Coluna Skoob

COLUNA SKOOB – Alice: aventuras através do espelho, da imaginação e da matemática

 

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Em 2015 comemoramos 150 anos da publicação de Alice no País das Maravilhas! Um marco. Uma alegria. Uma celebração à grande literatura! Se hoje em dia pensamos cada vez mais nos limites e nas possibilidades de se fazer literatura; e também no que se pode falar (e o que se deve calar, ou não…), Alice emerge diariamente para abalar nossas estruturas, nossas crenças, nossa razão, nossa moral e nossa lógica. Alice desconstrói, desfigura, transmuta, transtorna. Alice é a nossa lolita eterna. Nosso infindável desejo. Nossa pulsão pelo gozo inacessível. Alice precisa ser reescrita diariamente.

Ler Alice é se entregar aos mistérios e ao estranhamento da lógica. É não entender, e mesmo assim se admirar. É debochar dessa lógica tradicional de sentidos e sensações que estamos totalmente acostumados e inseridos. Ela, a perpétua e perversa menina, nos convida a experimentar o desejo e a repulsa pela compreensão de um mundo que não parece ser nosso. Um mundo do inconsciente, da inatingível busca pelo crescimento, da ilusória inserção, da quimérica assimilação. Alice, nunca esqueçamos, é uma estrangeira no espelho e nas maravilhas desse incrédulo país. Ela, sempre inconformada, metamorfoseia-se constantemente buscando seu lugar nesse universo completamente improvável mas, talvez, muito mais possível, plausível e humano que o nosso.

Eu leio Alice e sempre me encanto. Encanto-me com poder ingênuo e inventivo de uma suposta percepção da simplicidade. Essa menina é simples, mas também é densa, complexa, sensual. Ela desperta desejos recalcados, provoca o inconsciente, incita e instiga o leitor. Eu quero saber mais sobre essa menina-mulher-lolita que exala certezas e dúvidas, que liberta os sentidos, que não reprime a fantasia. Eu preciso saber mais sobre esse personagem leviano e maravilhoso, fascinante e impiedoso, obsceno e também extremamente fantástico. Eu quero me tornar Alice. Eu quero possuir suas letras, suas palavras, sua textura. Eu quero, mas não posso.

Ler Alice dá tesão! Um tesão insano e literário. Uma vontade angustiante de escrever um livro com toda essa potência e com todo esse pecado. Um livro que possa perpetrar e desvirtuar inúmeras e infinitas leituras. Um livro leve, rápido, exato, (in)visível, múltiplo e consistente em suas inconsistências (Ítalo Calvino iria adorar). Eu preciso reescrever Alice. Roubar sua lógica, seu deslumbramento, seu fascínio. Eu quero me tornar o espelho do espelho, o estrangeiro do estrangeiro, o menino ingênuo e indefeso diante da monumental e esplêndida criação artística. É tudo isso (e também nada disso) que Alice propõe. É tudo isso que almejo, que ambiciono, que persigo. E é tudo isso que nunca, autor nenhum, literatura nenhuma irá atingir. Não conseguiremos jamais entender esse livro. E nem reescrevê-lo. Esse livro já foi legitimado pela passagem tensa do tempo, pelas diversas e contraditórias culturas, pelas falaciosas e improváveis leituras, pela fútil e despedaçada justiça. Amém! Vida longa à grande literatura. Vida longa à Alice!

(Semana que vem (19 de agosto na Travessa Leblon, e 20 de agosto na Livraria da Vila da Fradique, ambos de 19:00-22:00) lanço finalmente meu novo e polêmico livro. Brochadas. Vou falar sobre tabu e censura!).

Seria essa a verdadeira dor?

Um livro. Um livro de memórias. Um livro de memórias traumáticas e terríveis. Um livro para mudar de vez a compreensão acerca do mundo, do ser humano, da História e de toda literatura. É isto um homem? descreve a dor, o espanto e o sofrimento de toda uma geração, de toda uma raça, de toda a suposta racionalidade humana. Primo Levi, então doutor em Química, é levado ao inferno de Auschwitz e por lá permanece onze meses. Período que muda sua vida e todo seu entendimento humano. Período que é narrado dolorosa e lucidamente nesse livro fundador da literatura de testemunho.

