As coisas de que não me lembro, sou

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. 

Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. 

En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos.

Jorge Luis Borges

… des petits morceaux de quotidien, des choses que, telle ou telle année, tous les gens d’un même âge ont vues, ont vécues, ont partagées, et qui ensuite ont disparu, ont été oubliées; elles ne valaient pas la peine de faire partie de l’Histoire, ni de figurer dans les Mémoires des hommes d’État, des alpinistes et des monstres sacrés.

Il arrive cependant qu’elles reviennent, quelques années plus tard, intactes et minuscules, par hasard ou parce qu’on les a cherchées, un soir, entre amis.

Georges Perec

Nossas lembranças infantis nos mostram nossos primeiros anos não como eles foram, mas tal como apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas. Nesses períodos de despertar, as lembranças infantis não emergiram, (…) elas foram formadas nessa época.

Sigmund Freud

Há várias formas de esquecimento. A mais estudada é a extinção. Outra, popularizada por Freud, é a repressão. Existem memórias que não ultrapassam poucos segundos, e ficam na memória de trabalho. 

Outras não ultrapassam a memória de curta duração (e não ficam na memória de longa duração). 

Outras memórias duram poucos dias e depois desaparecem. 

Por último, há o esquecimento real: memórias que desaparecem por falta de uso, com atrofia sináptica.

Ivan Izquierdo

1. Tudo que lembro de não me lembrar

Eu não me lembro do dia em que nasci. Nem do dia em que fui concebido. Não me lembro de ter crescido, e nem de ter habitado aquele lugar quentinho e confortável durante nove meses. Não me lembro de ter mamado sequer uma vez (e olha que mamei até um ano). Não me lembro do sabor do leite materno. Não me lembro do meu brit-milá (e deve ter doído bastante). Também não me lembro do meu primeiro gole de vinho, que foi com oito dias de idade. Não me lembro daquele primeiro período da vida que se iniciava em que dormia horas e horas feliz e amamentado. Também não me lembro do toque no meu corpo nu, das mãos carinhosas e amáveis dos meus pais. Não me lembro do meu cheiro, do cheiro da minha casa, do cheiro da minha bisavó que tanto tomava conta de mim. Não me lembro de abrir os olhos, de abrir a boca, de babar, de chorar, de fazer manha. Não me lembro da noite, do dia, da minha respiração e da respiração dos meus entes amados. Não me lembro do meu pé gordinho, dos meus joelhos inchados, das minhas coxas redondas, da minha boca sem dentes. Não me lembro dos abraços, dos beijos, das carícias, dos suspiros, das conversas, dos sorrisos e nem das lágrimas. Não me lembro do amor dos outros, nem tampouco do meu.

Não me lembro de engatinhar. Engatinhar para todos os lados descobrindo que o mundo poderia ser maior. Muito mais repleto de coisas, de cheiros, de perigos. Não lembro do meu joelho doer no fim do dia após ter desvelado tantos mistérios e enigmas. Não tenho a menor recordação do dia em que fui incentivado a levantar. A bater palmas. A sorrir. A encantar e chantagear quem estivesse por perto. Não me lembro de usar fraldas. Não me lembro de tirá-las. Não me lembro do meu próprio cheiro quando ainda não sabia ir ao banheiro. Também não lembro dos cheiros ruins e dos cheiros gostosos. Do mundo de novas e fantásticas sensações que me cercava. Não me lembro do meu primeiro passo, que foi na Bahia. Também não me lembro do meu primeiro tombo, dessa primeira vez em que me abandonaram por uma mínima fração de segundo, quando finalmente conheci o susto. Não me lembro de nenhuma dor, de nenhuma vacina, de nenhum soluço, de fome alguma. Não me lembro de estar no colo dos meus pais, dos meus avós, da minha bisavó, dos vizinhos, dos falsos amigos. Não me lembro do bafo de ninguém. Não me lembro da minha primeira refeição. Da minha primeira banana amassada. Da primeira maça raspada. Da minha primeira papinha. Também não me lembro de ficar na cadeirinha esperando o tão aguardado aviãozinho da refeição. Não me lembro da mamadeira, das estórias contadas antes de dormir, de não ter medo algum de nada e nem de ninguém. Não me lembro da alienação, não me lembro de ter sonhos e desejos, não me lembro de nenhuma noite dormida. E de nenhum dia acordado. Não me lembro de saber o que era o amor.

