Brochadas: uma ficção?

 

Brochadas é, sobretudo, uma reflexão sobre o amor; sobre o amor entre mulher e homem, que não pode prescindir do sexo. Jacques Fux dá ao termo uma acepção que não está nos dicionários — pois, além de incluir a experiência feminina, explora o conceito sob um viés filosófico, transcendendo o psiquismo e o fisiologismo.

Alberto Mussa

 

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Eu me lembro exatamente do dia em que comecei a escrever o Brochadas. Depois de viver um romance maravilhoso, repleto de sonhos, planos e mudanças, porém extremamente conturbado e violento, ganhei um inesperado e miserável pé na bunda!

Naquele fim de semana tudo caminhava bem. Apesar das discussões tradicionais, acabamos acertando todas as nossas desavenças, tivemos uma fantástica e tórrida noite em que os corpos e as almas finalmente se encontraram, e nos despedimos certos de que uma nova vida a dois teria início. Ela saiu do táxi em direção ao seu trabalho com lindo e amoroso sorriso. Eu retribuí com um beijo caloroso e saboreei uma sensação de que finalmente tudo estava nos eixos e que poderíamos viver uma vida tranquila dali para frente. Grande engano. Três dias depois, de forma completamente inesperada, recebi uma WhatsApp colocando um fim doloroso em todos meus devaneios, planos e desejos em relação a ela. A vida, o ‘real’, o possível, é exatamente o que acontece nessas horinhas de completo descuido.

Nós nunca mais nos vimos. Nós nunca mais nos falamos. Nós nunca mais soubemos notícias do outro. Ela ficou tatuada em mim por muito tempo. Eu a vi diversas vezes saindo daquele táxi, com aquele maravilhoso sorriso e com aquela segurança do nosso futuro. Essa cena cinematográfica – Feitiço do tempo, talvez tenha se repetido em mim por insólitas eternidades. Se eu soubesse que aquele momento seria o último teria feito tudo diferente. Eu não deixaria jamais que ela saísse daquele táxi. Eu não deixaria jamais que as nossas bocas e os nossos corações se separassem. Eu não deixaria jamais que nossos sonhos não fossem mais os mesmos. Mas a vida é o imponderável. O imprevisível. A contingência. A brochada. Aquele sorriso ainda cintila tragicamente na minha memória… ela partiu, partiu e não deixou nada… apenas aquele sorriso perverso de Cheschire.

Se nada disso existe mais, e se nada disso subsiste, nem mesmo nessas minhas memórias fracas e inventadas, qual o sentido de tudo? Será que é preciso que algo realmente faça sentido? Acho que não. Mas naquele momento eu quis eternizar a dor. A minha dor falseada, as minhas reminiscências dissimuladas e a sombra dos meus desencantos perdidos. Resolvi escrever, e fazer piada, sobre todas as desilusões vivenciadas. Resolvi encontrar distintas veredas e quimeras. Resolvi desvairadamente inventar novos párias como eu.

O livro nasce do desencontro. Do desencanto. Da desilusão. Da brochada. Nasce da tentativa de compreender o imprevisível. O casual. O contingente. Surge como mais um experimento literário que pretende inutilmente capturar a vertigem, o fugaz, o esvaziamento. A gente não consegue controlar absolutamente nada. A gente, apesar de sonhar, de desejar, de buscar transcender, é sempre apunhalado pelo mistério. Mesmo diante da ilusória certeza, da enganosa segurança tênue do amor, da traiçoeira convicção de estar vivo, somos insultados constantemente pelo acaso.

Acredito que seja nas desilusões, então, que os seres humanos acabam se unindo. Brochadas é, portanto, um livro que nos une através da frustração. A frustração das mais variadas histórias que não deram certo. (Ou que deram certo até demais). O livro fala de inúmeras decepções amorosas, literárias, literais, históricas, metafísicas, masculinas, femininas, religiosas, sarcásticas, cômicas. Conta causos e brochadas comuns, e também gozos e gozadas excepcionais. Flerta com o erótico, com o pornográfico, com as histórias íntimas e recalcadas de cada um. Brinca com cheiros, perfumes, personalidades, ídolos, mitos e com a religião. Descontrói certezas. Edifica dúvidas. Debocha da dor. Glorifica a perplexidade.

Assim, depois de uma longa e laboriosa pesquisa o livro chega ao seu êxtase provando que ninguém está sozinho (somente o Ziraldo, aquele que segundo a sua própria lenda, nunca brochou!). Que todos nós, ricos, pobres, nobres, célebres, mentirosos, religiosos, famosos, genocidas, abstêmios, virgens e putos brochamos. Brochamos e necessariamente não compreendemos. Brochamos, e ainda sim, precisamos viver e encarar erguidos essa inverossímil vida repleta de amores e constantes pés na bunda.

JACQUES FUX é escritor, pesquisador e acadêmico. Seu romance de estreia, Antiterapias, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autores estreantes em 2013. Seu mais novo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, será lançado em 19 de agosto pela Editora Rocco.

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