de Auschwitz, se olharmos para os números e o tempo que ficou em funcionamento. Entretanto, houve uma fuga de alguns prisioneiros em Treblinka e os alemães resolveram destruir todas as evidências do lugar. O local hoje não possui quase nenhum registro do que aconteceu e sobreviventes que puderam testemunhar foram muito poucos. Auschwitz, por sua vez, pode ser visitado e a estrutura do campo ainda se encontra quase intacta. Além disso, muitos sobreviventes puderam dar seu testemunho.

Assim, portanto, talvez o melhor termo para tentar denominar os acontecimentos posteriores à Conferência de Wannsee seja Shoah. Holocausto, muitas vezes, pode adquirir uma conotação negativa ao entendê-lo como sacrifício. Auschwitz, por sua vez, nomeia somente um dos lugares, terrível, mas que não abarca toda complexidade da solução final. Shoah, difícil de escrever, difícil de traduzir, difícil de expressar, talvez represente esse murmúrio e lamento que infelizmente o mundo conheceu.

*Texto publicado originalmente no São Paulo Review sobre Holocausto

Brochadas: uma ficção?

 

Brochadas é, sobretudo, uma reflexão sobre o amor; sobre o amor entre mulher e homem, que não pode prescindir do sexo. Jacques Fux dá ao termo uma acepção que não está nos dicionários — pois, além de incluir a experiência feminina, explora o conceito sob um viés filosófico, transcendendo o psiquismo e o fisiologismo.

Alberto Mussa

 

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Eu me lembro exatamente do dia em que comecei a escrever o Brochadas. Depois de viver um romance maravilhoso, repleto de sonhos, planos e mudanças, porém extremamente conturbado e violento, ganhei um inesperado e miserável pé na bunda!

Naquele fim de semana tudo caminhava bem. Apesar das discussões tradicionais, acabamos acertando todas as nossas desavenças, tivemos uma fantástica e tórrida noite em que os corpos e as almas finalmente se encontraram, e nos despedimos certos de que uma nova vida a dois teria início. Ela saiu do táxi em direção ao seu trabalho com lindo e amoroso sorriso. Eu retribuí com um beijo caloroso e saboreei uma sensação de que finalmente tudo estava nos eixos e que poderíamos viver uma vida tranquila dali para frente. Grande engano. Três dias depois, de forma completamente inesperada, recebi uma WhatsApp colocando um fim doloroso em todos meus devaneios, planos e desejos em relação a ela. A vida, o ‘real’, o possível, é exatamente o que acontece nessas horinhas de completo descuido.

Nós nunca mais nos vimos. Nós nunca mais nos falamos. Nós nunca mais soubemos notícias do outro. Ela ficou tatuada em mim por muito tempo. Eu a vi diversas vezes saindo daquele táxi, com aquele maravilhoso sorriso e com aquela segurança do nosso futuro. Essa cena cinematográfica – Feitiço do tempo, talvez tenha se repetido em mim por insólitas eternidades. Se eu soubesse que aquele momento seria o último teria feito tudo diferente. Eu não deixaria jamais que ela saísse daquele táxi. Eu não deixaria jamais que as nossas bocas e os nossos corações se separassem. Eu não deixaria jamais que nossos sonhos não fossem mais os mesmos. Mas a vida é o imponderável. O imprevisível. A contingência. A brochada. Aquele sorriso ainda cintila tragicamente na minha memória… ela partiu, partiu e não deixou nada… apenas aquele sorriso perverso de Cheschire.

Se nada disso existe mais, e se nada disso subsiste, nem mesmo nessas minhas memórias fracas e inventadas, qual o sentido de tudo? Será que é preciso que algo realmente faça sentido? Acho que não. Mas naquele momento eu quis eternizar a dor. A minha dor falseada, as minhas reminiscências dissimuladas e a sombra dos meus desencantos perdidos. Resolvi escrever, e fazer piada, sobre todas as desilusões vivenciadas. Resolvi encontrar distintas veredas e quimeras. Resolvi desvairadamente inventar novos párias como eu.

O livro nasce do desencontro. Do desencanto. Da desilusão. Da brochada. Nasce da tentativa de compreender o imprevisível. O casual. O contingente. Surge como mais um experimento literário que pretende inutilmente capturar a vertigem, o fugaz, o esvaziamento. A gente não consegue controlar absolutamente nada. A gente, apesar de sonhar, de desejar, de buscar transcender, é sempre apunhalado pelo mistério. Mesmo diante da ilusória certeza, da enganosa segurança tênue do amor, da traiçoeira convicção de estar vivo, somos insultados constantemente pelo acaso.

Acredito que seja nas desilusões, então, que os seres humanos acabam se unindo. Brochadas é, portanto, um livro que nos une através da frustração. A frustração das mais variadas histórias que não deram certo. (Ou que deram certo até demais). O livro fala de inúmeras decepções amorosas, literárias, literais, históricas, metafísicas, masculinas, femininas, religiosas, sarcásticas, cômicas. Conta causos e brochadas comuns, e também gozos e gozadas excepcionais. Flerta com o erótico, com o pornográfico, com as histórias íntimas e recalcadas de cada um. Brinca com cheiros, perfumes, personalidades, ídolos, mitos e com a religião. Descontrói certezas. Edifica dúvidas. Debocha da dor. Glorifica a perplexidade.

Assim, depois de uma longa e laboriosa pesquisa o livro chega ao seu êxtase provando que ninguém está sozinho (somente o Ziraldo, aquele que segundo a sua própria lenda, nunca brochou!). Que todos nós, ricos, pobres, nobres, célebres, mentirosos, religiosos, famosos, genocidas, abstêmios, virgens e putos brochamos. Brochamos e necessariamente não compreendemos. Brochamos, e ainda sim, precisamos viver e encarar erguidos essa inverossímil vida repleta de amores e constantes pés na bunda.

JACQUES FUX é escritor, pesquisador e acadêmico. Seu romance de estreia, Antiterapias, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autores estreantes em 2013. Seu mais novo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, será lançado em 19 de agosto pela Editora Rocco.