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Entrevista sobre o ‘Nobel’!

Nobel, de Jacques Fux

“Finalmente aconteceu. Após anos de protestos, apelos e polêmicas, após uma infinidade de escolhas questionáveis ou francamente equivocadas, a Academia Sueca finalmente colocou a cabeça no lugar e agraciou o escritor mineiro Jacques Fux com o Nobel de Literatura – ao menos para efeitos de ficção. Esta é, pois, a premissa do formidável e divertidíssimo Nobel, quarto romance do vencedor (agora, sim, de verdade) do Prêmio São Paulo de Literatura (muito mais importante do que o Nobel, diga-se de passagem).

O que o novo livro nos traz é a antiterapia perfeita para os dois lados de uma mesma moeda (ou neurose): o comércio com fantasmas que constitui a atividade criativa e o diálogo de surdos que contamina o meio literário. A distinção é importante porque Nobel não é um ataque à literatura, mas, sim, a algumas coisas que ela traz a reboque: o networking desavergonhado, a pose muitas vezes ridícula e as manias dos escritores, as farpas e socos trocados entre os pares, as indiscrições, as pequenas, médias e grandes canalhices, a pseudoerudição e por aí afora.

Diante da Academia Sueca, o galardoado Fux digressiona não sobre o “patamar sacralizado e quase inatingível” dos usualmente celebrados em eventos como o Nobel, mas sobre os desvios, os “atos indecorosos” e os “recalques obscenos, sórdidos”. No decorrer do discurso que constitui o romance, ele relembra, recria e, em alguns casos, corrompe histórias envolvendo autores como Kafka, Canetti, Sartre, Hemingway, Kawabata, Mishima, Walcott, Coetzee, Vargas Llosa e outros.

Com isso, ao mesmo tempo em que sacaneia a pompa e a circunstância incorporadas pela premiação máxima, Fux inadvertidamente enseja uma defesa da criação e da loucura literárias, do humor e, claro, do humano em toda a sua belíssima sordidez – ou sórdida beleza, tanto faz. Nobel é, em suma, um hilário elogio da imaginação.

Com a urbanidade que é peculiar aos justamente laureados, Jacques Fux se dispôs a responder algumas perguntas sobre seu novo romance, entrevista que o leitor pode conferir.”

Uma ótima resenha do ‘Nobel’!

Um Zelig brasileiro ganha o Nobel!

“Para todos aqueles que espernearam ou fizeram beicinho diante da escolha do músico Bob Dylan para o Nobel de Literatura, a Academia Sueca acaba de fazer justiça concedendo a prestigiosa honraria ao escritor mineiro Jacques Fux.

Quer dizer, a um alter ego do escritor; uma espécie de duplo-eu palavroso e mordaz que ora funciona como uma consciência literária, ora dá um salto para trás e se transforma numa subconsciência censora deste mesmo narrador.

Sobre o púlpito e sob os holofotes, o Fux premiado substitui o protocolar discurso de agradecimento pela exposição de um raciocínio que, ao invés de enaltecer a distinção e a todos que foram agraciados antes dele, busca os desvios, “os recalques obscenos”, nos quais “repousa o verdadeiro autor e suas mais honestas palavras”.

Nobel, romance recém-lançado, constitui-se, assim, dessas divagações perpendiculares, de um passeio comandado pelo emprego inteligente de contrastes e efeitos humorísticos através (ou a partir) de circunstâncias da biografia e da bibliografia de escritores laureados e daqueles que foram miseravelmente desprezados.

Ao mesmo tempo, o narrador faz uma coloscopia do meio literário. A descarada exaltação dos escritores fabricados, as arrogâncias e as trocas de farpas entre pares, as relações sórdidas entre editores e críticos literários, as indiscrições de caráter sexual que os autores convertem em matéria para a construção de seus livros.

Aliás, o próprio Fux declara que se valeu de todos esses expedientes para chegar até ali. O discurso, então, ganha corpo no encadeamento de associações: ao contar sobre um acontecimento relacionado a um autor agraciado com o Nobel, ele agrega a informação a um fato de sua própria existência.