Não me lembro de falar errado. Não me lembro de ser analfabeto como meus avós. Não me lembro de saber se as palavras que pronunciava, ou escutava, eram em iídiche ou português. Não me lembro da dor, visível nos olhos da minha bisavó, por causa da sua filha especial. Também não me recordo do sofrimento dos meus pais por causa do meu irmão. Não tenho lembrança alguma do meu irmão como alguém diferente. Não me lembro do frio, de sentir fome, cansaço, sono, tristeza, dor. Não existiam na época, ou eu era totalmente privado (e blindado) contra eles. Não me lembro do amor, mas era só isso que vivia.

Não me lembro do primeiro encontro com um outro. Um outro que não existisse somente para me dar amor. Não lembro de saber que a vida pudesse ter outro sentido que não fosse a minha própria existência. Não me lembro quando me dei conta de que eu não era meus pais.

Não me lembro do dia em que fui para escola pela primeira vez. Não me lembro de nenhuma mordida, nenhum soco, nenhuma briga que tive com algum colega. Nem me recordo de ter sido colega de ninguém no jardim de infância. Não me lembro das brincadeiras, dos sorrisos, das corridas e saltos mirabolantes. Também não me lembro das lágrimas da minha mãe quando me deixou pela primeira vez nessa escola. Não me recordo do meu desespero, do meu pranto, dos soluços e da dor de barriga de tanto chorar. Não me lembro da professora, de sua tentativa em ludibriar, transformar e recriar um mundo fora do útero dos meus pais. Também não me lembro do dia em que a escola passou a ser essencial e que os amigos se tornaram fundamentais. Não lembro da profunda atenção que meus pais davam ao meu irmão, da completa ausência de tios e avós na minha criação. Não me lembro (e gostaria muito de reviver) o carinho especial da minha bisavó. O amor que ela viveu com minha mãe e que revivia comigo. Também não me lembro do seu desaparecimento. De ser capaz de ressignificar amor e ausência.

Não me lembro do primeiro grito de reprovação que recebi (nem do segundo, nem do terceiro). Também não me lembro de ter aprendido algo com esse grito, com esse tapa, com o dedo em riste, com o olhar sério, com a voz grossa, com a necessidade de ser educado. Não me lembro dos professores da minha infância. Devem ter sido sensíveis, carinhosos e tolos. Não me lembro de colorir, de encaixar brinquedos, de jogar objetos em rebeldia, mostrando que eu tinha vontade própria, de gritar, fazer pirraça e calar quando bem entendia. Não me lembro de começar a escrever, de repetir infindavelmente as letras do meu nome, de descobrir o som distinto e paradoxal da última letra do meu sobrenome. De entender a herança pesada da minha família e da minha cultura. Não lembro de descobrir o fabuloso mundo que se desvelava com a minha alfabetização. Mundo imponderável para meus avós e bisavós. Não me recordo de trazer para aula o nome e a profissão dos meus pais, avós, tios. Não me lembro de construir a árvore genealógica de minha família, de escutar sobre a origem dos meus ancestrais e dos ancestrais de meus amigos. Não me lembro de me dar conta de que as professoras não eram judias, de que o mundo não era judeu, de que tatuagens com números estranhos nos braços dos avós não eram coisas normais, comuns e cotidianas. Não me lembro de estranhar o nome Auschwitz ou de compreender que genocídios não eram coisas cotidianas e banais. Não me lembro de associar as palavras barbárie, poesia e amor.

Não me lembro de ter aprendido o alfabeto. De repetir fastidiosamente o som das vogais e das consoantes. Não me recordo de ter aprendido o estranho som da letra ‘h’ e nem de ter a percepção e consciência do ‘w’. Não me lembro de sentir nenhum desejo, cobiça e volúpia pelo outro. Ele ainda fazia parte de mim. Não me lembro da disputa e da competição pelo olhar da professora. Por seu amor e admiração. Não me lembro das brigas, das desilusões, das primeiras angústias que só aconteciam na escola. Não me lembro quando diferenciei pela primeira vez meninos de meninas. Não me recordo do dia em que olhei para uma menina e algo diferente se passou em mim. Talvez um brilho mais intenso no meu olhar. Talvez uma quentura inaugural percorrendo meu corpo.

Não me lembro da primeira vez em que cheguei em casa desiludido. Não me lembro do dia em que descobri que todos os outros alunos da escola também eram especiais, e que uns eram muito mais especiais e queridos pelas professoras que os outros. E eu não era um dos queridinhos. Não me lembro do dia em que algum amigo preteriu outro a mim. Também devo ter apagado completamente a lembrança do dia em que uma menina escolheu olhar para outro e fechar os olhos para minha perfeição. Não lembro de compreender que o mundo poderia ruir um dia. Que eu podia me abalar. Que eu poderia sofrer.

