Month: dezembro 2015

Uma entrevista para o Yahoo!

1. Você escreve que “desde sempre se buscam explicações, desculpas e soluções” para as brochadas. O pau tem mesmo uma vida própria, do tipo que desobedece os comandos do cérebro?

De acordo com minhas pesquisas históricas, o funcionamento ilógico do pênis tem perturbado muita gente (o que não é o meu caso, claramente!). Muitos filósofos, escritores e pensadores se debruçaram sobre o assunto. Rousseau, por exemplo, em seu livro Confissões, revelou sua brochada de uma forma poética e literária: “de repente, ao invés de chamas devorando meu corpo, senti um frio mortal percorrendo minhas veias; minhas pernas tremeram e, quase desmaiando, sentei e chorei como uma criança.” Já Platão se incomodava por não conseguir controlar seu Platinho: “desobediente e teimoso, como uma criatura deficiente de razão.” Montaigne, por sua vez, reclamava da rebeldia do seu petit: “é certo notar a dispensa e a desobediência desse membro que inoportunamente nos deixa na mão quando mais necessitamos.” A verdade é que essa questão foi, é, e continuará sendo um grande mistério. Por isso é importante discutir, escrever e inventar muito sobre esse assunto!

2. Sei que há mais motivos para a paumolecência do que estrelas no céu, mas me conta quais as são as principais? Porque homens brocham, inclusive, quando estão com tesão, certo?

O Brochadas trabalha com as ponderações masculinas e femininas para esse problema milenar. No início há duas listas bem interessantes: “Tentativa de esgotamento do motivo das brochadas masculinas” e “Tentativa de esgotamento do motivo das brochadas femininas”. Copio aqui alguns dos muitos motivos:

Masculinos:

Mau hálito; chulé; perfume; fedor na xoxota; fedor no bumbum; seios murchos; seios caolhos; bunda murcha; bunda flácida; bunda caída; bunda grande demais; excesso de pentelhos; pouco pentelho; cabelo debaixo do braço; cabelo no bico do peito; excesso de álcool; ansiedade; obrigação; pensar na mãe; pensar na ex; amadorismo; demorar para achar a camisinha; mulher que fala “não” para tudo; mulher que não quer te chupar; excesso de trabalho; amor demais; já ter transado com a mesma mulher muitas vezes; já ter transado com a mesma mulher muitas vezes no mesmo dia; ouvir a música que ouvia com a ex; pinto esfolado; mulher que não sabe chupar direito; mulher que te bate demais; mulher que te arranha demais; trair a mulher que ama; camisinha apertada; ter se masturbado antes; dor de barriga; quando apaixonado, a primeira vez com a mulher; a primeira vez com alguma mulher; preliminares demais; ter brochado antes com a mesma mulher; ter brochado antes com outra mulher; mulher importante demais; (…)

Femininos:

Mau hálito; fedor; pinto fedido; chulé; pinto pequeno demais; pinto grande demais; pinto meia bomba; muito pentelho; pouco cabelo; muito cabelo; carência; estupidez; carinho demais; zelo demais; falta de criatividade; desconhecimento do corpo feminino; egoísmo; narcisismo; não ligar no dia seguinte; sentir perfume de outra; ser chamada por outro nome; homem que não quer te beijar depois de feito sexo oral nele; homem que não faz sexo oral; homem que esquece totalmente dos seios; erros de português nas mensagens; cueca furada; dar apelido à vagina; homem que dispara a rir no meio do sexo; homem que dispara a chorar no meio do sexo; homem que troca toda hora de posição; cueca com ‘freio’; cueca relaxada; homem que não te envolve sentimentalmente; homem que fica se olhando demais no espelho; beijinho sem volúpia; falar da mãe; falar da ex; homem que solta pum na hora; homem que fala igual a neném; homem que chama de puta, putinha, vadia; homem que não xinga; homem que bate forte demais; homem que não bate; excesso de cuidado; ouvir choro do seu filho; filho batendo na porta; (…)

Assim, diante de tamanha lista, mesmo com tesão, pode acontecer uma brochadinha masculina ou feminina.

3. “Que bom que as pessoas têm língua e dedo”, escreveu Hilda Hist. Mas, quando o pau deixa o cara na mão, a transa simplesmente costuma acabar. O que justifica esse comportamento quase padrão, hein?