Testemunho, sob um viés, é o ato de escrever sobre os seus próprios momentos e as próprias lembranças. E isso não é tarefa fácil. Muito pelo contrário. A memória é enganosa, falaciosa e cheia de lacunas. E por ser extremamente limitada, é necessário tomar muitos cuidados. Cuidados para não se perder e nem para cair no lugar comum. E nem se esquecer de que está fazendo literatura de qualidade. Primo Levi sabe disso muito bem, e consegue escrever uma das mais belas obras sobre o sofrimento, sobre a memória e sobre a Shoah.

Nessa busca pelas lembranças dessa geração perdida; geração que entendeu que não haveria sentido algum em fazer poesia e beleza, Levi relata e medita sobre seu passado e sobre essas memórias coletivas. Mas ele não sabe como reconstruí-las. (Alguém, algum dia, saberá?) Como recriar algo que de fato ‘falta’. Algo que está inteiramente perdido. Algo que se busca constantemente, mas que se encontra tão recalcado e escondido que talvez nem apareça em pesadelos. Mas ele sabe também que, embora tudo isso permaneça subterrâneo e obscuro, sempre insiste em emergir como chagas e feridas tatuadas no corpo, na alma e em toda cultura humana. (Será que foram essas terríveis aflições revisitadas e resimbolizadas que o levaram a escolher sua morte em 1987?)

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Primo Levi, nesse brilhante livro, reflete sobre as limitações das palavras para expressar os sofrimentos e os assombros pelos quais passou nos campos da morte. Ele sabe, e sente, que recordar é sofrer novamente. É perscrutar inutilmente pela compreensão de algo ininteligível, apesar de extremamente racional, humano e verídico. É ter consciência que a vida, a História, a memória e a Shoah são coisas indecifráveis que ele, e todos nós, vivemos. Vivemos e enfrentamos diariamente.

É isto um homem? mostra, e prova, um pouco de todo o absurdo humano. Uma minúcia de toda capacidade de fazer e inventar o mal. Uma ninharia do que o homem (isto mesmo?) é capaz de conceber diariamente. Eu leio e releio esse livro com lágrimas nos olhos… e um certo ódio no coração. Eu me emociono com as palavras, com a sensibilidade, com a autoanálise do autor… e fico espantado de saber como algo assim foi capaz de ocorrer. Depois me lembro, ainda mais surpreso e angustiado, que, guardadas as devidas proporções (a Shoah foi um marco e um evento único), coisas assim acontecem e acontecerão enquanto existir o ser humano. Sim, Primo Levi, é isto mesmo que é o homem.

(Sem mais, semana que vem falo sobre Alice, em homenagem aos seus 150 anos).

Rua Labat Rua Ordener: quando as palavras não salvam

Eu sempre imaginei que as palavras salvariam. Sempre imaginei que o processo analítico de falar, juntamente com a escrita, poderia socorrer qualquer um, ou pelo menos aliviar o sofrimento que existe necessariamente na vida. Estava completamente enganado.

Estava morando nos EUA e fazia meus pós-doutorado em Harvard! Um lugar lindo, encantador e repleto de conhecimento (confesso, somente aqui, que eu definitivamente era o mais burro daquela universidade… mas, talvez, o mais empolgado!). Assisti uma disciplina sobre a participação francesa na Segunda Guerra e como eles vêm enfrentando o problema da memória e da culpa (a França é terrível: nunca assumiu a colaboração com o governo nazista. Resolveram recalcar essa parte da memória. Não é de se estranhar que hoje exista uma ascensão gigantesca do antissemitismo por lá). Foi então que li Rua Labat Rua Ordener pela primeira vez. Meu mundo desabou.

Meu Antiterapias já tinha sido premiado e meu novo livro Brochadas já tinha sido vendido para Rocco. Já me considerava um escritor (na verdade ainda ando repleto de dúvidas, mas preciso eventualmente preencher alguns formulários. Uso, depois do Prêmio, ‘escritor’ como profissão). E eu imaginava que a literatura me salvaria. Que ao falar das minhas memórias, das minhas questões judaicas, das minhas frivolidades e mesquinharias eu poderia me entender melhor e finalmente me salvar. Também imaginava que escrever um livro sobre brochadas me curaria dessa praga! Amém! Infelizmente tudo isso desmoronou ao ler o livro de Sarah Kofman.

