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COLUNA SKOOB – Alice: aventuras através do espelho, da imaginação e da matemática

 

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Em 2015 comemoramos 150 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas! Um marco. Uma alegria. Uma celebração à grande literatura! Se hoje em dia pensamos cada vez mais nos limites e nas possibilidades de se fazer literatura; e também no que se pode falar (e o que se deve calar, ou não…), Alice emerge diariamente para abalar nossas estruturas, nossas crenças, nossa razão, nossa moral e nossa lógica. Alice desconstrói, desfigura, transmuta, transtorna. Alice é a nossa lolita eterna. Nosso infindável desejo. Nossa pulsão pelo gozo inacessível. Alice precisa ser reescrita diariamente.

Ler Alice é se entregar aos mistérios e ao estranhamento da lógica. É não entender, e mesmo assim se admirar. É debochar dessa lógica tradicional de sentidos e sensações que estamos totalmente acostumados e inseridos. Ela, a perpétua e perversa menina, nos convida a experimentar o desejo e a repulsa pela compreensão de um mundo que não parece ser nosso. Um mundo do inconsciente, da inatingível busca pelo crescimento, da ilusória inserção, da quimérica assimilação. Alice, nunca esqueçamos, é uma estrangeira no espelho e nas maravilhas desse incrédulo país. Ela, sempre inconformada, metamorfoseia-se constantemente buscando seu lugar nesse universo completamente improvável mas, talvez, muito mais possível, plausível e humano que o nosso.

Eu leio Alice e sempre me encanto. Encanto-me com poder ingênuo e inventivo de uma suposta percepção da simplicidade. Essa menina é simples, mas também é densa, complexa, sensual. Ela desperta desejos recalcados, provoca o inconsciente, incita e instiga o leitor. Eu quero saber mais sobre essa menina-mulher-lolita que exala certezas e dúvidas, que liberta os sentidos, que não reprime a fantasia. Eu preciso saber mais sobre esse personagem leviano e maravilhoso, fascinante e impiedoso, obsceno e também extremamente fantástico. Eu quero me tornar Alice. Eu quero possuir suas letras, suas palavras, sua textura. Eu quero, mas não posso.

Ler Alice dá tesão! Um tesão insano e literário. Uma vontade angustiante de escrever um livro com toda essa potência e com todo esse pecado. Um livro que possa perpetrar e desvirtuar inúmeras e infinitas leituras. Um livro leve, rápido, exato, (in)visível, múltiplo e consistente em suas inconsistências (Ítalo Calvino iria adorar). Eu preciso reescrever Alice. Roubar sua lógica, seu deslumbramento, seu fascínio. Eu quero me tornar o espelho do espelho, o estrangeiro do estrangeiro, o menino ingênuo e indefeso diante da monumental e esplêndida criação artística. É tudo isso (e também nada disso) que Alice propõe. É tudo isso que almejo, que ambiciono, que persigo. E é tudo isso que nunca, autor nenhum, literatura nenhuma irá atingir. Não conseguiremos jamais entender esse livro. E nem reescrevê-lo. Esse livro já foi legitimado pela passagem tensa do tempo, pelas diversas e contraditórias culturas, pelas falaciosas e improváveis leituras, pela fútil e despedaçada justiça. Amém! Vida longa à grande literatura. Vida longa à Alice!

(Semana que vem (19 de agosto na Travessa Leblon, e 20 de agosto na Livraria da Vila da Fradique, ambos de 19:00-22:00) lanço finalmente meu novo e polêmico livro. Brochadas. Vou falar sobre tabu e censura!).

Seria essa a verdadeira dor?

Um livro. Um livro de memórias. Um livro de memórias traumáticas e terríveis. Um livro para mudar de vez a compreensão acerca do mundo, do ser humano, da História e de toda literatura. É isto um homem? descreve a dor, o espanto e o sofrimento de toda uma geração, de toda uma raça, de toda a suposta racionalidade humana. Primo Levi, então doutor em Química, é levado ao inferno de Auschwitz e por lá permanece onze meses. Período que muda sua vida e todo seu entendimento humano. Período que é narrado dolorosa e lucidamente nesse livro fundador da literatura de testemunho.

Testemunho, sob um viés, é o ato de escrever sobre os seus próprios momentos e as próprias lembranças. E isso não é tarefa fácil. Muito pelo contrário. A memória é enganosa, falaciosa e cheia de lacunas. E por ser extremamente limitada, é necessário tomar muitos cuidados. Cuidados para não se perder e nem para cair no lugar comum. E nem se esquecer de que está fazendo literatura de qualidade. Primo Levi sabe disso muito bem, e consegue escrever uma das mais belas obras sobre o sofrimento, sobre a memória e sobre a Shoah.

Nessa busca pelas lembranças dessa geração perdida; geração que entendeu que não haveria sentido algum em fazer poesia e beleza, Levi relata e medita sobre seu passado e sobre essas memórias coletivas. Mas ele não sabe como reconstruí-las. (Alguém, algum dia, saberá?) Como recriar algo que de fato ‘falta’. Algo que está inteiramente perdido. Algo que se busca constantemente, mas que se encontra tão recalcado e escondido que talvez nem apareça em pesadelos. Mas ele sabe também que, embora tudo isso permaneça subterrâneo e obscuro, sempre insiste em emergir como chagas e feridas tatuadas no corpo, na alma e em toda cultura humana. (Será que foram essas terríveis aflições revisitadas e resimbolizadas que o levaram a escolher sua morte em 1987?)