A cultura machista, as imposições da sociedade, o orgulho, o mundo falocêntrico, o desconhecimento do corpo e do desejo feminino, a falta de comunicação no campo sexual, tudo isso tende a depreciar uma pessoa que não consegue ficar excitado em determinado momento. O romance Brochadas se propõe e enfrentar tal questão de forma divertida, mas também séria e profunda.

4. Segundo uma pesquisa do Prosex (USP), 62% dos brasileiros admite ter dificuldade de manter uma ereção. Mesmo assim, o assunto é tabu até entre amigos íntimos numa mesa de bar. Se é tão comum, por que brochar ainda afeta a masculinidade dos caras?

Falar sobre brochadas é falar sobre as falhas, a incompletude, as limitações e sobre a realidade de inerente a todos nós. Em um mundo onde se “posta” e se “mostra” somente os melhores momentos, as pessoas imaginam que a vida do ‘outro’ é sempre perfeita e feliz, o que não é definitivamente verdade. Assim, discutir sobre esse tabu, expõe, desvela e revela uma fragilidade e humanidade que as pessoas querem esconder. É bem duro (ou bem mole) aceitar e expor nossas inúmeras falhas e brochadas.

5. O medo do desempenho tem feito com que jovens sem nenhum problema de saúde engulam Viagra e similares antes daquele encontro que promete. A indústria farmacêutica criou ainda mais neuróticos?

Acho que o fato que leva os homens a engolir descontroladamente os comprimidos azuis é a falta de conhecimento do desejo feminino. Os homens imaginam que devem transar por horas e horas a fio para satisfazer a mulher e comprovar sua virilidade. Se os casais conversassem, se o assunto fosse colocado na mesa, se romances fossem escritos (como o Brochadas) discutindo melhor o tema, acho que as coisas seriam mais tranquilas.

6. Quando nós, mulheres, brochamos… podemos fingir se quisermos evitar maiores constrangimentos. E vocês, na maioria das vezes, sequer percebem. Acha que os homens não ligam para as brochadas femininas ou não se preocupam porque sequer têm ideia de que isso acontece com a gente também?

Há, sim, uma falta de sensibilidade e de conhecimento por parte dos homens. Eles estão sempre tão ‘ocupados’ e ‘preocupados’ em performar (para eles próprios) que esquecem da parceira. O Brochadas tem uma parte e uma voz feminina muito forte, que quer chamar a atenção para a posição e os desejos esquecidos historicamente das mulheres. No início, uma das personagens fala exatamente isso: “Nós, mulheres, muitas vezes dissecadas, pesquisadas e endemoniadas, contamos com a maravilhosa possibilidade literária do fingimento. Sim, somos as verdadeiras e únicas poetas possíveis. Possuímos o estupendo dom de fingir completamente a dor que, de fato, sentimos. Podemos sentir (e simular) muito mais prazer. Como escreveu Hilda Hist, talvez sobre algumas de nossas pequenas vantagens: “uma vagina em repouso tem por si só vida, pulsão, cor. Já um caralho em repouso é um verme morto”. (…) Nessa história ou Ilíada das brochadas que você propõe, podemos narrar vários acontecimentos sobre vocês, homens, e outros que nem sonham. Eu, por exemplo, lembro-me de várias vezes que transei sem sentir nenhum tesão, apenas pensando na vida que acontecia… Tudo passa na nossa cabeça quando não estamos excitadas. E vocês lá, se esforçando, suando e não podendo se descuidar – qualquer distração é brochada na certa!” Dessa forma, o livro deseja resgatar, e da voz, às mulheres, para que provocar (excitar e incitar) leitores e leitoras!

7. Você deixa claro o tempo todo que o livro mistura suas histórias reais com boas doses de ficção/imaginação. Parece que até o autor (no caso, você) teme se expor publicamente, sem floreios, sobre os episódios em que o pau não colaborou. Faz sentido?

O Brochadas é um livro de ficção. Um romance. Uma obra literária. Ele tem como objetivo discutir as várias acepções do termo ‘brochar’, além de trabalhar a questão do ponto de vista masculino e feminino. O livro ainda discute o problema contemporâneo da ‘autoficção’, do trauma e também da memória. Há uma grande preocupação com a estética, com as palavras, com a sonoridade e com as diversas referências literárias. Existe um diálogo com as obras e autores canônicos – Marcel Proust, James Joyce, Michel Foucault, Georges Bataille, Hilda Hilst, Carlos Drummond, entre outros. Assim, apesar veracidade da obra, não há compromisso nenhum com a ‘realidade’, e sim com a arte. Com a nobre arte da escrita, das invenções, das criações e das nossas muitas brochadas!