Literatura e Matemática

A vida modo de usar e outras enganações

! G Perec

 

Uma vez mais, fui como uma criança que brinca de esconde-esconde

e que não sabe o que teme ou deseja mais: 

permanecer escondida, ser descoberta.

Georges Perec

Eu nunca tinha ouvido falar de Georges Perec até fazer uma disciplina eletiva no doutorado em Letras. Estava fazendo um curso sobre ‘Escritas Híbridas’ e parte d’A vida modo de usar caiu em minhas mãos. Não entendi nada. Nadinha de nada. Até achei que seria um livro de autoajuda fornecendo-me indicações e recomendações de como usar (ou manusear) minha própria vida. Vida essa que, naquele momento (como em todos), se encontrava completamente confusa. Mas o estranhamento, o mal-estar, o desconforto que o livro causou me motivou a continuar lendo e relendo as famigeradas páginas. Eu tentava descobrir, revelar e desvendar todos os mistérios do puzzle que Perec ofertava. Assim, depois de uma grande labuta, um caminho de sonhos e de novas possibilidades literárias se abriu. Fiquei fascinado. Encantado. Iludido com uma nova literatura improvável, mas ao mesmo tempo maravilhosa. E esse brave new world nunca mais se fechou. E me formou definitivamente escritor.

Perec foi membro do OULIPO, um grupo que brincava com ideias e estruturas matemáticas diversas e as utilizavam na composição de seus livros. Parece complicado e limitante. E poderia até espantar alguém. Mas não é. Garanto! Um novo universo se abre. Um universo expandido de novos e esplendorosos conhecimentos humanos. A matemática funciona aqui como o desejo de se buscar mais explicações, mais belezas, mais profundidade na já fantástica e perturbadora mãe de todas as ciências e sentimentos: a Literatura.

A vida modo de usar começa com um Preâmbulo perturbador: o narrador supostamente compara uma obra literária a quebra-cabeças.  “Podemos deduzir algo que é, sem dúvida, a verdade última do puzzle: apesar das aparências, não é um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzle, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro”. Seria possível o escritor imaginar todas as possibilidades de leitura e intepretações de seus leitores? Seria possível controlar a recepção de sua obra? De suas palavras? Seria plausível controlar a vida?

A vida pregou peças em Perec. Sua mãe morreu em Auschwitz e seu pai no front de guerra. Ele viveu só, angustiado e saudoso buscando alguma memória do pouco convívio teve com sua família. A contingência da História o fez brincar com o controle matemático na literatura. Ele, então, buscando as inacessíveis ‘certezas’ escreve La Disparition, um livro com trezentas e tantas páginas que nunca aparece a letra ‘e’, a mais frequente no francês. Loucura? Insanidade? Projeto impossível. Não sei. Não tente fazer isso em casa. E qual seria o motivo? Ele dizia que, ao se ver privado pelos nazistas do convívio com as pessoas mais importantes do mundo, ele também teria que ser capaz de escrever um livro sem a letra mais importante do alfabeto. Também escreve Palindrome, um livreto com cinco mil palavras que foi parar no Guiness Book já que poderia ser lido de trás para frente (com ‘ana’, mas um livro inteiro), e ainda sim permanece sendo o mesmo livro. Fantástico? Tentativa absurda de controlar o incontrolável? Surge, finalmente, o A vida modo de usar: em cada capítulo Perec se obriga a usar quarenta e duas regras distintas e lógicas. Aparecem inúmeras citações, referências a países diversos, personagens que sentados, em pé, de lado, segurando algo, etc… centenas de tabelas foram confeccionadas para compor esse livro (Se quiser saber mais, basta baixar o meu livro Literatura e Matemática na Amazon!). Difícil, né? Mas vale a leitura. O livro é maravilhoso!

A questão principal, talvez, é que você não precisa saber nada de matemática ou das regras utilizadas para ler os livros do Perec. São bonitos, delicados, profundos, sublimes (ou não, vai depender de cada um com é geralmente). Mas, se você é capaz de desvendar os mistérios, de saber das ‘leis’ que regem cada capítulo, cada linha, cada pensamento, o livro se torna mais mágico. Mais fabuloso. Mais empolgante! O poder inventivo da mente! A cada nova leitura, a cada nova resenha, a cada novo comentário alguém descobre (ou inventa) algo diferente. E, além das leituras de cada um (que são infinitas), as possibilidades lógicas que Perec apresenta abrem sempre novos caminhos.

Eu continuo me encantando diariamente com Perec… e por mais que estude, que trabalhe, que leia tudo relacionado ao seu projeto, mais eu fico sem saber. Mais e mais eu desconheço sua mágica… mais e mais eu me curvo diante da grandiosidade da nossa adorada literatura! (Semana que vem falo do livro Rua Labat Rua Ordener, de Sarah Kofman, um livro que me levou às lágrimas, que me fez enxergar finalmente que as palavras, por mais belas, matemáticas e profundas, não salvam e nunca salvarão ninguém).

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/NhqkgC