Também não lembro do dia em que descobri que meus pais não eram perfeitos. Que meu pai não era herói. Que minha mãe o havia escolhido antes de me gerar. E que eu era somente o segundo, ou o terceiro. Não me lembro do dia em que reparei algum defeito nos meus pais. Não me lembro do dia em que eu percebi o cheiro deles. Um cheiro que já não era meu. Não me recordo do dia em que tive vergonha dos meus pais. Em que concebi as terríveis diferenças e limitações do meu irmão. E também tive vergonha e me escondi. E passei a esconder as histórias da minha casa. Também não me lembro do dia em que comecei a invejar as outras famílias, fantasiadas na minha mente como normais, e que desejei estar no corpo de outro. Também não sei quanto tempo isso tudo durou. E quanto tempo depois descobri que nada disso tinha sentido. Que cada um tinha que viver com suas próprias dores. E com suas próprias invenções.

Não me recordo de aprender hebraico. Não me lembro de saber que hebraico não se falava correntemente no Brasil. Também não me lembro do dia em que comecei a esquecer propositalmente essa língua. Nem de quando percebi que iídiche não se falava na rua. Também não me lembro do dia em que entendi que as palavras em iídiche tinham uma conotação negativa. Uma conotação de dor, de saudade da diáspora da minha família e de sentir no corpo e na fala o não pertencimento a lugar algum. Uma tentativa inútil de preservação cultural. De recordar tempos e épocas em que meus antepassados tinham que fugir constantemente. Também não me lembro quando entendi que falar essa língua era discriminar as pessoas e o país que acolheram minha família. Também não sei se eles foram acolhidos, se foram felizes, se viveram em paz. Não me lembro de conversar com eles sobre isso. Nem sei como eles me passaram os valores culturais, históricos, familiares e dolorosos do judaísmo. Também não lembro da primeira vez que comi guelfite fish.

Não me recordo da paixão pelas rezas matinais. Não me lembro o porquê cantava com tanto fervor e alegria versos em hebraico (que eu não entendia nada). Não me lembro da certeza que tinha em relação à existência de Deus. Do Deus judeu. Não sei dizer quando eu rezava acreditando que Deus me ouviria. E quando eu trapaceava, e era vil e mesquinho, almejando que Deus me esquecesse naquele momento. Não me lembro do dia em que Deus me abandonou e nem do dia em que eu o abandonei. Eternamente. Não me lembro de tê-lo matado, e nem de quando ele matou meu tio. Também não sei quem o fez. Tampouco entendi a dor da minha família, da minha avó, dos meus primos. Também não lembro do dia que compreendi que eu e meus pais éramos mortais.

2. Tudo que lembro de não compreender

Não me lembro mais do dia em que passei a considerar o amor como sofrimento. Não me recordo o dia em que amei a primeira menina que não me queria. Em que passei a me tornar melancólico. Também não lembro da certeza que tinha que era o melhor e o mais inteligente de todos. Não me lembro de me tornar estúpido, arrogante e metido. De me retrair. De ficar na minha. De blasfemar. De achar que o mundo não era bom o suficiente para mim. Também não me lembro do dia em que gostei de me ver inserido no mundo goy, E que passei a detestar e amar simultaneamente o judaísmo. A detestar fazer jejum e lembrar, constantemente, das infelicidades desse meu povo. A me encantar com a possibilidade de viver em um país forte, novo, briguento. Também não me lembro do dia em que tive pela primeira vez ojeriza da sinagoga e de muitos de seus membros. Não lembro mais o motivo. Não me lembro mais da aversão que tive dos seus cheiros, roupas e mesquinharias.

Não lembro mais porque me achava diferente e melhor em meio ao mundo católico. Também não me lembro da razão por me considerar um estranho e pior no mundo judeu. Não me lembro porque comecei a ler. Não me lembro mais do primeiro, do segundo e do terceiro livro que li. Não me lembro das sensações que senti. Não me lembro porque me achava especial por carregar um livro nas mãos. Não me lembro de gostar de ler nenhum livro para o colégio.

Não me lembro o motivo de ter gostado da matemática. De ter gostado de física. De ter gostado de esportes. Não me lembro porque deixei de gostar de todo conhecimento teórico. Não me recordo porque voltei a gostar da teoria. Não me lembro quando gostei de amar o amor, e quando comecei a detestar o amor. Não me lembro de quantas meninas amei. Não me lembro quantas deixaram de me amar e quantas eu nunca amei de verdade. Não me lembro porque admirava a todo instante meninas com culturas distintas da minha e porque as depreciava por não serem judias. Também não sei quando isso tudo mudou. E nem se mudou.

