George Best e sua brochada

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Gastei boa parte do meu dinheiro em mulheres,

bebida e carros esportivos, o resto eu desperdicei.

Fontes fidedignas me contaram esta história. Afirmaram, categoricamente, que tudo não se passava de uma grande invenção do jogador irlandês George Best. Incorro, porém, no gigantesco erro de tentar transformar mera ficção em doce realidade. E isso não é a função da Literatura?

Disseram-me que tudo aconteceu num dia qualquer. Numa partida de futebol ou numa praça em algum lugar desse assombroso mundo. Mas, quem é que se importa de verdade com a realidade? Talvez somente os escritores e sonhadores. Por isso, transcrevo a verdadeira dor desse jogador.

“J. apareceu assim, como imagens em sonhos, um pouco fora de foco. Desconfiei dos meus olhos. Desconfiei do vazio do meu coração. Seu sorriso me perturbava. Provocava-me a sua beleza ainda não descoberta. Inflamavam-me sentimentos de dúvidas, incertezas e encantos a serem descobertos.

Logo depois da primeira mirada, procurei-a no meio da multidão. Não era capaz de reconhecer seus olhos. A memória traía meus sentimentos. Seria ela especial? Algumas horas se passaram até reencontrá-la. Primeiro encanto. Encanto que despertou o brilho do meu olhar. Brilhamos juntos. A neblina dos meus olhos transformava-se em nitidez.

E o dia passou. Outro dia chegou. Outra partida qualquer. Inesperada aparição. Cantarolava uma canção. Sua voz era uma canção. Nitidez. Lembrança. Sentimentos desgelando. Dançamos em outro lugar. Meu olhar não parava de persegui-la. Perscrutava seu corpo. Invadia sua mente. Sonhava seus sonhos. Tudo velado. Inventado. Sonhado. Joguei como nunca.

E o dia chegou. Final. Coração disparado. Literatura. Paixão. Minha paixão. J., minha única interlocutora. Expectadora. Fã. Mundo parado. Ansiedade. Ausência. Medo da sua descrença. Da sua partida. Mas J. chegou. Reluzente. Esvoaçante. Encantadora. Encantada. Fabulada. Fabulosa. Fábula. E todos meus gols seriam para ela. Só para ela. E assim foi.

Mas J. era silêncio. J. era labiríntica. J. era perversão. Procurei-a. Não encontrei nada além de rejeição. Dor. Escapei. Fugi. Resolvi esquecer. Desencantar. Voltar deliberadamente à solidão dos que estão acompanhados. Sem amor. Bebidas! Muitas bebidas. Sarjeta.

Mas ela me procurou novamente. Sem muita razão. Sem muito motivo. Tentando fugir da sua solidão. Seria ela capaz de vencer seu Pai? Edipiana? Relações incestuosas? Eu, o incesto? E ela mudou de foco. De objetivo. E reconquistou meu encanto. O Encanto. Voltei a jogar.

E num dia inventado qualquer. De um tempo sem tempo. De um lugar encantado. Algo aconteceu. “Não sei”, virou “Sim, eu quero”. “Eu posso”. “Eu sinto”. Demasiadamente humana e feliz. Rememoro seu gosto. Seu perfume. O beijo. O Beijo.  Klimt. Nossos corpos viraram um. Gol. Pintura. Cores. Beleza. Encanto. E o banco. Ainda não vazio. Ainda sem sonhos. Brilhou. Brilhamos. A Lua. O rio. Eu e J. O futuro incerto, mas mais provável. Carinhos. Carícias. Calores. O seu cheiro. O seu gosto. Suas palavras. Entranhas. Gozo. Vulcão de sensações e desejos. Aproveitei o momento. As nossas mãos enlaçadas. Não há nada como fazer gols!

O dia seguinte amanheceu enfeitado. Enfeitado com meu sorriso. Com minha alegria. Com o perfume de J. Gols, gozos e lembranças. Treino e mundo sem graça; sem ela. A paixão aflorando no meu corpo e na minha alma. Versos. Votos de amor. Nomes belos. Nomes feios. E um beijo roubado. O encontro repetido. Revivido. Revisitado em novos e fascinantes sabores.

Seu corpo. Meu corpo. Encontro. Encontro! O Encontro! Coitos. Carne. Pele. Gozo. Gosto do seu sexo na minha boca. A boca que mastigava e gritava palavras agora fascinava a vulva. Retorcia seu canto. Muito carinho. Muito do meu amor. Muito da minha paixão. Pequenas mortes. Pequenas e eternizadas mortes. Eu poderia prosseguir? Só, e somente só, com seu corpo e sua alma caminhando ao meu lado. Dormimos. Sustentável leveza do ser. O meu ser finalmente leve. Livre. Belo. Beleza. Leveza. Seu corpo era quente. Quente como meus sonhos. Meus pensamentos. Minha imaginação.

O dia amanheceu sem eternizar o orgasmo. Escolhi J., com todas suas belezas e imperfeições poéticas. Mas J. revivia seus monstros. Fantasmas povoavam sua mente estranha. Meu sexo lembrava o sexo de outro? Meu amor lembrava o desencontro com outro? Podia ela suportar a perfeição do meu desejo? Da minha escolha? Da minha certeza? Não. Definitivamente não.

J. retrocedeu. J. se absteve. J. se desencontrou. J. recriou pecados. Pesadelos. O meu falo não a preenchia. Ela era de outro. De outros tempos. Outros momentos. Outras dores. E eu queria acessá-la. Eu queria dizê-la que corpos não se encontram todo dia. Que almas só se encontram em momentos especiais. Talvez únicos. E esse tinha sido um desses poucos momentos. Um desses únicos encontros errantes. E que minha alma seria só dela. Só para ela. E meu corpo não saberia jogar outros jogos senão com ela. Para ela. Por ela.

Mas J. não me entendeu. J. não se entendeu. Partiu. E minha carreira, assim como minha vida, despedaçou.”

E diz que foi por isso. Só por isso. Por mais uma paixão desencontrada que George se perdeu. Brochou. Ele foi o talento que não vingou. A alegria que não contagiou. O gol que não fez. E assim se dedicou ao que de fato importa nessa vida inventada: mulheres, bebidas e carros. Já o amor… seu grande amor… o verdadeiro amor… George, assim como eu, desperdiçou.

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