Quando comenta o caso amoroso de Kafka com a melhor amiga de sua amada Felice, por exemplo, o personagem confessa que se utilizou de um relacionamento indecoroso que teve com uma mocinha para abastecer sua ficção e chamar a atenção para si, sem qualquer vergonha (N. do resenhista: impossível de acontecer na realidade).

A verdade, imundos senhores, é que nos valemos da própria sujeira e imundície para sermos premiados, lidos e reconhecidos. Só talento não basta. Por bons caminhos seguem nossas criações – nossos personagens, nossas criações, nossas bastardas Felices. Nós é que continuamos, sem escolha e sem saída, nesta vereda imprestável e desgraçada, mas ao mesmo tempo maravilhosa, que é a literatura.

Outros nomes, a exemplo de Elias Canetti, Ernest Hemingway, Albert Camus e Yukio Mishima, fazem parte desse relatório de constatações e (re)criações. O autor também articula seu jogo de correspondências nessa esfera. Ao trazer à tona a acusação de assédio sofrida pelo caribenho Derek Walcott (ganhador do Nobel em 1992), ele faz uma conexão direta com o romance Desonra, do sul-africano J. M. Coetzee (ganhador do Nobel em 2003), cujo enredo trata justamente de um professor de literatura que é expulso da universidade após ter um caso com uma aluna.

A verdade é que Fux, o original, é um escritor inteligente, que transmite sua erudição por meio do dispositivo da galhofa, da satirização da vida, entregando uma literatura que é culta ao mesmo tempo que divertida. Literatura é mais literatura, quando é também história, política, conhecimento, crítica e entretenimento.

À medida que se abarrota de nomes da literatura, fica evidente que a duplicidade do narrador não se resume ao autor mineiro, mas a todos que mencionou. O personagem mesmo confessa, em dado momento: Eu sou o duplo de todos eles! Lembra o protagonista de Zelig, longa-metragem de Woody Allen de 1983, que se torna notório por conta da habilidade inigualável de imitar qualquer pessoa que encontra.

De fato, o mimetismo está no núcleo criador do romance; no plano sarcástico de mostrar que, no clube de modelos literários, todo mundo é meio camaleônico, todo autor arremeda os tiques, o estilo, os erros e os acertos de um “Nobel de Literatura” para se considerar (ou ser considerado) original.

Nada é original. Até mesmo a tipografia, que se tornou marca de uma célebre editora, que Nobel toma emprestado para registrar a voz de seu Zelig brasileiro.”

Alguns comentários sobre Brochadas!

“Te escrevo para agradecer o envio de teu pequeno e precioso livro. Ele é um verdadeiro representante da tradição auto-exegética fundada por Santo Agostinho. Vc e Jacó se colocam como esses santos na galeria de nossa cultura totêmica autoescritural. Um verdadeiro testemunho testis, da crise, fenda, aberta na psiquê ocidental, desde que se inventou a mulher!!!”

“Porra, que livro sensacional! Deitei no sofá pra começar a ler um pouco e tal, e não consegui parar até terminar o livro, foi numa tacada só, há tempos eu não lia o livro assim. Me identifiquei com várias coisas (não com as brochadas! haha) – fiquei pensativo e também parece que as mulheres do livro são mulheres que conheci ou me relacionei. E eu nunca tinha parado pra pensar sobre a palavra brochar: eu contava com orgulho para todos os meus amigos estrangeiros sobre a palavra saudade, mas agora já é definitivo: só vou falar sobre brochar! Já até fiquei pensando em como explicar e/ou traduzir isso pra eles.”

“Adorei o livro e independente das suas intenções, invenções ou realidades, me diverti e foi ótimo para refletir. Na realidade pouco importa o que você quis expressar com o livro mas sim o que eu senti com ele, mas para mim não teve nada a ver com sexo e, no final, as “brochadas” são mais importantes do que os parceiros com quem se brocha. Brocho todo dia e por diferentes razões, não sei se isso é bom ou ruim mas é a vida.”