Não me lembro da primeira vez em que conheci de perto a loucura. A loucura da outra. A loucura pelo amor. A loucura de todos. A minha própria loucura. Não me lembro das quedas, da constatação da minha própria ignorância e dos meus próprios limites. Não lembro o porquê fugia sempre quando algo estava complicado. Não compreendo o motivo de nunca encarar a vida e seus percalços. Não me lembro porque sempre ludibriava a dificuldade. Não me lembro de aprender nada, apenas fingir, falsear e fugir.

Não me lembro do dia em que conheci o mal. O mal nos outros e em mim mesmo. Não me recordo do dia em que fui pela primeira vez mesquinho, babaca e egoísta. Algo que se repetiria em mim. Algo que se repete constantemente no mundo. Não me lembro do dia em que achei que só o outro era capaz de me fazer mal. Que só o outro poderia trair minha confiança. Que só o outro podia roubar meu amor, meus sonhos e meus desejos mais íntimos. Não me lembro do dia em que eu também roubei, traí e desejei o desejo do outro.

Não me lembro das coisas que esqueci para poder viver. Não me lembro dos amores que extingui por medo de ressurgirem. Não lembro o motivo da invenção do meu ódio. Da minha raiva pelo mundo judeu e pelo mundo não judeu. Não me lembro de idealizar a beleza e a tristeza da Shoah. Não me lembro de quando me coloquei como vítima para ser amado pelos outros e nem de quando compreendi a grande estupidez em me colocar nessa posição. Não me lembro porque aceitava tudo. Não me lembro o motivo de me encontrar em Macabéa. De estranhar Borges. De me ver como um lobo da estepe. De amar os olhos de Capitu. De sofrer na Sibéria. De me masturbar na Irlanda, nos Estados Unidos, na Grécia e em Roma. Infelizmente não me lembro (e como gostaria de viver tudo de novo) das sensações ao ler um livro pela primeira vez. O Livro. Das emoções de passar, página a página, o amor e a dor de Riobaldo. Das lágrimas que deveriam ter escorrido ao penetrar no Sertão. Não me lembro do dia em que entendi que a literatura muda a vida. Que a arte é literatura. Também não me lembro do dia em que compreendi que ela não serve para nada. Que pode ser bela, forte e burra.

3. Tudo o que me tornei em função de não me lembrar

Não me lembro dos livros que li. Não me lembro de quais livros inventei que li. Não me lembro dos livros que fantasiei que li. Também não me lembro da vida que eu vivi. Da memória que eu inventei. Dos fatos que recalquei. Das dores que ludibriei. Dos sonhos que não tive. Não me lembro dos sonhos que descartei. Dos medos que me frearam. Das dores que nunca cicatrizaram. Dos versos que escrevi. Que inventei. Que copiei. Que gostaria de ter escrito. Que nunca serei capaz de escrever. Também não me lembro de todas as idealizações do amor. De todas as invenções que depositei no outro. De todo amor que tive somente pelo espelho.

Não me lembro de ter aprendido a não tentar, mesmo tendo sido recusado muitas vezes. Não me lembro de ter deixado de amar, mesmo após várias desilusões. Não me lembro de ter deixado de escrever, mesmo não acreditando que escrevia algo importante. Também não entendo o motivo de continuar escrevendo e almejando um amor.

Não me lembro mais das vidas que roubei. Dos sonhos que reinventei. Dos versos que plagiei. Não me lembro de tudo que sei. Não me lembro de tudo que não sei. Não consigo contabilizar todo conhecimento que tenho. Ou que acho que tenho. Ou que invento que tenho. Ou que escrevo para mostrar.

Inútil dizer que não esqueço nada que não me lembro.

Conto publicado originalmente na Revista da Academia Brasileira de Letras.

JACQUES FUX (http://www.skoob.com.br/autor/13652-jacques-fux) nasceu em Belo Horizonte em 1977. Com extenso currículo acadêmico, Jacques é graduado em matemática, mestre em ciência da computação, doutor e pós-doutor em literatura, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (http://www.skoob.com.br/literatura-e-matematica-383339ed493616.html -Tradição Planalto, 2011) recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras/Linguística do Brasil. Antiterapias (http://www.skoob.com.br/antiterapias-352603ed395864.html – Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito do próximo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Editora Rocco, 2015, prelo), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

Compartilhe:

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado. Digite todas as informações necessárias abaixo!