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Primo Levi, nesse brilhante livro, reflete sobre as limitações das palavras para expressar os sofrimentos e os assombros pelos quais passou nos campos da morte. Ele sabe, e sente, que recordar é sofrer novamente. É perscrutar inutilmente pela compreensão de algo ininteligível, apesar de extremamente racional, humano e verídico. É ter consciência que a vida, a História, a memória e a Shoah são coisas indecifráveis que ele, e todos nós, vivemos. Vivemos e enfrentamos diariamente.

É isto um homem? mostra, e prova, um pouco de todo o absurdo humano. Uma minúcia de toda capacidade de fazer e inventar o mal. Uma ninharia do que o homem (isto mesmo?) é capaz de conceber diariamente. Eu leio e releio esse livro com lágrimas nos olhos… e um certo ódio no coração. Eu me emociono com as palavras, com a sensibilidade, com a autoanálise do autor… e fico espantado de saber como algo assim foi capaz de ocorrer. Depois me lembro, ainda mais surpreso e angustiado, que, guardadas as devidas proporções (a Shoah foi um marco e um evento único), coisas assim acontecem e acontecerão enquanto existir o ser humano. Sim, Primo Levi, é isto mesmo que é o homem.

(Sem mais, semana que vem falo sobre Alice, em homenagem aos seus 150 anos).

As coisas de que não me lembro, sou

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. 

Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. 

En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos.

Jorge Luis Borges

… des petits morceaux de quotidien, des choses que, telle ou telle année, tous les gens d’un même âge ont vues, ont vécues, ont partagées, et qui ensuite ont disparu, ont été oubliées; elles ne valaient pas la peine de faire partie de l’Histoire, ni de figurer dans les Mémoires des hommes d’État, des alpinistes et des monstres sacrés.

Il arrive cependant qu’elles reviennent, quelques années plus tard, intactes et minuscules, par hasard ou parce qu’on les a cherchées, un soir, entre amis.

Georges Perec

Nossas lembranças infantis nos mostram nossos primeiros anos não como eles foram, mas tal como apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas. Nesses períodos de despertar, as lembranças infantis não emergiram, (…) elas foram formadas nessa época.

Sigmund Freud

Há várias formas de esquecimento. A mais estudada é a extinção. Outra, popularizada por Freud, é a repressão. Existem memórias que não ultrapassam poucos segundos, e ficam na memória de trabalho. 

Outras não ultrapassam a memória de curta duração (e não ficam na memória de longa duração). 

Outras memórias duram poucos dias e depois desaparecem. 

Por último, há o esquecimento real: memórias que desaparecem por falta de uso, com atrofia sináptica.

Ivan Izquierdo

1. Tudo que lembro de não me lembrar

Eu não me lembro do dia em que nasci. Nem do dia em que fui concebido. Não me lembro de ter crescido, e nem de ter habitado aquele lugar quentinho e confortável durante nove meses. Não me lembro de ter mamado sequer uma vez (e olha que mamei até um ano). Não me lembro do sabor do leite materno. Não me lembro do meu brit-milá (e deve ter doído bastante). Também não me lembro do meu primeiro gole de vinho, que foi com oito dias de idade. Não me lembro daquele primeiro período da vida que se iniciava em que dormia horas e horas feliz e amamentado. Também não me lembro do toque no meu corpo nu, das mãos carinhosas e amáveis dos meus pais. Não me lembro do meu cheiro, do cheiro da minha casa, do cheiro da minha bisavó que tanto tomava conta de mim. Não me lembro de abrir os olhos, de abrir a boca, de babar, de chorar, de fazer manha. Não me lembro da noite, do dia, da minha respiração e da respiração dos meus entes amados. Não me lembro do meu pé gordinho, dos meus joelhos inchados, das minhas coxas redondas, da minha boca sem dentes. Não me lembro dos abraços, dos beijos, das carícias, dos suspiros, das conversas, dos sorrisos e nem das lágrimas. Não me lembro do amor dos outros, nem tampouco do meu.

Não me lembro de engatinhar. Engatinhar para todos os lados descobrindo que o mundo poderia ser maior. Muito mais repleto de coisas, de cheiros, de perigos. Não lembro do meu joelho doer no fim do dia após ter desvelado tantos mistérios e enigmas. Não tenho a menor recordação do dia em que fui incentivado a levantar. A bater palmas. A sorrir. A encantar e chantagear quem estivesse por perto. Não me lembro de usar fraldas. Não me lembro de tirá-las. Não me lembro do meu próprio cheiro quando ainda não sabia ir ao banheiro. Também não lembro dos cheiros ruins e dos cheiros gostosos. Do mundo de novas e fantásticas sensações que me cercava. Não me lembro do meu primeiro passo, que foi na Bahia. Também não me lembro do meu primeiro tombo, dessa primeira vez em que me abandonaram por uma mínima fração de segundo, quando finalmente conheci o susto. Não me lembro de nenhuma dor, de nenhuma vacina, de nenhum soluço, de fome alguma. Não me lembro de estar no colo dos meus pais, dos meus avós, da minha bisavó, dos vizinhos, dos falsos amigos. Não me lembro do bafo de ninguém. Não me lembro da minha primeira refeição. Da minha primeira banana amassada. Da primeira maça raspada. Da minha primeira papinha. Também não me lembro de ficar na cadeirinha esperando o tão aguardado aviãozinho da refeição. Não me lembro da mamadeira, das estórias contadas antes de dormir, de não ter medo algum de nada e nem de ninguém. Não me lembro da alienação, não me lembro de ter sonhos e desejos, não me lembro de nenhuma noite dormida. E de nenhum dia acordado. Não me lembro de saber o que era o amor.