“O livro Brochadas não se trata apenas de uma simples diversão, pois é muito inteligente, à medida que nos leva à reflexão. O autor confunde, brinca com o leitor e discorre com muito humor, filosofia e erudição sobre as indesejáveis “falhas”.”
“Parabéns por mais um trabalho e por dar voz as mulheres nessas situações constrangedoras, engraçadas e brochadas!”
“As confissões de Jacques Fux são incríveis! Brochadas é um livro que se devora de tão intensa que é a leitura. Dá para rir muito, mas sempre com aquela dúvida: O quanto isso dói? O quanto a brochada dói no coração e na alma de quem se entrega ao amor e ao sexo? Quanto o prazer de uma gozada sem compromisso é mais intensa e melhor que aquele prazer alcançado com carinho? A forma da escrita é envolvente, direta e firme. É possível sofrer, ter raiva, se angustiar e ser enganada (será?) pelas correspondências das musas jacquianas. O que se aprende com a leitura de Brochadas, a meu ver, é que é preciso experimentar, testar, viver. Como disse Vinícius: “Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém”.

“Quando comecei a ler os depoimentos das brochadas eu fiquei um tanto surpresa. Pensei: Nossa, Jacques eh corajoso hehe as meninas devem ter ficado muito bravas. Depois pensei, nossa as meninas sempre dao uma resposta ate melhor, mais profunda e reflexiva do que o proprio “Jacques”. Depois entendi que eh tudo literatura e achei tao intrigante e interessante que li o livro todo em um dia. Conclusao: eu gostei do livro e fiquei pensando sobre ele por alguns outros dias:)”

“Olha, estou delirando no livro! As historias da Agnes e das outras mulheres são inebriantes. Parece um pouco do “amor em tempos de cólera” quando você descreve as mulheres”.

Uma entrevista para o Yahoo!

1. Você escreve que “desde sempre se buscam explicações, desculpas e soluções” para as brochadas. O pau tem mesmo uma vida própria, do tipo que desobedece os comandos do cérebro?

De acordo com minhas pesquisas históricas, o funcionamento ilógico do pênis tem perturbado muita gente (o que não é o meu caso, claramente!). Muitos filósofos, escritores e pensadores se debruçaram sobre o assunto. Rousseau, por exemplo, em seu livro Confissões, revelou sua brochada de uma forma poética e literária: “de repente, ao invés de chamas devorando meu corpo, senti um frio mortal percorrendo minhas veias; minhas pernas tremeram e, quase desmaiando, sentei e chorei como uma criança.” Já Platão se incomodava por não conseguir controlar seu Platinho: “desobediente e teimoso, como uma criatura deficiente de razão.” Montaigne, por sua vez, reclamava da rebeldia do seu petit: “é certo notar a dispensa e a desobediência desse membro que inoportunamente nos deixa na mão quando mais necessitamos.” A verdade é que essa questão foi, é, e continuará sendo um grande mistério. Por isso é importante discutir, escrever e inventar muito sobre esse assunto!

2. Sei que há mais motivos para a paumolecência do que estrelas no céu, mas me conta quais as são as principais? Porque homens brocham, inclusive, quando estão com tesão, certo?

O Brochadas trabalha com as ponderações masculinas e femininas para esse problema milenar. No início há duas listas bem interessantes: “Tentativa de esgotamento do motivo das brochadas masculinas” e “Tentativa de esgotamento do motivo das brochadas femininas”. Copio aqui alguns dos muitos motivos:

Masculinos:

Mau hálito; chulé; perfume; fedor na xoxota; fedor no bumbum; seios murchos; seios caolhos; bunda murcha; bunda flácida; bunda caída; bunda grande demais; excesso de pentelhos; pouco pentelho; cabelo debaixo do braço; cabelo no bico do peito; excesso de álcool; ansiedade; obrigação; pensar na mãe; pensar na ex; amadorismo; demorar para achar a camisinha; mulher que fala “não” para tudo; mulher que não quer te chupar; excesso de trabalho; amor demais; já ter transado com a mesma mulher muitas vezes; já ter transado com a mesma mulher muitas vezes no mesmo dia; ouvir a música que ouvia com a ex; pinto esfolado; mulher que não sabe chupar direito; mulher que te bate demais; mulher que te arranha demais; trair a mulher que ama; camisinha apertada; ter se masturbado antes; dor de barriga; quando apaixonado, a primeira vez com a mulher; a primeira vez com alguma mulher; preliminares demais; ter brochado antes com a mesma mulher; ter brochado antes com outra mulher; mulher importante demais; (…)

