Month: março 2018

Entrevista sobre o ‘Nobel’!

Nobel, de Jacques Fux

“Finalmente aconteceu. Após anos de protestos, apelos e polêmicas, após uma infinidade de escolhas questionáveis ou francamente equivocadas, a Academia Sueca finalmente colocou a cabeça no lugar e agraciou o escritor mineiro Jacques Fux com o Nobel de Literatura – ao menos para efeitos de ficção. Esta é, pois, a premissa do formidável e divertidíssimo Nobel, quarto romance do vencedor (agora, sim, de verdade) do Prêmio São Paulo de Literatura (muito mais importante do que o Nobel, diga-se de passagem).

O que o novo livro nos traz é a antiterapia perfeita para os dois lados de uma mesma moeda (ou neurose): o comércio com fantasmas que constitui a atividade criativa e o diálogo de surdos que contamina o meio literário. A distinção é importante porque Nobel não é um ataque à literatura, mas, sim, a algumas coisas que ela traz a reboque: o networking desavergonhado, a pose muitas vezes ridícula e as manias dos escritores, as farpas e socos trocados entre os pares, as indiscrições, as pequenas, médias e grandes canalhices, a pseudoerudição e por aí afora.

Diante da Academia Sueca, o galardoado Fux digressiona não sobre o “patamar sacralizado e quase inatingível” dos usualmente celebrados em eventos como o Nobel, mas sobre os desvios, os “atos indecorosos” e os “recalques obscenos, sórdidos”. No decorrer do discurso que constitui o romance, ele relembra, recria e, em alguns casos, corrompe histórias envolvendo autores como Kafka, Canetti, Sartre, Hemingway, Kawabata, Mishima, Walcott, Coetzee, Vargas Llosa e outros.

Com isso, ao mesmo tempo em que sacaneia a pompa e a circunstância incorporadas pela premiação máxima, Fux inadvertidamente enseja uma defesa da criação e da loucura literárias, do humor e, claro, do humano em toda a sua belíssima sordidez – ou sórdida beleza, tanto faz. Nobel é, em suma, um hilário elogio da imaginação.

Com a urbanidade que é peculiar aos justamente laureados, Jacques Fux se dispôs a responder algumas perguntas sobre seu novo romance, entrevista que o leitor pode conferir.”

Uma ótima resenha do ‘Nobel’!

Um Zelig brasileiro ganha o Nobel!

“Para todos aqueles que espernearam ou fizeram beicinho diante da escolha do músico Bob Dylan para o Nobel de Literatura, a Academia Sueca acaba de fazer justiça concedendo a prestigiosa honraria ao escritor mineiro Jacques Fux.

Quer dizer, a um alter ego do escritor; uma espécie de duplo-eu palavroso e mordaz que ora funciona como uma consciência literária, ora dá um salto para trás e se transforma numa subconsciência censora deste mesmo narrador.

Sobre o púlpito e sob os holofotes, o Fux premiado substitui o protocolar discurso de agradecimento pela exposição de um raciocínio que, ao invés de enaltecer a distinção e a todos que foram agraciados antes dele, busca os desvios, “os recalques obscenos”, nos quais “repousa o verdadeiro autor e suas mais honestas palavras”.

Nobel, romance recém-lançado, constitui-se, assim, dessas divagações perpendiculares, de um passeio comandado pelo emprego inteligente de contrastes e efeitos humorísticos através (ou a partir) de circunstâncias da biografia e da bibliografia de escritores laureados e daqueles que foram miseravelmente desprezados.

Ao mesmo tempo, o narrador faz uma coloscopia do meio literário. A descarada exaltação dos escritores fabricados, as arrogâncias e as trocas de farpas entre pares, as relações sórdidas entre editores e críticos literários, as indiscrições de caráter sexual que os autores convertem em matéria para a construção de seus livros.

Aliás, o próprio Fux declara que se valeu de todos esses expedientes para chegar até ali. O discurso, então, ganha corpo no encadeamento de associações: ao contar sobre um acontecimento relacionado a um autor agraciado com o Nobel, ele agrega a informação a um fato de sua própria existência.

Quando comenta o caso amoroso de Kafka com a melhor amiga de sua amada Felice, por exemplo, o personagem confessa que se utilizou de um relacionamento indecoroso que teve com uma mocinha para abastecer sua ficção e chamar a atenção para si, sem qualquer vergonha (N. do resenhista: impossível de acontecer na realidade).

A verdade, imundos senhores, é que nos valemos da própria sujeira e imundície para sermos premiados, lidos e reconhecidos. Só talento não basta. Por bons caminhos seguem nossas criações – nossos personagens, nossas criações, nossas bastardas Felices. Nós é que continuamos, sem escolha e sem saída, nesta vereda imprestável e desgraçada, mas ao mesmo tempo maravilhosa, que é a literatura.

Outros nomes, a exemplo de Elias Canetti, Ernest Hemingway, Albert Camus e Yukio Mishima, fazem parte desse relatório de constatações e (re)criações. O autor também articula seu jogo de correspondências nessa esfera. Ao trazer à tona a acusação de assédio sofrida pelo caribenho Derek Walcott (ganhador do Nobel em 1992), ele faz uma conexão direta com o romance Desonra, do sul-africano J. M. Coetzee (ganhador do Nobel em 2003), cujo enredo trata justamente de um professor de literatura que é expulso da universidade após ter um caso com uma aluna.

A verdade é que Fux, o original, é um escritor inteligente, que transmite sua erudição por meio do dispositivo da galhofa, da satirização da vida, entregando uma literatura que é culta ao mesmo tempo que divertida. Literatura é mais literatura, quando é também história, política, conhecimento, crítica e entretenimento.

À medida que se abarrota de nomes da literatura, fica evidente que a duplicidade do narrador não se resume ao autor mineiro, mas a todos que mencionou. O personagem mesmo confessa, em dado momento: Eu sou o duplo de todos eles! Lembra o protagonista de Zelig, longa-metragem de Woody Allen de 1983, que se torna notório por conta da habilidade inigualável de imitar qualquer pessoa que encontra.

De fato, o mimetismo está no núcleo criador do romance; no plano sarcástico de mostrar que, no clube de modelos literários, todo mundo é meio camaleônico, todo autor arremeda os tiques, o estilo, os erros e os acertos de um “Nobel de Literatura” para se considerar (ou ser considerado) original.

Nada é original. Até mesmo a tipografia, que se tornou marca de uma célebre editora, que Nobel toma emprestado para registrar a voz de seu Zelig brasileiro.”