Não me lembro de falar errado. Não me lembro de ser analfabeto como meus avós. Não me lembro de saber se as palavras que pronunciava, ou escutava, eram em iídiche ou português. Não me lembro da dor, visível nos olhos da minha bisavó, por causa da sua filha especial. Também não me recordo do sofrimento dos meus pais por causa do meu irmão. Não tenho lembrança alguma do meu irmão como alguém diferente. Não me lembro do frio, de sentir fome, cansaço, sono, tristeza, dor. Não existiam na época, ou eu era totalmente privado (e blindado) contra eles. Não me lembro do amor, mas era só isso que vivia.

Não me lembro do primeiro encontro com um outro. Um outro que não existisse somente para me dar amor. Não lembro de saber que a vida pudesse ter outro sentido que não fosse a minha própria existência. Não me lembro quando me dei conta de que eu não era meus pais.

Não me lembro do dia em que fui para escola pela primeira vez. Não me lembro de nenhuma mordida, nenhum soco, nenhuma briga que tive com algum colega. Nem me recordo de ter sido colega de ninguém no jardim de infância. Não me lembro das brincadeiras, dos sorrisos, das corridas e saltos mirabolantes. Também não me lembro das lágrimas da minha mãe quando me deixou pela primeira vez nessa escola. Não me recordo do meu desespero, do meu pranto, dos soluços e da dor de barriga de tanto chorar. Não me lembro da professora, de sua tentativa em ludibriar, transformar e recriar um mundo fora do útero dos meus pais. Também não me lembro do dia em que a escola passou a ser essencial e que os amigos se tornaram fundamentais. Não lembro da profunda atenção que meus pais davam ao meu irmão, da completa ausência de tios e avós na minha criação. Não me lembro (e gostaria muito de reviver) o carinho especial da minha bisavó. O amor que ela viveu com minha mãe e que revivia comigo. Também não me lembro do seu desaparecimento. De ser capaz de ressignificar amor e ausência.

Não me lembro do primeiro grito de reprovação que recebi (nem do segundo, nem do terceiro). Também não me lembro de ter aprendido algo com esse grito, com esse tapa, com o dedo em riste, com o olhar sério, com a voz grossa, com a necessidade de ser educado. Não me lembro dos professores da minha infância. Devem ter sido sensíveis, carinhosos e tolos. Não me lembro de colorir, de encaixar brinquedos, de jogar objetos em rebeldia, mostrando que eu tinha vontade própria, de gritar, fazer pirraça e calar quando bem entendia. Não me lembro de começar a escrever, de repetir infindavelmente as letras do meu nome, de descobrir o som distinto e paradoxal da última letra do meu sobrenome. De entender a herança pesada da minha família e da minha cultura. Não lembro de descobrir o fabuloso mundo que se desvelava com a minha alfabetização. Mundo imponderável para meus avós e bisavós. Não me recordo de trazer para aula o nome e a profissão dos meus pais, avós, tios. Não me lembro de construir a árvore genealógica de minha família, de escutar sobre a origem dos meus ancestrais e dos ancestrais de meus amigos. Não me lembro de me dar conta de que as professoras não eram judias, de que o mundo não era judeu, de que tatuagens com números estranhos nos braços dos avós não eram coisas normais, comuns e cotidianas. Não me lembro de estranhar o nome Auschwitz ou de compreender que genocídios não eram coisas cotidianas e banais. Não me lembro de associar as palavras barbárie, poesia e amor.

Não me lembro de ter aprendido o alfabeto. De repetir fastidiosamente o som das vogais e das consoantes. Não me recordo de ter aprendido o estranho som da letra ‘h’ e nem de ter a percepção e consciência do ‘w’. Não me lembro de sentir nenhum desejo, cobiça e volúpia pelo outro. Ele ainda fazia parte de mim. Não me lembro da disputa e da competição pelo olhar da professora. Por seu amor e admiração. Não me lembro das brigas, das desilusões, das primeiras angústias que só aconteciam na escola. Não me lembro quando diferenciei pela primeira vez meninos de meninas. Não me recordo do dia em que olhei para uma menina e algo diferente se passou em mim. Talvez um brilho mais intenso no meu olhar. Talvez uma quentura inaugural percorrendo meu corpo.

Não me lembro da primeira vez em que cheguei em casa desiludido. Não me lembro do dia em que descobri que todos os outros alunos da escola também eram especiais, e que uns eram muito mais especiais e queridos pelas professoras que os outros. E eu não era um dos queridinhos. Não me lembro do dia em que algum amigo preteriu outro a mim. Também devo ter apagado completamente a lembrança do dia em que uma menina escolheu olhar para outro e fechar os olhos para minha perfeição. Não lembro de compreender que o mundo poderia ruir um dia. Que eu podia me abalar. Que eu poderia sofrer.

Também não lembro do dia em que descobri que meus pais não eram perfeitos. Que meu pai não era herói. Que minha mãe o havia escolhido antes de me gerar. E que eu era somente o segundo, ou o terceiro. Não me lembro do dia em que reparei algum defeito nos meus pais. Não me lembro do dia em que eu percebi o cheiro deles. Um cheiro que já não era meu. Não me recordo do dia em que tive vergonha dos meus pais. Em que concebi as terríveis diferenças e limitações do meu irmão. E também tive vergonha e me escondi. E passei a esconder as histórias da minha casa. Também não me lembro do dia em que comecei a invejar as outras famílias, fantasiadas na minha mente como normais, e que desejei estar no corpo de outro. Também não sei quanto tempo isso tudo durou. E quanto tempo depois descobri que nada disso tinha sentido. Que cada um tinha que viver com suas próprias dores. E com suas próprias invenções.