Femininos:

Mau hálito; fedor; pinto fedido; chulé; pinto pequeno demais; pinto grande demais; pinto meia bomba; muito pentelho; pouco cabelo; muito cabelo; carência; estupidez; carinho demais; zelo demais; falta de criatividade; desconhecimento do corpo feminino; egoísmo; narcisismo; não ligar no dia seguinte; sentir perfume de outra; ser chamada por outro nome; homem que não quer te beijar depois de feito sexo oral nele; homem que não faz sexo oral; homem que esquece totalmente dos seios; erros de português nas mensagens; cueca furada; dar apelido à vagina; homem que dispara a rir no meio do sexo; homem que dispara a chorar no meio do sexo; homem que troca toda hora de posição; cueca com ‘freio’; cueca relaxada; homem que não te envolve sentimentalmente; homem que fica se olhando demais no espelho; beijinho sem volúpia; falar da mãe; falar da ex; homem que solta pum na hora; homem que fala igual a neném; homem que chama de puta, putinha, vadia; homem que não xinga; homem que bate forte demais; homem que não bate; excesso de cuidado; ouvir choro do seu filho; filho batendo na porta; (…)

Assim, diante de tamanha lista, mesmo com tesão, pode acontecer uma brochadinha masculina ou feminina.

3. “Que bom que as pessoas têm língua e dedo”, escreveu Hilda Hist. Mas, quando o pau deixa o cara na mão, a transa simplesmente costuma acabar. O que justifica esse comportamento quase padrão, hein?

A cultura machista, as imposições da sociedade, o orgulho, o mundo falocêntrico, o desconhecimento do corpo e do desejo feminino, a falta de comunicação no campo sexual, tudo isso tende a depreciar uma pessoa que não consegue ficar excitado em determinado momento. O romance Brochadas se propõe e enfrentar tal questão de forma divertida, mas também séria e profunda.

4. Segundo uma pesquisa do Prosex (USP), 62% dos brasileiros admite ter dificuldade de manter uma ereção. Mesmo assim, o assunto é tabu até entre amigos íntimos numa mesa de bar. Se é tão comum, por que brochar ainda afeta a masculinidade dos caras?

Falar sobre brochadas é falar sobre as falhas, a incompletude, as limitações e sobre a realidade de inerente a todos nós. Em um mundo onde se “posta” e se “mostra” somente os melhores momentos, as pessoas imaginam que a vida do ‘outro’ é sempre perfeita e feliz, o que não é definitivamente verdade. Assim, discutir sobre esse tabu, expõe, desvela e revela uma fragilidade e humanidade que as pessoas querem esconder. É bem duro (ou bem mole) aceitar e expor nossas inúmeras falhas e brochadas.

5. O medo do desempenho tem feito com que jovens sem nenhum problema de saúde engulam Viagra e similares antes daquele encontro que promete. A indústria farmacêutica criou ainda mais neuróticos?

Acho que o fato que leva os homens a engolir descontroladamente os comprimidos azuis é a falta de conhecimento do desejo feminino. Os homens imaginam que devem transar por horas e horas a fio para satisfazer a mulher e comprovar sua virilidade. Se os casais conversassem, se o assunto fosse colocado na mesa, se romances fossem escritos (como o Brochadas) discutindo melhor o tema, acho que as coisas seriam mais tranquilas.

6. Quando nós, mulheres, brochamos… podemos fingir se quisermos evitar maiores constrangimentos. E vocês, na maioria das vezes, sequer percebem. Acha que os homens não ligam para as brochadas femininas ou não se preocupam porque sequer têm ideia de que isso acontece com a gente também?

Há, sim, uma falta de sensibilidade e de conhecimento por parte dos homens. Eles estão sempre tão ‘ocupados’ e ‘preocupados’ em performar (para eles próprios) que esquecem da parceira. O Brochadas tem uma parte e uma voz feminina muito forte, que quer chamar a atenção para a posição e os desejos esquecidos historicamente das mulheres. No início, uma das personagens fala exatamente isso: “Nós, mulheres, muitas vezes dissecadas, pesquisadas e endemoniadas, contamos com a maravilhosa possibilidade literária do fingimento. Sim, somos as verdadeiras e únicas poetas possíveis. Possuímos o estupendo dom de fingir completamente a dor que, de fato, sentimos. Podemos sentir (e simular) muito mais prazer. Como escreveu Hilda Hist, talvez sobre algumas de nossas pequenas vantagens: “uma vagina em repouso tem por si só vida, pulsão, cor. Já um caralho em repouso é um verme morto”. (…) Nessa história ou Ilíada das brochadas que você propõe, podemos narrar vários acontecimentos sobre vocês, homens, e outros que nem sonham. Eu, por exemplo, lembro-me de várias vezes que transei sem sentir nenhum tesão, apenas pensando na vida que acontecia… Tudo passa na nossa cabeça quando não estamos excitadas. E vocês lá, se esforçando, suando e não podendo se descuidar – qualquer distração é brochada na certa!” Dessa forma, o livro deseja resgatar, e da voz, às mulheres, para que provocar (excitar e incitar) leitores e leitoras!

7. Você deixa claro o tempo todo que o livro mistura suas histórias reais com boas doses de ficção/imaginação. Parece que até o autor (no caso, você) teme se expor publicamente, sem floreios, sobre os episódios em que o pau não colaborou. Faz sentido?

O Brochadas é um livro de ficção. Um romance. Uma obra literária. Ele tem como objetivo discutir as várias acepções do termo ‘brochar’, além de trabalhar a questão do ponto de vista masculino e feminino. O livro ainda discute o problema contemporâneo da ‘autoficção’, do trauma e também da memória. Há uma grande preocupação com a estética, com as palavras, com a sonoridade e com as diversas referências literárias. Existe um diálogo com as obras e autores canônicos – Marcel Proust, James Joyce, Michel Foucault, Georges Bataille, Hilda Hilst, Carlos Drummond, entre outros. Assim, apesar veracidade da obra, não há compromisso nenhum com a ‘realidade’, e sim com a arte. Com a nobre arte da escrita, das invenções, das criações e das nossas muitas brochadas!

George Best e sua brochada

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Gastei boa parte do meu dinheiro em mulheres,

bebida e carros esportivos, o resto eu desperdicei.

Fontes fidedignas me contaram esta história. Afirmaram, categoricamente, que tudo não se passava de uma grande invenção do jogador irlandês George Best. Incorro, porém, no gigantesco erro de tentar transformar mera ficção em doce realidade. E isso não é a função da Literatura?

Disseram-me que tudo aconteceu num dia qualquer. Numa partida de futebol ou numa praça em algum lugar desse assombroso mundo. Mas, quem é que se importa de verdade com a realidade? Talvez somente os escritores e sonhadores. Por isso, transcrevo a verdadeira dor desse jogador.

“J. apareceu assim, como imagens em sonhos, um pouco fora de foco. Desconfiei dos meus olhos. Desconfiei do vazio do meu coração. Seu sorriso me perturbava. Provocava-me a sua beleza ainda não descoberta. Inflamavam-me sentimentos de dúvidas, incertezas e encantos a serem descobertos.

Logo depois da primeira mirada, procurei-a no meio da multidão. Não era capaz de reconhecer seus olhos. A memória traía meus sentimentos. Seria ela especial? Algumas horas se passaram até reencontrá-la. Primeiro encanto. Encanto que despertou o brilho do meu olhar. Brilhamos juntos. A neblina dos meus olhos transformava-se em nitidez.

E o dia passou. Outro dia chegou. Outra partida qualquer. Inesperada aparição. Cantarolava uma canção. Sua voz era uma canção. Nitidez. Lembrança. Sentimentos desgelando. Dançamos em outro lugar. Meu olhar não parava de persegui-la. Perscrutava seu corpo. Invadia sua mente. Sonhava seus sonhos. Tudo velado. Inventado. Sonhado. Joguei como nunca.

E o dia chegou. Final. Coração disparado. Literatura. Paixão. Minha paixão. J., minha única interlocutora. Expectadora. Fã. Mundo parado. Ansiedade. Ausência. Medo da sua descrença. Da sua partida. Mas J. chegou. Reluzente. Esvoaçante. Encantadora. Encantada. Fabulada. Fabulosa. Fábula. E todos meus gols seriam para ela. Só para ela. E assim foi.

Mas J. era silêncio. J. era labiríntica. J. era perversão. Procurei-a. Não encontrei nada além de rejeição. Dor. Escapei. Fugi. Resolvi esquecer. Desencantar. Voltar deliberadamente à solidão dos que estão acompanhados. Sem amor. Bebidas! Muitas bebidas. Sarjeta.

Mas ela me procurou novamente. Sem muita razão. Sem muito motivo. Tentando fugir da sua solidão. Seria ela capaz de vencer seu Pai? Edipiana? Relações incestuosas? Eu, o incesto? E ela mudou de foco. De objetivo. E reconquistou meu encanto. O Encanto. Voltei a jogar.

E num dia inventado qualquer. De um tempo sem tempo. De um lugar encantado. Algo aconteceu. “Não sei”, virou “Sim, eu quero”. “Eu posso”. “Eu sinto”. Demasiadamente humana e feliz. Rememoro seu gosto. Seu perfume. O beijo. O Beijo.  Klimt. Nossos corpos viraram um. Gol. Pintura. Cores. Beleza. Encanto. E o banco. Ainda não vazio. Ainda sem sonhos. Brilhou. Brilhamos. A Lua. O rio. Eu e J. O futuro incerto, mas mais provável. Carinhos. Carícias. Calores. O seu cheiro. O seu gosto. Suas palavras. Entranhas. Gozo. Vulcão de sensações e desejos. Aproveitei o momento. As nossas mãos enlaçadas. Não há nada como fazer gols!

O dia seguinte amanheceu enfeitado. Enfeitado com meu sorriso. Com minha alegria. Com o perfume de J. Gols, gozos e lembranças. Treino e mundo sem graça; sem ela. A paixão aflorando no meu corpo e na minha alma. Versos. Votos de amor. Nomes belos. Nomes feios. E um beijo roubado. O encontro repetido. Revivido. Revisitado em novos e fascinantes sabores.

Seu corpo. Meu corpo. Encontro. Encontro! O Encontro! Coitos. Carne. Pele. Gozo. Gosto do seu sexo na minha boca. A boca que mastigava e gritava palavras agora fascinava a vulva. Retorcia seu canto. Muito carinho. Muito do meu amor. Muito da minha paixão. Pequenas mortes. Pequenas e eternizadas mortes. Eu poderia prosseguir? Só, e somente só, com seu corpo e sua alma caminhando ao meu lado. Dormimos. Sustentável leveza do ser. O meu ser finalmente leve. Livre. Belo. Beleza. Leveza. Seu corpo era quente. Quente como meus sonhos. Meus pensamentos. Minha imaginação.

O dia amanheceu sem eternizar o orgasmo. Escolhi J., com todas suas belezas e imperfeições poéticas. Mas J. revivia seus monstros. Fantasmas povoavam sua mente estranha. Meu sexo lembrava o sexo de outro? Meu amor lembrava o desencontro com outro? Podia ela suportar a perfeição do meu desejo? Da minha escolha? Da minha certeza? Não. Definitivamente não.

J. retrocedeu. J. se absteve. J. se desencontrou. J. recriou pecados. Pesadelos. O meu falo não a preenchia. Ela era de outro. De outros tempos. Outros momentos. Outras dores. E eu queria acessá-la. Eu queria dizê-la que corpos não se encontram todo dia. Que almas só se encontram em momentos especiais. Talvez únicos. E esse tinha sido um desses poucos momentos. Um desses únicos encontros errantes. E que minha alma seria só dela. Só para ela. E meu corpo não saberia jogar outros jogos senão com ela. Para ela. Por ela.

Mas J. não me entendeu. J. não se entendeu. Partiu. E minha carreira, assim como minha vida, despedaçou.”

E diz que foi por isso. Só por isso. Por mais uma paixão desencontrada que George se perdeu. Brochou. Ele foi o talento que não vingou. A alegria que não contagiou. O gol que não fez. E assim se dedicou ao que de fato importa nessa vida inventada: mulheres, bebidas e carros. Já o amor… seu grande amor… o verdadeiro amor… George, assim como eu, desperdiçou.