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Sarah Kofman foi uma filósofa que escreveu duas dezenas de livros sobre diversos temas acadêmicos. Era considerada uma das mais importantes pesquisadoras na obra de Nietzsche. Falou sobre estética, psicanálise, arte. Releu e trouxe novas interpretações para os clássicos gregos. Foi professora na França, na prestigiosa École Normale Supérieure e em Sorbonne. Passou um período em Harvard. Era uma pessoa de difícil trato, que não gostava de ser tocada e nem de carinhos e elogios, e que vivia sempre regurgitando e com problemas estomacais. Tinha intensos problemas com suas memórias. O mundo desconhecia sua terrível história.

E num angustiante dia ela resolve escrever Rua Labat Rua Ordener e finalmente acaba contando sua vida. Ressalta que toda sua majestosa obra acadêmica teria sido somente uma preparação para escrita desse livro. Um livreto de pouco mais que oitenta páginas. Ela então conta ‘tudo’. Tudo que já tinha tentado contar (ou esquecer) antes. Conta que durante a Guerra sua mãe a escondeu na casa de uma mãe católica. Uma mãe católica que não gostava de judeus e queria limpá-la da praga do judaísmo. Ela, Sarah, era filha de um rabino, e por serem religiosos tinham uma alimentação especial. A mãe católica, com seus ódios e suas limitações, obrigava a pequena Sarah a comer coisas proibidas. Ela vivia em constante dor e relutava em aceitar essa vida imposta pelo Deus que tanto rezava. Foi aí que ela começou a regurgitar. Ela vomitava diariamente a vida que insistia e parecer real. Mas elas, ‘mãe’ e ‘filha’ acabaram gostando uma da outra. Afinal, Memé (a mãe católica) estava ‘salvando’ Sarah dos Campos de Extermínio.

Mas sua mãe judia ainda estava viva e escondida. Ambas podiam se encontrar secretamente. Porém esse encontro era muito pesado. Muito cheio de dor. Repleto de lembranças do Pai, que havia sido levado pelos colaboracionistas franceses aos nazistas e queimado nos fornos de Auschwitz. Sarah vivia um conflito de emoções, de sentimentos e de dores pela presença dessas duas mães. Dessas duas casas: uma na Rua Labat e outra na Rua Ordener. O tempo passou, cheio de pavor e pânico e ela surpreendentemente conseguiu ‘sobreviver’.

Ao fim da Guerra sua mãe judia veio lhe buscar, mas ela e Memé já estavam ligadas sentimentalmente talvez por culpa. Memé, não querendo largar da perversão por Sarah, resolve entrar com um processo pela sua guarda. O juiz (colaboracionista?) concede. Mas a mãe judia decide não respeitar a lei desse país que entregou voluntariamente milhares e milhares de crianças às fornalhas de Auschwitz. Sarah foi sequestrada pela própria mãe e acabou vivendo uma vida de entre mundos.

O livro segue contando as terríveis memórias de Sarah. Você se lamenta por ela. Você lamenta pela História. Você sofre uma outra dor, se ilude, e transforma o Holocausto em algo compreensível, apesar de assombroso e absurdo (mas isso é um erro. Ninguém, nunca, poderá saber o que foi aquilo. Mesmo assim precisamos continuar falando e lembrando para que não se repita). Chegando ao fim do livro, você acha que compreende Sarah, mas se surpreende com o desfecho de sua vida.

Meses depois de publicar esse livro e reavivar suas lembranças, Sarah se suicida. Seria esse o único caminho a seguir? Em algum momento, em algum dia, em algum instante Sarah realmente foi salva? Apesar de ter ‘sobrevivido’, realizado grandes feitos, escrito e perpetuado palavras e livros, ela nunca conseguiu superar seus momentos. Eu me pergunto com muita tristeza: será que existiu, de fato, algum sobrevivente do Holocausto? Rezo. Escrevo. Sonho. Mas duvido.

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/90p4Nn

A vida modo de usar e outras enganações

! G Perec

 

Uma vez mais, fui como uma criança que brinca de esconde-esconde

e que não sabe o que teme ou deseja mais: 

permanecer escondida, ser descoberta.

Georges Perec

Eu nunca tinha ouvido falar de Georges Perec até fazer uma disciplina eletiva no doutorado em Letras. Estava fazendo um curso sobre ‘Escritas Híbridas’ e parte d’A vida modo de usar caiu em minhas mãos. Não entendi nada. Nadinha de nada. Até achei que seria um livro de autoajuda fornecendo-me indicações e recomendações de como usar (ou manusear) minha própria vida. Vida essa que, naquele momento (como em todos), se encontrava completamente confusa. Mas o estranhamento, o mal-estar, o desconforto que o livro causou me motivou a continuar lendo e relendo as famigeradas páginas. Eu tentava descobrir, revelar e desvendar todos os mistérios do puzzle que Perec ofertava. Assim, depois de uma grande labuta, um caminho de sonhos e de novas possibilidades literárias se abriu. Fiquei fascinado. Encantado. Iludido com uma nova literatura improvável, mas ao mesmo tempo maravilhosa. E esse brave new world nunca mais se fechou. E me formou definitivamente escritor.

Perec foi membro do OULIPO, um grupo que brincava com ideias e estruturas matemáticas diversas e as utilizavam na composição de seus livros. Parece complicado e limitante. E poderia até espantar alguém. Mas não é. Garanto! Um novo universo se abre. Um universo expandido de novos e esplendorosos conhecimentos humanos. A matemática funciona aqui como o desejo de se buscar mais explicações, mais belezas, mais profundidade na já fantástica e perturbadora mãe de todas as ciências e sentimentos: a Literatura.

A vida modo de usar começa com um Preâmbulo perturbador: o narrador supostamente compara uma obra literária a quebra-cabeças.  “Podemos deduzir algo que é, sem dúvida, a verdade última do puzzle: apesar das aparências, não é um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzle, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro”. Seria possível o escritor imaginar todas as possibilidades de leitura e intepretações de seus leitores? Seria possível controlar a recepção de sua obra? De suas palavras? Seria plausível controlar a vida?

A vida pregou peças em Perec. Sua mãe morreu em Auschwitz e seu pai no front de guerra. Ele viveu só, angustiado e saudoso buscando alguma memória do pouco convívio teve com sua família. A contingência da História o fez brincar com o controle matemático na literatura. Ele, então, buscando as inacessíveis ‘certezas’ escreve La Disparition, um livro com trezentas e tantas páginas que nunca aparece a letra ‘e’, a mais frequente no francês. Loucura? Insanidade? Projeto impossível. Não sei. Não tente fazer isso em casa. E qual seria o motivo? Ele dizia que, ao se ver privado pelos nazistas do convívio com as pessoas mais importantes do mundo, ele também teria que ser capaz de escrever um livro sem a letra mais importante do alfabeto. Também escreve Palindrome, um livreto com cinco mil palavras que foi parar no Guiness Book já que poderia ser lido de trás para frente (com ‘ana’, mas um livro inteiro), e ainda sim permanece sendo o mesmo livro. Fantástico? Tentativa absurda de controlar o incontrolável? Surge, finalmente, o A vida modo de usar: em cada capítulo Perec se obriga a usar quarenta e duas regras distintas e lógicas. Aparecem inúmeras citações, referências a países diversos, personagens que sentados, em pé, de lado, segurando algo, etc… centenas de tabelas foram confeccionadas para compor esse livro (Se quiser saber mais, basta baixar o meu livro Literatura e Matemática na Amazon!). Difícil, né? Mas vale a leitura. O livro é maravilhoso!

A questão principal, talvez, é que você não precisa saber nada de matemática ou das regras utilizadas para ler os livros do Perec. São bonitos, delicados, profundos, sublimes (ou não, vai depender de cada um com é geralmente). Mas, se você é capaz de desvendar os mistérios, de saber das ‘leis’ que regem cada capítulo, cada linha, cada pensamento, o livro se torna mais mágico. Mais fabuloso. Mais empolgante! O poder inventivo da mente! A cada nova leitura, a cada nova resenha, a cada novo comentário alguém descobre (ou inventa) algo diferente. E, além das leituras de cada um (que são infinitas), as possibilidades lógicas que Perec apresenta abrem sempre novos caminhos.

Eu continuo me encantando diariamente com Perec… e por mais que estude, que trabalhe, que leia tudo relacionado ao seu projeto, mais eu fico sem saber. Mais e mais eu desconheço sua mágica… mais e mais eu me curvo diante da grandiosidade da nossa adorada literatura! (Semana que vem falo do livro Rua Labat Rua Ordener, de Sarah Kofman, um livro que me levou às lágrimas, que me fez enxergar finalmente que as palavras, por mais belas, matemáticas e profundas, não salvam e nunca salvarão ninguém).

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/NhqkgC