Não me recordo de aprender hebraico. Não me lembro de saber que hebraico não se falava correntemente no Brasil. Também não me lembro do dia em que comecei a esquecer propositalmente essa língua. Nem de quando percebi que iídiche não se falava na rua. Também não me lembro do dia em que entendi que as palavras em iídiche tinham uma conotação negativa. Uma conotação de dor, de saudade da diáspora da minha família e de sentir no corpo e na fala o não pertencimento a lugar algum. Uma tentativa inútil de preservação cultural. De recordar tempos e épocas em que meus antepassados tinham que fugir constantemente. Também não me lembro quando entendi que falar essa língua era discriminar as pessoas e o país que acolheram minha família. Também não sei se eles foram acolhidos, se foram felizes, se viveram em paz. Não me lembro de conversar com eles sobre isso. Nem sei como eles me passaram os valores culturais, históricos, familiares e dolorosos do judaísmo. Também não lembro da primeira vez que comi guelfite fish.

Não me recordo da paixão pelas rezas matinais. Não me lembro o porquê cantava com tanto fervor e alegria versos em hebraico (que eu não entendia nada). Não me lembro da certeza que tinha em relação à existência de Deus. Do Deus judeu. Não sei dizer quando eu rezava acreditando que Deus me ouviria. E quando eu trapaceava, e era vil e mesquinho, almejando que Deus me esquecesse naquele momento. Não me lembro do dia em que Deus me abandonou e nem do dia em que eu o abandonei. Eternamente. Não me lembro de tê-lo matado, e nem de quando ele matou meu tio. Também não sei quem o fez. Tampouco entendi a dor da minha família, da minha avó, dos meus primos. Também não lembro do dia que compreendi que eu e meus pais éramos mortais.

2. Tudo que lembro de não compreender

Não me lembro mais do dia em que passei a considerar o amor como sofrimento. Não me recordo o dia em que amei a primeira menina que não me queria. Em que passei a me tornar melancólico. Também não lembro da certeza que tinha que era o melhor e o mais inteligente de todos. Não me lembro de me tornar estúpido, arrogante e metido. De me retrair. De ficar na minha. De blasfemar. De achar que o mundo não era bom o suficiente para mim. Também não me lembro do dia em que gostei de me ver inserido no mundo goy, E que passei a detestar e amar simultaneamente o judaísmo. A detestar fazer jejum e lembrar, constantemente, das infelicidades desse meu povo. A me encantar com a possibilidade de viver em um país forte, novo, briguento. Também não me lembro do dia em que tive pela primeira vez ojeriza da sinagoga e de muitos de seus membros. Não lembro mais o motivo. Não me lembro mais da aversão que tive dos seus cheiros, roupas e mesquinharias.

Não lembro mais porque me achava diferente e melhor em meio ao mundo católico. Também não me lembro da razão por me considerar um estranho e pior no mundo judeu. Não me lembro porque comecei a ler. Não me lembro mais do primeiro, do segundo e do terceiro livro que li. Não me lembro das sensações que senti. Não me lembro porque me achava especial por carregar um livro nas mãos. Não me lembro de gostar de ler nenhum livro para o colégio.

Não me lembro o motivo de ter gostado da matemática. De ter gostado de física. De ter gostado de esportes. Não me lembro porque deixei de gostar de todo conhecimento teórico. Não me recordo porque voltei a gostar da teoria. Não me lembro quando gostei de amar o amor, e quando comecei a detestar o amor. Não me lembro de quantas meninas amei. Não me lembro quantas deixaram de me amar e quantas eu nunca amei de verdade. Não me lembro porque admirava a todo instante meninas com culturas distintas da minha e porque as depreciava por não serem judias. Também não sei quando isso tudo mudou. E nem se mudou.

Não me lembro da primeira vez em que conheci de perto a loucura. A loucura da outra. A loucura pelo amor. A loucura de todos. A minha própria loucura. Não me lembro das quedas, da constatação da minha própria ignorância e dos meus próprios limites. Não lembro o porquê fugia sempre quando algo estava complicado. Não compreendo o motivo de nunca encarar a vida e seus percalços. Não me lembro porque sempre ludibriava a dificuldade. Não me lembro de aprender nada, apenas fingir, falsear e fugir.

Não me lembro do dia em que conheci o mal. O mal nos outros e em mim mesmo. Não me recordo do dia em que fui pela primeira vez mesquinho, babaca e egoísta. Algo que se repetiria em mim. Algo que se repete constantemente no mundo. Não me lembro do dia em que achei que só o outro era capaz de me fazer mal. Que só o outro poderia trair minha confiança. Que só o outro podia roubar meu amor, meus sonhos e meus desejos mais íntimos. Não me lembro do dia em que eu também roubei, traí e desejei o desejo do outro.

Não me lembro das coisas que esqueci para poder viver. Não me lembro dos amores que extingui por medo de ressurgirem. Não lembro o motivo da invenção do meu ódio. Da minha raiva pelo mundo judeu e pelo mundo não judeu. Não me lembro de idealizar a beleza e a tristeza da Shoah. Não me lembro de quando me coloquei como vítima para ser amado pelos outros e nem de quando compreendi a grande estupidez em me colocar nessa posição. Não me lembro porque aceitava tudo. Não me lembro o motivo de me encontrar em Macabéa. De estranhar Borges. De me ver como um lobo da estepe. De amar os olhos de Capitu. De sofrer na Sibéria. De me masturbar na Irlanda, nos Estados Unidos, na Grécia e em Roma. Infelizmente não me lembro (e como gostaria de viver tudo de novo) das sensações ao ler um livro pela primeira vez. O Livro. Das emoções de passar, página a página, o amor e a dor de Riobaldo. Das lágrimas que deveriam ter escorrido ao penetrar no Sertão. Não me lembro do dia em que entendi que a literatura muda a vida. Que a arte é literatura. Também não me lembro do dia em que compreendi que ela não serve para nada. Que pode ser bela, forte e burra.

3. Tudo o que me tornei em função de não me lembrar

Não me lembro dos livros que li. Não me lembro de quais livros inventei que li. Não me lembro dos livros que fantasiei que li. Também não me lembro da vida que eu vivi. Da memória que eu inventei. Dos fatos que recalquei. Das dores que ludibriei. Dos sonhos que não tive. Não me lembro dos sonhos que descartei. Dos medos que me frearam. Das dores que nunca cicatrizaram. Dos versos que escrevi. Que inventei. Que copiei. Que gostaria de ter escrito. Que nunca serei capaz de escrever. Também não me lembro de todas as idealizações do amor. De todas as invenções que depositei no outro. De todo amor que tive somente pelo espelho.

Não me lembro de ter aprendido a não tentar, mesmo tendo sido recusado muitas vezes. Não me lembro de ter deixado de amar, mesmo após várias desilusões. Não me lembro de ter deixado de escrever, mesmo não acreditando que escrevia algo importante. Também não entendo o motivo de continuar escrevendo e almejando um amor.

Não me lembro mais das vidas que roubei. Dos sonhos que reinventei. Dos versos que plagiei. Não me lembro de tudo que sei. Não me lembro de tudo que não sei. Não consigo contabilizar todo conhecimento que tenho. Ou que acho que tenho. Ou que invento que tenho. Ou que escrevo para mostrar.

Inútil dizer que não esqueço nada que não me lembro.

Conto publicado originalmente na Revista da Academia Brasileira de Letras.

JACQUES FUX (http://www.skoob.com.br/autor/13652-jacques-fux) nasceu em Belo Horizonte em 1977. Com extenso currículo acadêmico, Jacques é graduado em matemática, mestre em ciência da computação, doutor e pós-doutor em literatura, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (http://www.skoob.com.br/literatura-e-matematica-383339ed493616.html -Tradição Planalto, 2011) recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras/Linguística do Brasil. Antiterapias (http://www.skoob.com.br/antiterapias-352603ed395864.html – Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito do próximo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Editora Rocco, 2015, prelo), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

Rua Labat Rua Ordener: quando as palavras não salvam

Eu sempre imaginei que as palavras salvariam. Sempre imaginei que o processo analítico de falar, juntamente com a escrita, poderia socorrer qualquer um, ou pelo menos aliviar o sofrimento que existe necessariamente na vida. Estava completamente enganado.

Estava morando nos EUA e fazia meus pós-doutorado em Harvard! Um lugar lindo, encantador e repleto de conhecimento (confesso, somente aqui, que eu definitivamente era o mais burro daquela universidade… mas, talvez, o mais empolgado!). Assisti uma disciplina sobre a participação francesa na Segunda Guerra e como eles vêm enfrentando o problema da memória e da culpa (a França é terrível: nunca assumiu a colaboração com o governo nazista. Resolveram recalcar essa parte da memória. Não é de se estranhar que hoje exista uma ascensão gigantesca do antissemitismo por lá). Foi então que li Rua Labat Rua Ordener pela primeira vez. Meu mundo desabou.

Meu Antiterapias já tinha sido premiado e meu novo livro Brochadas já tinha sido vendido para Rocco. Já me considerava um escritor (na verdade ainda ando repleto de dúvidas, mas preciso eventualmente preencher alguns formulários. Uso, depois do Prêmio, ‘escritor’ como profissão). E eu imaginava que a literatura me salvaria. Que ao falar das minhas memórias, das minhas questões judaicas, das minhas frivolidades e mesquinharias eu poderia me entender melhor e finalmente me salvar. Também imaginava que escrever um livro sobre brochadas me curaria dessa praga! Amém! Infelizmente tudo isso desmoronou ao ler o livro de Sarah Kofman.

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Sarah Kofman foi uma filósofa que escreveu duas dezenas de livros sobre diversos temas acadêmicos. Era considerada uma das mais importantes pesquisadoras na obra de Nietzsche. Falou sobre estética, psicanálise, arte. Releu e trouxe novas interpretações para os clássicos gregos. Foi professora na França, na prestigiosa École Normale Supérieure e em Sorbonne. Passou um período em Harvard. Era uma pessoa de difícil trato, que não gostava de ser tocada e nem de carinhos e elogios, e que vivia sempre regurgitando e com problemas estomacais. Tinha intensos problemas com suas memórias. O mundo desconhecia sua terrível história.

E num angustiante dia ela resolve escrever Rua Labat Rua Ordener e finalmente acaba contando sua vida. Ressalta que toda sua majestosa obra acadêmica teria sido somente uma preparação para escrita desse livro. Um livreto de pouco mais que oitenta páginas. Ela então conta ‘tudo’. Tudo que já tinha tentado contar (ou esquecer) antes. Conta que durante a Guerra sua mãe a escondeu na casa de uma mãe católica. Uma mãe católica que não gostava de judeus e queria limpá-la da praga do judaísmo. Ela, Sarah, era filha de um rabino, e por serem religiosos tinham uma alimentação especial. A mãe católica, com seus ódios e suas limitações, obrigava a pequena Sarah a comer coisas proibidas. Ela vivia em constante dor e relutava em aceitar essa vida imposta pelo Deus que tanto rezava. Foi aí que ela começou a regurgitar. Ela vomitava diariamente a vida que insistia e parecer real. Mas elas, ‘mãe’ e ‘filha’ acabaram gostando uma da outra. Afinal, Memé (a mãe católica) estava ‘salvando’ Sarah dos Campos de Extermínio.

