Ficções

Coluna 1 do Skoob

Caro leitor, muito prazer. Este é o primeiro de muitos textos que me proponho, humildemente, a escrever todas as quartas-feiras aqui na página do Skoob sobre os livros que muito me marcaram, que ainda me tocam e que continuarão a me acompanhar pela minha jornada. Na próxima semana, convido-os a ler e discutir sobre Ficções, do escritor argentino Jorge Luis Borges. Antes, porém, permita-me uma apresentação breve em um conto inédito que narra um pouco da minha história e exemplifica a ficção que escrevo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

SC São Paulo (SP) 23/12/2013. Escritor Jacques Fux. Foto Marcos Alves / Agencia O Globo.

Outras memórias

Kafka, esse sonhador que não quis que seus sonhos fossem conhecidos,
agora é parte desse sonho universal que é a memória.
Jorge Luis Borges

Remembering the past is a form of time travel;
it frees us from the constraints of time and space
and allow us to move freely along completely different dimensions.
Eric Kandel

Aos cinco anos de idade ouvi, pela primeira vez, a famigerada, célebre e roseana palavra “doutor” (na verdade deve ter sido “dôtô”). Meu tio cientista tinha acabado de defender seu doutorado na Inglaterra e aquilo trazia, de alguma forma, certo encanto e orgulho para minha família. Foi nesse mesmo instante, contagiado pela beleza do momento, que decidi me tornar um desses “doutores”. Repetir, recriar e engrandecer o legado de meu tio.

Seria doutor. Seria pesquisador, cientista, descobridor, inventor… e também ficcionista! Viajaria errante por todo o mundo, assim como fizeram meus avós, bisavós e muitos dos meus antepassados. Eles, judeus, vagaram, fugiram, refugiaram-se em várias partes e em diversas épocas até serem acolhidos no Brasil, minha terra. Através da ciência, da tecnologia, da cultura e da poesia, eu imaginava percorrer novamente a Odisseia dos meus precursores, (re)inventando-os de uma forma pejorativa como Shylock de Shakespeare, Scrooge e Fagin de Dickens, ou fascinantes como nas vozes de Kafka, Freud, Agnon, Singer, Roth. Utópico, ingênuo, inocente e muito casto!

E diante de uma infinidade de caminhos e ficções, diante de uma babel de ilusões e quimeras, interessei-me por algumas áreas do conhecimento. Como tudo era poético, sedutor e sublime… Histórias e mais estórias… linguagens, invenções e mentiras… Vislumbrei, por algum tempo, tentar compreender um pouquinho dos segredos e dos mistérios do universo, até então criado em um Big Bang e eternamente em expansão. Física, Matemática e muita feitiçaria. Também, por gostar tanto dos livros (e por não entender absolutamente nada do que neles estava escritos), pude fingir-me poeta. Inventei-me como mais um dos muitos artistas que foge da dor e reelabora o que deveras sente e lembra… mas que também esquece. A verdade, ou o que agora, com o passar do tempo, construo, é que estava completamente perdido e aterrorizado.

E então cheguei a uma bifurcação no caminho. Qual caminho deveria escolher? Bom, dependeria muito de aonde eu gostaria de chegar. Mas eu sonhava em ser um doutor! Ah, sim, isso poderia acontecer, desde que eu caminhasse o suficiente (e tivesse muita sorte!). E assim, com um sorriso nos olhos, olhando todos os sertões e veredas, o mais longe que podia, para onde a estrada sumia entre os arbustos, escolhi os bosques maravilhosos e deslumbrantes das ciências exatas. Devaneava que Einstein, Feynman, Gell-Mann, Gödel, Erdös, Grothendieck, Cohen, Perelman me esperariam de braços abertos “among mad people”. Não poderia estar mais enganado. Apesar de gostar imensamente, eu não compartilhava nenhuma engenhosidade dessas mentes brilhantes (talvez somente a loucura, e nem ela era tão romântica como parecia).

Assim, por ser extremamente limitado e ordinário, não fechei os olhos para os outros caminhos e sonhos. Não deixei que os livros dessas ditas ciências duras flanassem a sós pelo campus universitário. Eles (les livres!) eram cordialmente acompanhados pelos protagonistas de outras maravilhosas vidas: Ahab, Bloom, Bartlebooth, Capitu, Dante, Édipo, Funes, Holden, Julieta, Lolita, Nemo, Quixote, Riobaldo, Raskolnikov,Virgílio, entre tantos. Junto aos meus novos personagens, eu, um medíocre flaneur percebi-me estrangeiro nessa terra de gigantes. Eu fugia desse universo exato vislumbrando (e falseando) mais cores e poesia. No eloquente rigor da linguagem científica, eu suspirava cantos, contos, encantos. Dessa forma dediquei-me de corpo e (sem) alma à matemática. Formei-me forasteiro nessa bela ciência. Amava, desamava e malamava os números e as inóspitas equações, mesmo sem compreendê-los. O único mistério é haver quem pense no mistério. E eu, com minha estropiada metafísica, pensava (demais) nos mistérios e nas desilusões que encarava diariamente.

Eu lia um pouco. E o que mais me atraía na literatura era o que não compreendia. O estranhamento, o mal estar, as referências literárias, fantásticas, cabalísticas, matemáticas. Os mundos mágicos dos autores, dos seus personagens e das suas incontáveis mentiras. Jorge Luis Borges me fascinava e, até então, não sabia que podia me dedicar profissionalmente a essa beleza. Fugi mais uma vez, e inventei uma tese que reagrupava veredas bifurcadas. Descobri outro autor (ou os livros dele me delataram) que também me incomodava, exasperava e aborrecia. Que dominou meu olhar e meu fascínio. Assim, resolvi brincar com a literatura de estrutura e rigor matemáticos de Georges Perec com a ficção fantástica e a utilização de conceitos abstratos matemáticos em Borges. Arrebatamento, fascínio, desilusão. Escrevi e muito fantasiei sobre esses desencontrados assuntos. Adorei! E me formei finalmente doutor.

Mas a realidade é sempre muito diferente. Eu me tornei um doutor insatisfeito. Descontente comigo, com minhas pesquisas, com minhas ideias, e com as picuinhas, pequenices e mesquinharias acadêmicas. Inconformado, perdido e medíocre. Mas querendo viver e gozar as dores e os deslumbramentos das letras e das ficções que me acompanhavam.

Fugi de novo, agora sonhando outro mundo, que não sei o que e como vai ser. O abobado doutor agora quer virar escritor. (E tem algo mais fantástico que isso?!) Um ingênuo escritor que insiste em recontar as reminiscências amputadas de seu percurso e de seu povo. Que insiste em se encantar com as palavras, com os sonhos, com as melancolias e amarguras apropriadas das memórias dos outros, que sabe que não aconteceram, e das suas próprias memórias, que tem certeza que são apenas fábulas. Um escritor inserido nas mesmas desilusões e maravilhas de qualquer sociedade. Um escritor que brinca, briga e romanceia a ciência e os vestígios… e que ainda busca a sua expressão… e o seu contentamento.

JACQUES FUX nasceu em Belo Horizonte em 1977. Com extenso currículo acadêmico, Jacques é graduado em matemática, mestre em ciência da computação, doutor e pós-doutor em literatura, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Tradição Planalto, 2011) recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras/Linguística do Brasil. Antiterapias (Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito do próximo livro, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Editora Rocco, 2015, prelo), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte.