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COLUNA SKOOB – Alice: aventuras através do espelho, da imaginação e da matemática

 

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Em 2015 comemoramos 150 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas! Um marco. Uma alegria. Uma celebração à grande literatura! Se hoje em dia pensamos cada vez mais nos limites e nas possibilidades de se fazer literatura; e também no que se pode falar (e o que se deve calar, ou não…), Alice emerge diariamente para abalar nossas estruturas, nossas crenças, nossa razão, nossa moral e nossa lógica. Alice desconstrói, desfigura, transmuta, transtorna. Alice é a nossa lolita eterna. Nosso infindável desejo. Nossa pulsão pelo gozo inacessível. Alice precisa ser reescrita diariamente.

Ler Alice é se entregar aos mistérios e ao estranhamento da lógica. É não entender, e mesmo assim se admirar. É debochar dessa lógica tradicional de sentidos e sensações que estamos totalmente acostumados e inseridos. Ela, a perpétua e perversa menina, nos convida a experimentar o desejo e a repulsa pela compreensão de um mundo que não parece ser nosso. Um mundo do inconsciente, da inatingível busca pelo crescimento, da ilusória inserção, da quimérica assimilação. Alice, nunca esqueçamos, é uma estrangeira no espelho e nas maravilhas desse incrédulo país. Ela, sempre inconformada, metamorfoseia-se constantemente buscando seu lugar nesse universo completamente improvável mas, talvez, muito mais possível, plausível e humano que o nosso.

Eu leio Alice e sempre me encanto. Encanto-me com poder ingênuo e inventivo de uma suposta percepção da simplicidade. Essa menina é simples, mas também é densa, complexa, sensual. Ela desperta desejos recalcados, provoca o inconsciente, incita e instiga o leitor. Eu quero saber mais sobre essa menina-mulher-lolita que exala certezas e dúvidas, que liberta os sentidos, que não reprime a fantasia. Eu preciso saber mais sobre esse personagem leviano e maravilhoso, fascinante e impiedoso, obsceno e também extremamente fantástico. Eu quero me tornar Alice. Eu quero possuir suas letras, suas palavras, sua textura. Eu quero, mas não posso.

Ler Alice dá tesão! Um tesão insano e literário. Uma vontade angustiante de escrever um livro com toda essa potência e com todo esse pecado. Um livro que possa perpetrar e desvirtuar inúmeras e infinitas leituras. Um livro leve, rápido, exato, (in)visível, múltiplo e consistente em suas inconsistências (Ítalo Calvino iria adorar). Eu preciso reescrever Alice. Roubar sua lógica, seu deslumbramento, seu fascínio. Eu quero me tornar o espelho do espelho, o estrangeiro do estrangeiro, o menino ingênuo e indefeso diante da monumental e esplêndida criação artística. É tudo isso (e também nada disso) que Alice propõe. É tudo isso que almejo, que ambiciono, que persigo. E é tudo isso que nunca, autor nenhum, literatura nenhuma irá atingir. Não conseguiremos jamais entender esse livro. E nem reescrevê-lo. Esse livro já foi legitimado pela passagem tensa do tempo, pelas diversas e contraditórias culturas, pelas falaciosas e improváveis leituras, pela fútil e despedaçada justiça. Amém! Vida longa à grande literatura. Vida longa à Alice!

(Semana que vem (19 de agosto na Travessa Leblon, e 20 de agosto na Livraria da Vila da Fradique, ambos de 19:00-22:00) lanço finalmente meu novo e polêmico livro. Brochadas. Vou falar sobre tabu e censura!).

Brochadas em 4 vídeos

Quatro vídeos mostram um pouco do universo de Brochadas — confissões sexuais de um jovem escritor:

Chulé, mau hálito, erro de português, pensar na ex… O que te faz brochar?

Jacques Fux, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 como melhor autor estreante, explora mais uma vez (e com muito humor) os limites da realidade e da ficção em seu segundo romance Brochadas — confissões sexuais de um jovem escritor.

A primeira vez em que Jacques “ficou na mão” foi inesquecível.

Jacques é autor e personagem de Brochadas. Não só ele, mas as ex-namoradas também abrem o jogo sobre como falharam em alguns de seus (des)encontros amorosos.

Bruxaria, maldição e olho gordo foram, por muito tempo, algumas das explicações para as brochadas.

Para combater a impotência, elixires, orações e várias referências literárias e históricas são reveladas em Brochadas.

As mulheres! Elas deveriam escrever esse livro, elas são as verdadeiras poetas-fingidoras!

E Jacques, como Colombo, faz a sua descoberta.

Brochadas chega às livrarias pela Rocco em agosto de 2015.

Kit antibrochante: dicas dos sábios do passado

Em 2014, quando morava em Boston, vivi alguns momentos brochas, digamos assim. Entenda a brochada como quiser. Eu, confesso, sofri e brinquei bastante com o tema. Foram milhares de horas pesquisando e, para tentar me libertar e exorcizar meus monstros, resolvi escrever um livro inteiro sobre a questão!

O começo foi difícil. Falhei muitas vezes. Falhei miseravelmente entre idas e vindas, tentativas e mais tentativas. Nada de livro… nem de sexo! Mas, por ironia, falhando, e falhando cada vez melhor, acabei encontrando meu caminho. E qual não foi meu deleite, meu gozo, minha ereção, ao me ver ali, numa biblioteca lotada de gatinhas e de raros documentos que atestavam as brochadas dos maiores pensadores e escritores de todos os tempos! Indescritível! Once I was lost, but now I am found!

Entre as muitas histórias peneiradas, encontrei ‘causos’ de gente como Rousseau que, em Confissões, afirmou: “E repente, ao invés de chamas devorando meu corpo, senti um frio mortal percorrendo minhas veias; minhas pernas tremeram e, quase desmaiando, sentei e chorei como uma criança.” Também li o próprio Platão  reclamando, e muito, de seu “Platinho”: “Desobediente e teimoso, como uma criatura deficiente de razão.” Casos, histórias e livros muito engraçados. Descobri que John Ruskin, um grande pensador da Era Vitoriana, ao ver os vastos pelos pubianos de sua mulher na noite de núpcias em Veneza, brochou e fugiu desesperadamente, se recusando a consumar o casamento. Isso tinha acontecido comigo também! Eu não estava só!

Parte da pesquisa mostra como a maneira dos sábios e cientistas enfrentavam a questão da impotência. Ainda num tempo em que a pílula azul estava muito distante dos sonhos humanos, havia muitas receitas e os chamados ‘elixires antibrochantes’. Acabei criando um Kit Antibrochante para ajudar na publicidade do meu livro! Abaixo compartilho esse segredo e espero ajudá-los! Boa sorte (eu tenho vários desses kits espalhados na minha casa!)

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Kit antibrochante (uso contínuo)

Hipócrates (460 a.C. — 370 a.C.) considerado uma das figuras mais importantes da história da saúde, chamado “pai da medicina”, dizia que: “Legumes, cereais e nozes continham ar e calor necessários para ‘erguer’ a paixão.” Também recomendava o uso de “Cantárida [feito do corpo triturado de besouro] para evitar a brochada”.

O maior catálogo de antibrochantes foi escrito por Plínio, o Velho. Caio Plínio Segundo (23 — 79) recomendava: “Usar no pescoço o molar direito de um crocodilo para garantir a ereção nos homens.” Também indicava o consumo de “alho-poró, coentro fresco, aspargos para excitar o desejo sexual”.

Marco Valério Marcial (40 —102), poeta latino, escreveu em seus Epigramas: “Se o teu desejo diminui e afrouxa o ‘nó nupcial’/ tua comida será cebolinha/ teu banquete será de chalota.”

Pedânio Dioscórides (40 — 90) autor greco-romano, considerado o fundador da farmacognosia através da sua obra De materia medica, fonte preciosa de informação sobre drogas medicinais desde o século I até o século XVIII, indica: “Orquídeas mergulhadas em queijo de cabra se fores deitar com uma mulher e acaso precisares de coragem extra.”

Paulo de Égina (625 — 690) médico grego bizantino, conhecido por ter escrito o Compêndio médico em sete livros sugeria: “Moluscos, nabo, ervilha, anis, açafrão, mel, grão de bico e vinho contra o mal da impotência.”

Durante o século XIX, os médicos recomendavam: “Evitar café, chá, conhaque e tabaco e se fartar de arroz, milho, pão, aveia, frutas, pois a impotência sexual também significa impotência em tudo: mental, física, social, literária, etc.

Marie Charlotte Carmichael Stopes (1880 — 1958) escritora britânica, paleontologista, eugenista, ativista pelos direitos das mulheres e pioneira no campo de controle de natalidade, sugeria: “O uso de uma solução de Listerine e alume para evitar a ‘semi-impotência’ masculina.”

Seria essa a verdadeira dor?

Um livro. Um livro de memórias. Um livro de memórias traumáticas e terríveis. Um livro para mudar de vez a compreensão acerca do mundo, do ser humano, da História e de toda literatura. É isto um homem? descreve a dor, o espanto e o sofrimento de toda uma geração, de toda uma raça, de toda a suposta racionalidade humana. Primo Levi, então doutor em Química, é levado ao inferno de Auschwitz e por lá permanece onze meses. Período que muda sua vida e todo seu entendimento humano. Período que é narrado dolorosa e lucidamente nesse livro fundador da literatura de testemunho.

Testemunho, sob um viés, é o ato de escrever sobre os seus próprios momentos e as próprias lembranças. E isso não é tarefa fácil. Muito pelo contrário. A memória é enganosa, falaciosa e cheia de lacunas. E por ser extremamente limitada, é necessário tomar muitos cuidados. Cuidados para não se perder e nem para cair no lugar comum. E nem se esquecer de que está fazendo literatura de qualidade. Primo Levi sabe disso muito bem, e consegue escrever uma das mais belas obras sobre o sofrimento, sobre a memória e sobre a Shoah.

Nessa busca pelas lembranças dessa geração perdida; geração que entendeu que não haveria sentido algum em fazer poesia e beleza, Levi relata e medita sobre seu passado e sobre essas memórias coletivas. Mas ele não sabe como reconstruí-las. (Alguém, algum dia, saberá?) Como recriar algo que de fato ‘falta’. Algo que está inteiramente perdido. Algo que se busca constantemente, mas que se encontra tão recalcado e escondido que talvez nem apareça em pesadelos. Mas ele sabe também que, embora tudo isso permaneça subterrâneo e obscuro, sempre insiste em emergir como chagas e feridas tatuadas no corpo, na alma e em toda cultura humana. (Será que foram essas terríveis aflições revisitadas e resimbolizadas que o levaram a escolher sua morte em 1987?)

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Primo Levi, nesse brilhante livro, reflete sobre as limitações das palavras para expressar os sofrimentos e os assombros pelos quais passou nos campos da morte. Ele sabe, e sente, que recordar é sofrer novamente. É perscrutar inutilmente pela compreensão de algo ininteligível, apesar de extremamente racional, humano e verídico. É ter consciência que a vida, a História, a memória e a Shoah são coisas indecifráveis que ele, e todos nós, vivemos. Vivemos e enfrentamos diariamente.

É isto um homem? mostra, e prova, um pouco de todo o absurdo humano. Uma minúcia de toda capacidade de fazer e inventar o mal. Uma ninharia do que o homem (isto mesmo?) é capaz de conceber diariamente. Eu leio e releio esse livro com lágrimas nos olhos… e um certo ódio no coração. Eu me emociono com as palavras, com a sensibilidade, com a autoanálise do autor… e fico espantado de saber como algo assim foi capaz de ocorrer. Depois me lembro, ainda mais surpreso e angustiado, que, guardadas as devidas proporções (a Shoah foi um marco e um evento único), coisas assim acontecem e acontecerão enquanto existir o ser humano. Sim, Primo Levi, é isto mesmo que é o homem.

(Sem mais, semana que vem falo sobre Alice, em homenagem aos seus 150 anos).

Eventos de lançamento de Brochadas

Quatro cidades terão eventos de lançamento de Brochadas, a partir de 19 de agosto.

O primeiro evento será no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, com um bate-papo com a escritora Mary Del Priore:

Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/862982637089449/

No dia seguinte, estarei em São Paulo para um bate-papo com Márcia Tiburi e sessão de autógrafos na Livraria da Vila – Fradique:

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Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/972153636170355/

No dia 26 de agosto, às 19h, encontro os amigos, familiares e leitores de Belo Horizonte na Livraria Leitura do Pátio Savassi — e também haverá bate-papo com a Profª. Eneida Maria de Souza, da UFMG:

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Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/923689434337173/

Por último (por enquanto), encontrarei Diana Corso e Lina Wainberg para um bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria Cultura – Bourbon, em Porto Alegre:

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Confirme sua presença, marque seus amigos e até lá: https://www.facebook.com/events/1635765939971150/

Brochadas: A Jewish blind date

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O primeiro encontro às escuras (que na verdade foi muito às claras!) está bem descrito nas páginas iniciais do livro inaugural. Adão, até então sozinho e incompleto, pede a Deus uma companheira para preencher seu próprio vazio no Paraíso. Deus, que também vivia eternamente isolado, embora fontes apócrifas discordem desse fato ao referenciar Lilith como a ex-mulher renegada do Divino, resolveu atender ao pedido primordial. Nunca saberemos se Eva passou por algum crivo, se foi avaliada e aprovada por alguma família, e se os amigos e parentes foram com a cara e as vergonhas dela. O que sabemos é que Adão conheceu Eva e teve que se encantar com ela no primeiro dos primeiros encontros que a humanidade, a literatura, e deidade conceberam. E como essa história rendeu frutos pecaminosos, herdeiros e muita ficção, podemos dizer que esse blind date foi um sucesso! Essa peripécia artística teatral moldou principalmente a sociedade judaica que, desde então, vem (des)unindo incontáveis almas cabalisticamente incompletas. E eu, membro fálico do pacto firmado entre Abraão e o Divino Matchmaker, não poderia ser diferente. Participei de muitos desses encontros às escuras.

Podemos perceber todos os dias como a sociedade evoluiu. Antes éramos macacos desnudos poligâmicos, segundo a ficção evolucionista não adotada aqui, e hoje, após um grande mal estar na cultura, nos tornamos seres relativamente capazes, parcialmente monogâmicos, livre de odores e fezes, buscando perpetuar e assegurar a longevidade do nosso gene através do folclórico casamento. Tudo mudou, exceto a forma judaica de lutar contra a assimilação: os encontros às escuras continuam a todo vapor, porém com o auxílio contemporâneo da tecnologia.

A network judaica é muito forte. Informações circulam constantemente entre mães histéricas, rabinos barbudos e velhotas desmemoriadas. Recentemente essa Rede detectou a minha solteirice. Após ter namorado anos com não judias, descobriram que estava disponível um macho alfa judeu. Recebi algumas indicações, recomendações, sugestões, declarações e intimações de diversas judias prontas para reprodução. Entrei em contato com várias, conheci muitas, relacionei-me por frações mínimas e copulatórias de tempo com algumas, mas que não foram um grande sucesso como o tal do encontro primordial bíblico. Estava quase desistindo de praticar essa antiga modalidade e com isso jogar por terra (como fazia Onam) a minha possibilidade de um casamento judeu, quando me indicaram uma carioca via Facebook.

Fiquei admirado com seu perfil. Magistrada com lindos olhos verdes, pele clara, corpo malhado e muitas histórias em comum. Assim como eu, ela tinha morado em Israel, participado de um movimento juvenil, tomado gosto pelas viagens desbravadoras e também tinha o sonho secreto de ter muitos descendentes judeuzinhos. Trocamos algumas mensagens virtuais, mas ela nunca esboçou grande empolgação em me conhecer. Explico: uma magistrada no Brasil, apesar de ser tão qualificada quanto muitos outros profissionais, recebe um salário que desmerece qualquer outra ocupação (exceto a dos políticos, corruptos e repugnantes) além de possuir poder e hierarquia social superiores. Eu, apesar de 100% judeu, resolvi me dedicar à arte, à literatura à contemplação da Beleza (resumindo: um grande vagabundo ao olhar utilitarista), coisa que atrai uma parcela muita pequena das mulheres. Porém, conhecendo todas as histórias e poemas de amor, não poderia deixar de tentar conquistá-la sem antes lutar titanicamente. Propus um encontro às claras que foi aceito sem muita exaltação.

Viajei. Viajei em todos os sentidos. Tive que tomar o avião em direção à sua cidade e imaginei idealmente o encontro. Os corpos e as almas, assim como os falaciosos emails, se encontrariam? Preencheríamos o nosso Éden com muitos descendentes melequentos judeus? Ela seria minha uma grande merchante de filhos e de arte? Marcamos o nosso rendez-vous em um barzinho boêmio do Rio de Janeiro. Repleto de pessoas, ninguém saberia que naquela mesa ocorreria mais um dos históricos e antigos encontros arranjados. Em busca da inspiração para minha poesia, cheguei ao local combinado. Ela, radiante com seu vestido verde, dava-me esperanças e prometia-me devaneios. Diante da possibilidade de deixar essa minha vida errante, errando e desperdiçando minhas muitas sementinhas, resolvi empenhar-me na tarefa masculina da conquista. Dispus todo meu arsenal poético, cultural e lúdico. Contei e cantei histórias, músicas, casos e acasos. Inventei e me convenci de encontros às escuras que deram certo e que prosperam por gerações e gerações até chegar naquela fatídica mesa de bar.

A magistrada mirava-me sem me admirar. Quando tinha uma oportunidade de voltar à vida real, contava-me sentenças e julgamentos realizados. Atrelava-se à praticidade e a utilidade de sua profissão. Atestava o valor e o lastro do dinheiro que poetas e sonhadores não possuíam. Tornava-se lentamente desinteressante, exceto pelos seus lindos olhos verdes e por sua desejosa bundinha. Os poetas, assim como os cegos, sabem ver na escuridão e imaginar as redondices drummondianas de sua divertida e saborosa nádega. Assim, sendo mais homem que poeta, mesmo sendo ela desinteressante e desinteressada, encantei-me com a possibilidade de possuir seu corpo adâmico.

Continuei tentando. A magistrada, após muito escutar, e com todo seu poder institucionalizado como renomada juíza e como mulher que escolhe se o primeiro encontro terminará na troca de líquidos, exclamou com muito desânimo: “Que legal. Você sabe um tanto de coisa inútil!”. Refleti bastante. Que declaração! Ela conseguiu resumir em algumas poucas palavras toda a questão artística, além de me eliminar de qualquer disputa pelo seu corpo e pelo seu coração. Resignei-me. Resignei-me em nome de todos os poetas, escritores, literatos e sonhadores. Recordei-me de Oscar Wilde: “all art is quite useless” e retomei a inutilidade das minhas palavras e ações.

Toda arte, inútil por definição, tem a função libertadora. A arte, diferente do direito aplicado, não tem que se atrelar à funcionalidade, à aplicabilidade e à defesa dos direitos fundamentais do cidadão. Não. A arte inútil visa o desenlace de tudo que nos prende e nos distancia da verdadeira contemplação e admiração pela Beleza. A Arte, diferente da vida, almeja a Idealização. A magistrada rica e repleta de utilidade buscava no encontro às escuras, não a complementação do seu eu, e sim o reflexo de sua imagem. Alguém que engrandecesse suas conquistas. Eu, poeta, buscava às escuras a minha imagem refletida nos lindos olhos verdes da judia. Não nos encontramos. Perpetuamos mais uma das muitas histórias fracassadas de amor. Desencontramo-nos às claras no sonho das almas às escuras. Ambos, cegos, não estávamos dispostos a nos complementar. Só agora percebo que o pragmatismo da magistrada precisava da liberdade artística e somente agora também entendo que a arte liberta, mas que não pode viver só.

Mais um dos muitos Jewish blind dates se realizou. Mais um dos muitos desencontros da vida. Mais uma história apócrifa dos casais que não se uniram. Se o primeiro encontro às escuras da humanidade, apadrinhado pelo Divino Matchmaker, foi um sucesso, o último, tendo eu como figurante e apadrinhado pela mulher do rabino, não teve êxito algum. Acho que vou recorrer à praticidade jurídica exigindo meus direitos como sonhador, poeta e judeu.

*Publicado originalmente no saopauloreview.com.br

Holocausto, Auschwitz ou Shoah?

Jacques Fux

Universidade Harvard / FAPESP Unicamp

Em 20 de Janeiro de 1942 aconteceu a Conferência de Wannsee. Liderada por Reinhard Heydrich, e com a presença do alto escalão do partido nazista, entre eles Adolf Eichmann, os participantes resolveram exterminar onze milhões de pessoas. Essa resolução ficaria sendo conhecida como a “Solução Final da questão judaica europeia”.

Os eficientes burocratas, entretanto, ainda teriam que definir algumas regras e classificações de quem se enquadraria nessa condenação. Resolveu-se que quem possuísse ao menos um avô ou avó de origem judaica seria caçado e ‘removido’ para os Campos de Concentração e Extermínio. Mesmo aqueles que estavam completamente assimilados à cultura alemã e que não se sentiam mais judeus, por exemplo, se enquadrariam na classificação. Gershom Scholem, um dos maiores estudiosos do misticismo judaico, narrou a incredulidade de muitos judeus alemães que se sentiram ultrajados ao serem levados de suas casas pois se achavam mais ‘alemães’ que os próprios perpetradores. Foi neste momento que o judeu percebeu que, mesmo estando completamente assimilado a outra cultura ou crença, seria sempre visto como diferente e estrangeiro.

Os eventos seguintes a essa conferência, apesar das nossas reais limitações em entendê-los, produziram uma das maiores catástrofes (talvez a maior) que a humanidade já conheceu. Essa indústria ou máquina da morte, que resultou na quase total destruição dos judeus da Europa, posteriormente recebeu alguns nomes: Holocausto, Shoah, Auschwitz, entre outros.

Uma das primeiras pessoas a usar o termo Holocausto para designar o aniquilamento das comunidades europeias durante a Segunda Guerra foi o escritor e prêmio Nobel Elie Wiesel. Sobrevivente, Wiesel perseguiu durante toda sua vida (e ainda persegue) uma forma de tentar descrever as atrocidades desse período. “Guerra, tragédia, destruição: essas palavras não me convinham e eu procurava uma outra. Nesta  época, eu estudava o sacrifício de Isaac e encontrei no texto o termo holocausto, em hebraico “ola”, que significa oferenda pelo fogo. Ele ressoava com tonalidade diferente, implicava um aspecto místico”. Assim o escritor passou a usar o termo Holocausto durante um período de sua vida

Posteriormente, o próprio escritor deixou de usar esse termo e preferiu criar outro: Événement ou Reino da Noite. Um estudo mais aprofundado sobre o termo revelou um sentido de ‘oferenda’ e de ‘sacrifício ritual’. Assim como, segundo a concepção católica, Cristo teria se sacrificado para expiar os pecados da humanidade, alguns estudiosos acreditam que o emprego conotativo do termo Holocausto poderia sugerir uma forma de sacrifício, de ‘dar-se em Holocausto’ para expiação de algum pecado, o que não poderia e deveria ser empregado neste caso.

O termo Shoah, encontrado no Deuteronômio, e que pode significar devastação, aniquilamento e destruição sem explicação, é o termo mais utilizado principalmente na França. A própria intraduzibilidade do termo Shoah ajudaria a tentar entender o que se passou durante a Solução Final. Um dos mais importantes filmes sobre o tema, produzido pelo diretor francês Claude Lazmann, e recém-lançado no Brasil, leva o nome de Shoah, contribuindo para a difusão do termo.

A cidade de Oswiecim, na Polônia, conhecida como Auschwitz, abrigou a maior indústria da morte até então conhecida. O gigantesco complexo de Auschwitz abrigava, simplificadamente, um Campo de Prisioneiros (Auschwitz I), um Campo de Extermínio (Auschwitz II – Birkenau) e um Campo de Concentração (Auschwitz III), próximo às indústrias alemãs que utilizavam trabalho escravo, como a Siemens e a Krupp.

Talvez o Campo de Extermínio Treblinka tenha sido mais eficiente que o complexo de Auschwitz, se olharmos para os números e o tempo que ficou em funcionamento. Entretanto, houve uma fuga de alguns prisioneiros em Treblinka e os alemães resolveram destruir todas as evidências do lugar. O local hoje não possui quase nenhum registro do que aconteceu e sobreviventes que puderam testemunhar foram muito poucos. Auschwitz, por sua vez, pode ser visitado e a estrutura do campo ainda se encontra quase intacta. Além disso, muitos sobreviventes puderam dar seu testemunho.

Assim, portanto, talvez o melhor termo para tentar denominar os acontecimentos posteriores à Conferência de Wannsee seja Shoah. Holocausto, muitas vezes, pode adquirir uma conotação negativa ao entendê-lo como sacrifício. Auschwitz, por sua vez, nomeia somente um dos lugares, terrível, mas que não abarca toda complexidade da solução final. Shoah, difícil de escrever, difícil de traduzir, difícil de expressar, talvez represente esse murmúrio e lamento que infelizmente o mundo conheceu.

*Texto publicado originalmente no São Paulo Review sobre Holocausto

Brochadas: uma ficção?

 

Brochadas é, sobretudo, uma reflexão sobre o amor; sobre o amor entre mulher e homem, que não pode prescindir do sexo. Jacques Fux dá ao termo uma acepção que não está nos dicionários — pois, além de incluir a experiência feminina, explora o conceito sob um viés filosófico, transcendendo o psiquismo e o fisiologismo.

Alberto Mussa

 

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Eu me lembro exatamente do dia em que comecei a escrever o Brochadas. Depois de viver um romance maravilhoso, repleto de sonhos, planos e mudanças, porém extremamente conturbado e violento, ganhei um inesperado e miserável pé na bunda!

Naquele fim de semana tudo caminhava bem. Apesar das discussões tradicionais, acabamos acertando todas as nossas desavenças, tivemos uma fantástica e tórrida noite em que os corpos e as almas finalmente se encontraram, e nos despedimos certos de que uma nova vida a dois teria início. Ela saiu do táxi em direção ao seu trabalho com lindo e amoroso sorriso. Eu retribuí com um beijo caloroso e saboreei uma sensação de que finalmente tudo estava nos eixos e que poderíamos viver uma vida tranquila dali para frente. Grande engano. Três dias depois, de forma completamente inesperada, recebi uma WhatsApp colocando um fim doloroso em todos meus devaneios, planos e desejos em relação a ela. A vida, o ‘real’, o possível, é exatamente o que acontece nessas horinhas de completo descuido.

Nós nunca mais nos vimos. Nós nunca mais nos falamos. Nós nunca mais soubemos notícias do outro. Ela ficou tatuada em mim por muito tempo. Eu a vi diversas vezes saindo daquele táxi, com aquele maravilhoso sorriso e com aquela segurança do nosso futuro. Essa cena cinematográfica – Feitiço do tempo, talvez tenha se repetido em mim por insólitas eternidades. Se eu soubesse que aquele momento seria o último teria feito tudo diferente. Eu não deixaria jamais que ela saísse daquele táxi. Eu não deixaria jamais que as nossas bocas e os nossos corações se separassem. Eu não deixaria jamais que nossos sonhos não fossem mais os mesmos. Mas a vida é o imponderável. O imprevisível. A contingência. A brochada. Aquele sorriso ainda cintila tragicamente na minha memória… ela partiu, partiu e não deixou nada… apenas aquele sorriso perverso de Cheschire.

Se nada disso existe mais, e se nada disso subsiste, nem mesmo nessas minhas memórias fracas e inventadas, qual o sentido de tudo? Será que é preciso que algo realmente faça sentido? Acho que não. Mas naquele momento eu quis eternizar a dor. A minha dor falseada, as minhas reminiscências dissimuladas e a sombra dos meus desencantos perdidos. Resolvi escrever, e fazer piada, sobre todas as desilusões vivenciadas. Resolvi encontrar distintas veredas e quimeras. Resolvi desvairadamente inventar novos párias como eu.

O livro nasce do desencontro. Do desencanto. Da desilusão. Da brochada. Nasce da tentativa de compreender o imprevisível. O casual. O contingente. Surge como mais um experimento literário que pretende inutilmente capturar a vertigem, o fugaz, o esvaziamento. A gente não consegue controlar absolutamente nada. A gente, apesar de sonhar, de desejar, de buscar transcender, é sempre apunhalado pelo mistério. Mesmo diante da ilusória certeza, da enganosa segurança tênue do amor, da traiçoeira convicção de estar vivo, somos insultados constantemente pelo acaso.

Acredito que seja nas desilusões, então, que os seres humanos acabam se unindo. Brochadas é, portanto, um livro que nos une através da frustração. A frustração das mais variadas histórias que não deram certo. (Ou que deram certo até demais). O livro fala de inúmeras decepções amorosas, literárias, literais, históricas, metafísicas, masculinas, femininas, religiosas, sarcásticas, cômicas. Conta causos e brochadas comuns, e também gozos e gozadas excepcionais. Flerta com o erótico, com o pornográfico, com as histórias íntimas e recalcadas de cada um. Brinca com cheiros, perfumes, personalidades, ídolos, mitos e com a religião. Descontrói certezas. Edifica dúvidas. Debocha da dor. Glorifica a perplexidade.

Assim, depois de uma longa e laboriosa pesquisa o livro chega ao seu êxtase provando que ninguém está sozinho (somente o Ziraldo, aquele que segundo a sua própria lenda, nunca brochou!). Que todos nós, ricos, pobres, nobres, célebres, mentirosos, religiosos, famosos, genocidas, abstêmios, virgens e putos brochamos. Brochamos e necessariamente não compreendemos. Brochamos, e ainda sim, precisamos viver e encarar erguidos essa inverossímil vida repleta de amores e constantes pés na bunda.

JACQUES FUX é escritor, pesquisador e acadêmico. Seu romance de estreia, Antiterapias, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autores estreantes em 2013. Seu mais novo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, será lançado em 19 de agosto pela Editora Rocco.

Uma última vereda

Fonte: Editora Rocco

Fonte: Editora Rocco

Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
Marcel Proust
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira
Este é meu último texto sobre a Flip. Já um pouco atrasado. Será que as minhas impressões sobre esse passado, ainda muito recente, estão se adulterando? Será que a construção da minha memória, da minha narração, da minha busca por uma fração desse tempo perdido é minimamente confiável? Verdadeira? Possível? E se eu me obrigar a escrever essas sensações, que ainda estão vívidas, mas um tanto falseadas, daqui a dez anos, o que permanecerá? O que será esquecido? O que ficará recalcado e subterrâneo? Não sei. Só sei que escrevo, mesmo sabendo que as reminiscências percorrerão uma nova e imponderável vereda.
Fonte: Editora Rocco

Fonte: Editora Rocco

Eu não parava de imaginar como seria o tão esperado papo sobre as Brochadas. Eu idealizava, sonhava, flanava pelas ruas de Paraty. O livreto com a “tentativa de esgotamento dos motivos das brochadas masculinas e femininas” já estava sendo distribuído e todos podiam conhecer um pouco mais do meu trabalho. E da minha loucura. Ao chegar na Casa Rocco já conseguia ver muitas pessoas ‘saboreando’ essas divagações brochantes. Estava tenso; não há, felizmente, controle algum sobre qualquer obra de arte…  mas, ao reparar sorrisos, gargalhadas e brincadeiras, fiquei um pouco mais tranquilo. Com mais vontade de entrar de cabeça nesse fantasioso mundo literário, transformando-me, portanto, num personagem sem vergonha, sem recalques… sem nenhuma gota de timidez. Assim começou o esperado debate.

E foi aí que descobri como o tema é relevante para todos! As pessoas se esbaldaram. Todo mundo queria fazer de si um personagem do Brochadas. Contar casos, fazer piadas, falar, falar muito mais do que devia. Todos poderiam finalmente entender essa questão tão tocante a todos nós, seres incompletos, impotentes e contingentes. Aquele era o ambiente perfeito para encontrar confidentes em textos literários, sagrados, canônicos. As pessoas se surpreenderam ao saber que Santo Agostinho, Platão, Montaigne já falavam sobre brochadas. Que a poesia de Pessoa, de Drummond, de Bernardo Guimarães já se encantava com o tema. E que a brochada era um assunto simples, belo e cotidiano, assim como a pornografia, o erotismo e imaginação dos textos picantes de Sade, Bataille e Safo lidos pela querida Professora Eliane Moraes. Eu acabei ficando um pouco calado: a obra, que ainda nem foi publicada, já era do leitor, do público, do outro. Estrangeiro de mim, o livro já transformava e se perdia do meu eu, da minha dor, das minhas invenções.

Assim eu me recordo ardilosamente, neste agora, daquele já passado sábado à noite. Assim eu me lembro daquela chuva. Daquela ansiedade. Daquela grande felicidade em atuar e viver de literatura.

(In)certezas lúdicas

De que é feito um texto? Fragmentos originais, montagens singulares, referências, acidentes, reminiscências, empréstimos voluntários. De que é feita uma pessoa? Migalhas de identificações, imagens incorporadas traços de caráter assimilados, tudo (se é que se pode dizer assim) formando uma ficção que se chama o eu.

Michel Schneider

Foto: Editora Rocco

Foto: Editora Rocco

Ontem foi a minha primeira mesa aqui na Flip – Casa Rocco. Frei Betto e eu conversamos sobre literatura infantil e falamos sobre algumas questões delicadas para todos nós. Morte, vida, fé, amor, literatura. Questões, acredito, que não têm e nunca terão nenhuma resposta. E, por isso, e somente por isso, são tão belas, profundas, sensíveis e misteriosas… O espaço da literatura, imagino, é o espaço da dúvida, do estranhamento e do estrangeiro. O falacioso lugar a arte habita. Completamente inútil, apesar de concebida para preencher de alma um corpo (e uma vida) vazio. Essa, talvez, seja a minha única crença… e minha única incerteza. Porém, supreendentemente, foram as muitas certezas que permearam a discussão.

A casa estava lotada! (Certamente, se eu falasse alguma besteira, como não deixo nunca de fazer, muitas das pessoas ali presentes poderiam rapidamente pisar no meu dedão do pé… ou até fazer algo pior… vai saber!) Encantei-me com a proximidade das pessoas. Encantei-me com a vontade e a felicidade delas por estarem ali presentes (não sei se elas desconfiaram, mas a felicidade maior era nossa… há sempre muita vaidade naqueles que falam…) Seus olhos, cheios de carinho e empatia, buscavam interagir e se integrar à festa… e se aproximar dos autores. Mas, conjecturo, elas também almejavam algumas respostas… respostas que eu não daria…

A verdade é que eu gostaria de ter alguma certeza. E alguma fé. E seguir algum caminho preestabelecido. Viver uma outra espécie de loucura. E de revelação. Porém, acho que me encontro eternamente na Tabacaria, acompanhado de Pessoa e do Esteves sem metafísica, cantarolando os seguintes versos: “Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”

Mas tudo isso é uma grande mentira! Ontem, confesso, não tinha nenhuma certeza… somente dúvidas, indagações e dilemas. E a literatura me auxiliando. Eu definitivamente não estava na minha zona de conforto. Mas hoje, sim, sou uma outra pessoa. Completamente metamorfoseado. Cheio de convicções e inúmeras respostas. Hoje posso responder todas as conjecturas imaginadas. Hoje tenho conhecimento empírico, literário, metafísico, religioso e científico no assunto! Falo, canto e recito a fantástica Ilíada das Brochadas (19h, na Casa Rocco)! “Vinde a mim, todos os que estão cansados, sobrecarregados e impotentes; eu vos aliviarei!” Amém!

Minha casa, minha vida

Eu me sinto um pouco sem ar na Flip (brocha?). É tanta coisa acontecendo simultaneamente que acabo me perdendo no meu próprio quarteirão (acho que as ruelas daqui conspiram e te transportam para algum outro mundo possível). São tantas pessoas, tantos eventos, tantas performances, personagens, egos e atores (“Arre, estou farto de semideuses”). A gente fica querendo conhecer tudo. Escutar e participar das lamentações e orações literárias, descobrir autores, canções, artistas. Saber falar de todos assuntos, de todas fofocas e talvez de toda literatura. E ainda se equilibrando por entre as tortuosas pedras munido daqueles malditos livretos das programações das casas. Como dizia o Tom Jobim sobre morar em Nova Iorque, e que cabe direitinho aqui: “é bom, mas é uma merda”.

Ilustração de João Paulo Rocco.

Ilustração de João Paulo Rocco.

Mas eis que encontro um oásis no meio de toda essa confusão. Um descanso de toda essa loucura. Um lugar para ficar curtindo as deliciosas horinhas de descuido que Riobaldo uma vez conclamou. A Casa Rocco é uma delícia! (E lá eu sou amigo do rei! Sonho também que tenho a mulher que quero, na cama que escolherei!) Um lugar arejado, calmo, colorido e cheio de sorrisos, de afagos e de cerveja (eu nem gosto tanto assim de cerveja, mas o primeiro gole caiu muito bem!). As pessoas podem circular tranquilamente, bater papo com a equipe, conhecer alguns autores e ainda comprar uns livrinhos da Editora. Uma grande alegria!  E lá também todos podem pegar um livreto com o primeiro capítulo do meu famigerado livro Brochadas. A nova e audaciosa Ilíada da impotência. Ai meu Deus! (Falando em Deus, hoje, dia 3 de julho às 15:00h, converso sobre literatura infantil, e a fé que não tenho, ao lado do Frei Betto. Todos estão convidados).

Confesso que estou um pouco em pânico e novamente sem ar. Acho que agora, finalmente, me dei conta que as minhas brochadas de fato existiram e se tornaram públicas! Todos estão convidados a compartilhá-las! Na minha casa (Rocco), minha vida (Brochadas) está totalmente escancarada. O livreto está lá, todo pintado obviamente de azul e pode ser levado para casa sem contraindicações. Apenas uma prévia do que virá em agosto.

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Há, no entanto, um incrível segredo na tinta: com uma brocha, untamos de citrato de sildenafil (Viagra) a capa.  Assim, caso seu amigo ou amiga passe por algum imprevisto (merdas acontecem), bastar rasgar um pedacinho do livreto e colocá-lo sobre a língua (estilo LSD) enquanto recita em voz alta partes do livro (condição necessária). Pronto! Nunca mais terá os terríveis problemas narrados por mim! Amém!

Bom, é isso: apareçam na Casa, ouçam as mesas, conversem calmamente com as pessoas longe do agito oficial da Festa… e se preparem para as grandes Brochadas!

O mundo mágico da Flip?

Escrevo da Flip. Escrevo o encantado mundo da Flip. Escrevo o mundo fantasioso, fantasiado e talvez inconcebível das festas literárias. Onde as obras dão lugar aos autores. Onde a morte do autor, já conclamada e cultuada décadas atrás por Barthes, deixa de fazer certo sentido. Ou passa a ser encarada de uma outra forma ainda mais literária. Enfeitiçada, roubada e falseada pelo olhar do poeta (como já diria ou inventava Rilke).

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Caminhando pelas ruas tortuosas e cheias de pedras (que fatalmente fez ou fará alguém torcer o pé ou o joelho e, com uma dor insuportável, mandar todo esse mundo artístico para aquele lugar) encontro vários autores. Verdadeiros autores ou apenas personagens da Festa e de si mesmos? Não sei. Desconfio. Peço indicações do melhor caminho a tomar, a partir dali, a Joca Reiners Terron, que passeava alegremente ao lado do rio com sua inconfundível barba. Ele me aponta, meio enigmático, algumas ruas. Não entendo muito bem suas indicações e continuo caminhando sem destino. O fato é que eu tinha que chegar a algum lugar, por isso prossegui. Um tempinho depois esbarro com um João Carrascoza apressado, ansioso e visivelmente atrasado, indo assistir alguma palestra, ou fugindo desesperadamente de alguém. Nem consigo perguntar direito o que ele está achando de tudo isso aqui. Ele some no meio da multidão, mas sei que nos encontraremos novamente. Por isso não ligo. Esse nonsense faz parte dos contos de fada. Vejo também o Marcelino Freire tomando um chá (especial) na Praça da Matriz. Não me sento com ele. Não tive a ousadia de me convidar e tampouco fui convidado. Por certo não havia lugar na mesa para mim. A verdade, acho, é que ele nem me notou. Eu sou estrangeiro nesse país daqui. Será que estou imaginando ou estou vivendo de fato tudo isso? Não sei. Mas, imerso nesse mundo de faz-de-conta, não posso deixar de sonhar Joca, Carrascoza e Marcelino como personagens de um possível País das Maravilhas de Paraty! Sorrio e continuo caminhando (com muito cuidado para não torcer meu pé!).

Surpreendentemente encontro Beatriz Sarlo. Bom, encontrar é uma palavra forte demais para o caso em questão. Até gostaria que nesse suposto ‘encontro’ ela tivesse se jogado em meus braços e apertado na bunda. Assim eu teria muito mais literatura e invenções para escrever! A verdade é que apenas a escutei falando no telão da Praça e bem mais tarde a vi jantando com as amigas num restaurante chique. Nada de intimidades entre nós, pelo menos por enquanto. (Ela ainda não me descobriu!).

Ah, a Beatriz Sarlo sempre foi uma figura mítica para mim! Fábula, fabulosa, fabulista (uma versão ainda mais encantada do que escreveu Drummond sobre Guimarães Rosa). Porém, acho que aqui minto e caio no erro comum dessas festas literárias. A verdade é que os livros da Beatriz Sarlo sempre foram cultuados e idealizados por mim. Nossa! Como eu li, reli, rabisquei, rasurei e chorei de raiva e emoção desbravando seus estudos crítico-literários. Como eu me apaixonei ainda mais por Borges por conta de suas profundas palavras! Como eu me vi, e me vejo, completamente en las orillas de tudo, de toda literatura, de todos os sentimentos e invenções após conhecer seu poderoso e revolucionário trabalho! … E como encarar, a partir de agora, a figura personificada, reles e humana, dessa outra Beatriz Sarlo? Lembro-me quase instantaneamente de Ray Bradbury e de seu Fahrenheit 451. A Beatriz Sarlo que caminha e sorri por aí não passa de uma cópia pífia e ordinária dos maravilhosos livros e invenções da ‘Beatriz Sarlo’ que tenho criado dentro de mim. Ela é, e sempre será para mim (mesmo que amanhã, em alguma esquina de Paraty, ela resolva me dar uns amassos) uma fantástica autora-livro sonhada como os personagens idealizados de Bradbury. Recrio aqui (um pouco decepcionado) uma outra Sarlo completamente metamorfoseada.

Antes de dormir reflito sobre minhas catarses e sobre a magia da Flip. Iludido e enamorado, convenço-me de que tudo isso aqui é mágico e louco, apesar do desencanto e do desencontro entre livro e autor. Resolvo descansar dessa vigília onírica que já foi demais para mim. Aguardo ansioso pelo dia seguinte e por novas e fantásticas aventuras. Sonho com o Bairro de Gonçalo Tavares (e também com uma jovem Sarlo).

Bate-papo na Flip

Ilustração de João Paulo Rocco. Fonte: Editora Rocco.

As centenárias e sinuosas ruas do Centro Histórico de Paraty já estão prontas para receber os milhares de leitores e escritores ávidos por literatura: começa amanhã a 12ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty.

Geralmente participo da Flip como espectador, porém, este ano, estarei na cidade — um pouco mais entusiasmado, confesso — como escritor. Aproveitarei para falar sobre “Brochadas”, meu próximo romance, que será lançado em agosto!

Nos dias 3 e 4 de julho, às 15h e às 19h, respectivamente, participo de dois bate-papos, na Casa Rocco, sobre universos completamente distintos, mas com os quais estou muito envolvido: literatura infantil e ficção adulta.

3 de julho (sexta-feira) – https://goo.gl/07yTq6
15h – Isso é coisa de criança? Religião, filosofia e morte: Frei Betto e Jacques Fux. Mediação de Elisa Menezes.

4 de julho (sábado) – https://goo.gl/CRhnR9
19h – Brochadas: confissões sexuais e invenções literárias: Jacques Fux e Eliane Robert Moraes. Mediação de Pedro Vasquez.