Mas sua mãe judia ainda estava viva e escondida. Ambas podiam se encontrar secretamente. Porém esse encontro era muito pesado. Muito cheio de dor. Repleto de lembranças do Pai, que havia sido levado pelos colaboracionistas franceses aos nazistas e queimado nos fornos de Auschwitz. Sarah vivia um conflito de emoções, de sentimentos e de dores pela presença dessas duas mães. Dessas duas casas: uma na Rua Labat e outra na Rua Ordener. O tempo passou, cheio de pavor e pânico e ela surpreendentemente conseguiu ‘sobreviver’.

Ao fim da Guerra sua mãe judia veio lhe buscar, mas ela e Memé já estavam ligadas sentimentalmente talvez por culpa. Memé, não querendo largar da perversão por Sarah, resolve entrar com um processo pela sua guarda. O juiz (colaboracionista?) concede. Mas a mãe judia decide não respeitar a lei desse país que entregou voluntariamente milhares e milhares de crianças às fornalhas de Auschwitz. Sarah foi sequestrada pela própria mãe e acabou vivendo uma vida de entre mundos.

O livro segue contando as terríveis memórias de Sarah. Você se lamenta por ela. Você lamenta pela História. Você sofre uma outra dor, se ilude, e transforma o Holocausto em algo compreensível, apesar de assombroso e absurdo (mas isso é um erro. Ninguém, nunca, poderá saber o que foi aquilo. Mesmo assim precisamos continuar falando e lembrando para que não se repita). Chegando ao fim do livro, você acha que compreende Sarah, mas se surpreende com o desfecho de sua vida.

Meses depois de publicar esse livro e reavivar suas lembranças, Sarah se suicida. Seria esse o único caminho a seguir? Em algum momento, em algum dia, em algum instante Sarah realmente foi salva? Apesar de ter ‘sobrevivido’, realizado grandes feitos, escrito e perpetuado palavras e livros, ela nunca conseguiu superar seus momentos. Eu me pergunto com muita tristeza: será que existiu, de fato, algum sobrevivente do Holocausto? Rezo. Escrevo. Sonho. Mas duvido.

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/90p4Nn

A vida modo de usar e outras enganações

! G Perec

 

Uma vez mais, fui como uma criança que brinca de esconde-esconde

e que não sabe o que teme ou deseja mais: 

permanecer escondida, ser descoberta.

Georges Perec

Eu nunca tinha ouvido falar de Georges Perec até fazer uma disciplina eletiva no doutorado em Letras. Estava fazendo um curso sobre ‘Escritas Híbridas’ e parte d’A vida modo de usar caiu em minhas mãos. Não entendi nada. Nadinha de nada. Até achei que seria um livro de autoajuda fornecendo-me indicações e recomendações de como usar (ou manusear) minha própria vida. Vida essa que, naquele momento (como em todos), se encontrava completamente confusa. Mas o estranhamento, o mal-estar, o desconforto que o livro causou me motivou a continuar lendo e relendo as famigeradas páginas. Eu tentava descobrir, revelar e desvendar todos os mistérios do puzzle que Perec ofertava. Assim, depois de uma grande labuta, um caminho de sonhos e de novas possibilidades literárias se abriu. Fiquei fascinado. Encantado. Iludido com uma nova literatura improvável, mas ao mesmo tempo maravilhosa. E esse brave new world nunca mais se fechou. E me formou definitivamente escritor.

Perec foi membro do OULIPO, um grupo que brincava com ideias e estruturas matemáticas diversas e as utilizavam na composição de seus livros. Parece complicado e limitante. E poderia até espantar alguém. Mas não é. Garanto! Um novo universo se abre. Um universo expandido de novos e esplendorosos conhecimentos humanos. A matemática funciona aqui como o desejo de se buscar mais explicações, mais belezas, mais profundidade na já fantástica e perturbadora mãe de todas as ciências e sentimentos: a Literatura.

A vida modo de usar começa com um Preâmbulo perturbador: o narrador supostamente compara uma obra literária a quebra-cabeças.  “Podemos deduzir algo que é, sem dúvida, a verdade última do puzzle: apesar das aparências, não é um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzle, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro”. Seria possível o escritor imaginar todas as possibilidades de leitura e intepretações de seus leitores? Seria possível controlar a recepção de sua obra? De suas palavras? Seria plausível controlar a vida?

A vida pregou peças em Perec. Sua mãe morreu em Auschwitz e seu pai no front de guerra. Ele viveu só, angustiado e saudoso buscando alguma memória do pouco convívio teve com sua família. A contingência da História o fez brincar com o controle matemático na literatura. Ele, então, buscando as inacessíveis ‘certezas’ escreve La Disparition, um livro com trezentas e tantas páginas que nunca aparece a letra ‘e’, a mais frequente no francês. Loucura? Insanidade? Projeto impossível. Não sei. Não tente fazer isso em casa. E qual seria o motivo? Ele dizia que, ao se ver privado pelos nazistas do convívio com as pessoas mais importantes do mundo, ele também teria que ser capaz de escrever um livro sem a letra mais importante do alfabeto. Também escreve Palindrome, um livreto com cinco mil palavras que foi parar no Guiness Book já que poderia ser lido de trás para frente (com ‘ana’, mas um livro inteiro), e ainda sim permanece sendo o mesmo livro. Fantástico? Tentativa absurda de controlar o incontrolável? Surge, finalmente, o A vida modo de usar: em cada capítulo Perec se obriga a usar quarenta e duas regras distintas e lógicas. Aparecem inúmeras citações, referências a países diversos, personagens que sentados, em pé, de lado, segurando algo, etc… centenas de tabelas foram confeccionadas para compor esse livro (Se quiser saber mais, basta baixar o meu livro Literatura e Matemática na Amazon!). Difícil, né? Mas vale a leitura. O livro é maravilhoso!

