Uma ótima resenha do ‘Nobel’!

Um Zelig brasileiro ganha o Nobel!

“Para todos aqueles que espernearam ou fizeram beicinho diante da escolha do músico Bob Dylan para o Nobel de Literatura, a Academia Sueca acaba de fazer justiça concedendo a prestigiosa honraria ao escritor mineiro Jacques Fux.

Quer dizer, a um alter ego do escritor; uma espécie de duplo-eu palavroso e mordaz que ora funciona como uma consciência literária, ora dá um salto para trás e se transforma numa subconsciência censora deste mesmo narrador.

Sobre o púlpito e sob os holofotes, o Fux premiado substitui o protocolar discurso de agradecimento pela exposição de um raciocínio que, ao invés de enaltecer a distinção e a todos que foram agraciados antes dele, busca os desvios, “os recalques obscenos”, nos quais “repousa o verdadeiro autor e suas mais honestas palavras”.

Nobel, romance recém-lançado, constitui-se, assim, dessas divagações perpendiculares, de um passeio comandado pelo emprego inteligente de contrastes e efeitos humorísticos através (ou a partir) de circunstâncias da biografia e da bibliografia de escritores laureados e daqueles que foram miseravelmente desprezados.

Ao mesmo tempo, o narrador faz uma coloscopia do meio literário. A descarada exaltação dos escritores fabricados, as arrogâncias e as trocas de farpas entre pares, as relações sórdidas entre editores e críticos literários, as indiscrições de caráter sexual que os autores convertem em matéria para a construção de seus livros.

Aliás, o próprio Fux declara que se valeu de todos esses expedientes para chegar até ali. O discurso, então, ganha corpo no encadeamento de associações: ao contar sobre um acontecimento relacionado a um autor agraciado com o Nobel, ele agrega a informação a um fato de sua própria existência.

Quando comenta o caso amoroso de Kafka com a melhor amiga de sua amada Felice, por exemplo, o personagem confessa que se utilizou de um relacionamento indecoroso que teve com uma mocinha para abastecer sua ficção e chamar a atenção para si, sem qualquer vergonha (N. do resenhista: impossível de acontecer na realidade).

A verdade, imundos senhores, é que nos valemos da própria sujeira e imundície para sermos premiados, lidos e reconhecidos. Só talento não basta. Por bons caminhos seguem nossas criações – nossos personagens, nossas criações, nossas bastardas Felices. Nós é que continuamos, sem escolha e sem saída, nesta vereda imprestável e desgraçada, mas ao mesmo tempo maravilhosa, que é a literatura.

Outros nomes, a exemplo de Elias Canetti, Ernest Hemingway, Albert Camus e Yukio Mishima, fazem parte desse relatório de constatações e (re)criações. O autor também articula seu jogo de correspondências nessa esfera. Ao trazer à tona a acusação de assédio sofrida pelo caribenho Derek Walcott (ganhador do Nobel em 1992), ele faz uma conexão direta com o romance Desonra, do sul-africano J. M. Coetzee (ganhador do Nobel em 2003), cujo enredo trata justamente de um professor de literatura que é expulso da universidade após ter um caso com uma aluna.

A verdade é que Fux, o original, é um escritor inteligente, que transmite sua erudição por meio do dispositivo da galhofa, da satirização da vida, entregando uma literatura que é culta ao mesmo tempo que divertida. Literatura é mais literatura, quando é também história, política, conhecimento, crítica e entretenimento.

À medida que se abarrota de nomes da literatura, fica evidente que a duplicidade do narrador não se resume ao autor mineiro, mas a todos que mencionou. O personagem mesmo confessa, em dado momento: Eu sou o duplo de todos eles! Lembra o protagonista de Zelig, longa-metragem de Woody Allen de 1983, que se torna notório por conta da habilidade inigualável de imitar qualquer pessoa que encontra.

De fato, o mimetismo está no núcleo criador do romance; no plano sarcástico de mostrar que, no clube de modelos literários, todo mundo é meio camaleônico, todo autor arremeda os tiques, o estilo, os erros e os acertos de um “Nobel de Literatura” para se considerar (ou ser considerado) original.

Nada é original. Até mesmo a tipografia, que se tornou marca de uma célebre editora, que Nobel toma emprestado para registrar a voz de seu Zelig brasileiro.”

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