A questão principal, talvez, é que você não precisa saber nada de matemática ou das regras utilizadas para ler os livros do Perec. São bonitos, delicados, profundos, sublimes (ou não, vai depender de cada um com é geralmente). Mas, se você é capaz de desvendar os mistérios, de saber das ‘leis’ que regem cada capítulo, cada linha, cada pensamento, o livro se torna mais mágico. Mais fabuloso. Mais empolgante! O poder inventivo da mente! A cada nova leitura, a cada nova resenha, a cada novo comentário alguém descobre (ou inventa) algo diferente. E, além das leituras de cada um (que são infinitas), as possibilidades lógicas que Perec apresenta abrem sempre novos caminhos.

Eu continuo me encantando diariamente com Perec… e por mais que estude, que trabalhe, que leia tudo relacionado ao seu projeto, mais eu fico sem saber. Mais e mais eu desconheço sua mágica… mais e mais eu me curvo diante da grandiosidade da nossa adorada literatura! (Semana que vem falo do livro Rua Labat Rua Ordener, de Sarah Kofman, um livro que me levou às lágrimas, que me fez enxergar finalmente que as palavras, por mais belas, matemáticas e profundas, não salvam e nunca salvarão ninguém).

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/NhqkgC

Minha casa, minha vida

Eu me sinto um pouco sem ar na Flip (brocha?). É tanta coisa acontecendo simultaneamente que acabo me perdendo no meu próprio quarteirão (acho que as ruelas daqui conspiram e te transportam para algum outro mundo possível). São tantas pessoas, tantos eventos, tantas performances, personagens, egos e atores (“Arre, estou farto de semideuses”). A gente fica querendo conhecer tudo. Escutar e participar das lamentações e orações literárias, descobrir autores, canções, artistas. Saber falar de todos assuntos, de todas fofocas e talvez de toda literatura. E ainda se equilibrando por entre as tortuosas pedras munido daqueles malditos livretos das programações das casas. Como dizia o Tom Jobim sobre morar em Nova Iorque, e que cabe direitinho aqui: “é bom, mas é uma merda”.

Ilustração de João Paulo Rocco.

Ilustração de João Paulo Rocco.

Mas eis que encontro um oásis no meio de toda essa confusão. Um descanso de toda essa loucura. Um lugar para ficar curtindo as deliciosas horinhas de descuido que Riobaldo uma vez conclamou. A Casa Rocco é uma delícia! (E lá eu sou amigo do rei! Sonho também que tenho a mulher que quero, na cama que escolherei!) Um lugar arejado, calmo, colorido e cheio de sorrisos, de afagos e de cerveja (eu nem gosto tanto assim de cerveja, mas o primeiro gole caiu muito bem!). As pessoas podem circular tranquilamente, bater papo com a equipe, conhecer alguns autores e ainda comprar uns livrinhos da Editora. Uma grande alegria!  E lá também todos podem pegar um livreto com o primeiro capítulo do meu famigerado livro Brochadas. A nova e audaciosa Ilíada da impotência. Ai meu Deus! (Falando em Deus, hoje, dia 3 de julho às 15:00h, converso sobre literatura infantil, e a fé que não tenho, ao lado do Frei Betto. Todos estão convidados).

Confesso que estou um pouco em pânico e novamente sem ar. Acho que agora, finalmente, me dei conta que as minhas brochadas de fato existiram e se tornaram públicas! Todos estão convidados a compartilhá-las! Na minha casa (Rocco), minha vida (Brochadas) está totalmente escancarada. O livreto está lá, todo pintado obviamente de azul e pode ser levado para casa sem contraindicações. Apenas uma prévia do que virá em agosto.

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Há, no entanto, um incrível segredo na tinta: com uma brocha, untamos de citrato de sildenafil (Viagra) a capa.  Assim, caso seu amigo ou amiga passe por algum imprevisto (merdas acontecem), bastar rasgar um pedacinho do livreto e colocá-lo sobre a língua (estilo LSD) enquanto recita em voz alta partes do livro (condição necessária). Pronto! Nunca mais terá os terríveis problemas narrados por mim! Amém!

Bom, é isso: apareçam na Casa, ouçam as mesas, conversem calmamente com as pessoas longe do agito oficial da Festa… e se preparem para as grandes Brochadas!

Coluna 1 do Skoob

Caro leitor, muito prazer. Este é o primeiro de muitos textos que me proponho, humildemente, a escrever todas as quartas-feiras aqui na página do Skoob sobre os livros que muito me marcaram, que ainda me tocam e que continuarão a me acompanhar pela minha jornada. Na próxima semana, convido-os a ler e discutir sobre Ficções, do escritor argentino Jorge Luis Borges. Antes, porém, permita-me uma apresentação breve em um conto inédito que narra um pouco da minha história e exemplifica a ficção que escrevo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

Outras memórias

Kafka, esse sonhador que não quis que seus sonhos fossem conhecidos,
agora é parte desse sonho universal que é a memória.
Jorge Luis Borges

Remembering the past is a form of time travel;
it frees us from the constraints of time and space
and allow us to move freely along completely different dimensions.
Eric Kandel

Aos cinco anos de idade ouvi, pela primeira vez, a famigerada, célebre e roseana palavra “doutor” (na verdade deve ter sido “dôtô”). Meu tio cientista tinha acabado de defender seu doutorado na Inglaterra e aquilo trazia, de alguma forma, certo encanto e orgulho para minha família. Foi nesse mesmo instante, contagiado pela beleza do momento, que decidi me tornar um desses “doutores”. Repetir, recriar e engrandecer o legado de meu tio.

Seria doutor. Seria pesquisador, cientista, descobridor, inventor… e também ficcionista! Viajaria errante por todo o mundo, assim como fizeram meus avós, bisavós e muitos dos meus antepassados. Eles, judeus, vagaram, fugiram, refugiaram-se em várias partes e em diversas épocas até serem acolhidos no Brasil, minha terra. Através da ciência, da tecnologia, da cultura e da poesia, eu imaginava percorrer novamente a Odisseia dos meus precursores, (re)inventando-os de uma forma pejorativa como Shylock de Shakespeare, Scrooge e Fagin de Dickens, ou fascinantes como nas vozes de Kafka, Freud, Agnon, Singer, Roth. Utópico, ingênuo, inocente e muito casto!

E diante de uma infinidade de caminhos e ficções, diante de uma babel de ilusões e quimeras, interessei-me por algumas áreas do conhecimento. Como tudo era poético, sedutor e sublime… Histórias e mais estórias… linguagens, invenções e mentiras… Vislumbrei, por algum tempo, tentar compreender um pouquinho dos segredos e dos mistérios do universo, até então criado em um Big Bang e eternamente em expansão. Física, Matemática e muita feitiçaria. Também, por gostar tanto dos livros (e por não entender absolutamente nada do que neles estava escritos), pude fingir-me poeta. Inventei-me como mais um dos muitos artistas que foge da dor e reelabora o que deveras sente e lembra… mas que também esquece. A verdade, ou o que agora, com o passar do tempo, construo, é que estava completamente perdido e aterrorizado.

E então cheguei a uma bifurcação no caminho. Qual caminho deveria escolher? Bom, dependeria muito de aonde eu gostaria de chegar. Mas eu sonhava em ser um doutor! Ah, sim, isso poderia acontecer, desde que eu caminhasse o suficiente (e tivesse muita sorte!). E assim, com um sorriso nos olhos, olhando todos os sertões e veredas, o mais longe que podia, para onde a estrada sumia entre os arbustos, escolhi os bosques maravilhosos e deslumbrantes das ciências exatas. Devaneava que Einstein, Feynman, Gell-Mann, Gödel, Erdös, Grothendieck, Cohen, Perelman me esperariam de braços abertos “among mad people”. Não poderia estar mais enganado. Apesar de gostar imensamente, eu não compartilhava nenhuma engenhosidade dessas mentes brilhantes (talvez somente a loucura, e nem ela era tão romântica como parecia).

Assim, por ser extremamente limitado e ordinário, não fechei os olhos para os outros caminhos e sonhos. Não deixei que os livros dessas ditas ciências duras flanassem a sós pelo campus universitário. Eles (les livres!) eram cordialmente acompanhados pelos protagonistas de outras maravilhosas vidas: Ahab, Bloom, Bartlebooth, Capitu, Dante, Édipo, Funes, Holden, Julieta, Lolita, Nemo, Quixote, Riobaldo, Raskolnikov,Virgílio, entre tantos. Junto aos meus novos personagens, eu, um medíocre flaneur percebi-me estrangeiro nessa terra de gigantes. Eu fugia desse universo exato vislumbrando (e falseando) mais cores e poesia. No eloquente rigor da linguagem científica, eu suspirava cantos, contos, encantos. Dessa forma dediquei-me de corpo e (sem) alma à matemática. Formei-me forasteiro nessa bela ciência. Amava, desamava e malamava os números e as inóspitas equações, mesmo sem compreendê-los. O único mistério é haver quem pense no mistério. E eu, com minha estropiada metafísica, pensava (demais) nos mistérios e nas desilusões que encarava diariamente.

Eu lia um pouco. E o que mais me atraía na literatura era o que não compreendia. O estranhamento, o mal estar, as referências literárias, fantásticas, cabalísticas, matemáticas. Os mundos mágicos dos autores, dos seus personagens e das suas incontáveis mentiras. Jorge Luis Borges me fascinava e, até então, não sabia que podia me dedicar profissionalmente a essa beleza. Fugi mais uma vez, e inventei uma tese que reagrupava veredas bifurcadas. Descobri outro autor (ou os livros dele me delataram) que também me incomodava, exasperava e aborrecia. Que dominou meu olhar e meu fascínio. Assim, resolvi brincar com a literatura de estrutura e rigor matemáticos de Georges Perec com a ficção fantástica e a utilização de conceitos abstratos matemáticos em Borges. Arrebatamento, fascínio, desilusão. Escrevi e muito fantasiei sobre esses desencontrados assuntos. Adorei! E me formei finalmente doutor.

Mas a realidade é sempre muito diferente. Eu me tornei um doutor insatisfeito. Descontente comigo, com minhas pesquisas, com minhas ideias, e com as picuinhas, pequenices e mesquinharias acadêmicas. Inconformado, perdido e medíocre. Mas querendo viver e gozar as dores e os deslumbramentos das letras e das ficções que me acompanhavam.

Fugi de novo, agora sonhando outro mundo, que não sei o que e como vai ser. O abobado doutor agora quer virar escritor. (E tem algo mais fantástico que isso?!) Um ingênuo escritor que insiste em recontar as reminiscências amputadas de seu percurso e de seu povo. Que insiste em se encantar com as palavras, com os sonhos, com as melancolias e amarguras apropriadas das memórias dos outros, que sabe que não aconteceram, e das suas próprias memórias, que tem certeza que são apenas fábulas. Um escritor inserido nas mesmas desilusões e maravilhas de qualquer sociedade. Um escritor que brinca, briga e romanceia a ciência e os vestígios… e que ainda busca a sua expressão… e o seu contentamento.

JACQUES FUX nasceu em Belo Horizonte em 1977. Com extenso currículo acadêmico, Jacques é graduado em matemática, mestre em ciência da computação, doutor e pós-doutor em literatura, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Tradição Planalto, 2011) recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras/Linguística do Brasil. Antiterapias (Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito do próximo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Editora Rocco, 2015, prelo), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte.