São Paulo Review

Brochadas: A Jewish blind date

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O primeiro encontro às escuras (que na verdade foi muito às claras!) está bem descrito nas páginas iniciais do livro inaugural. Adão, até então sozinho e incompleto, pede a Deus uma companheira para preencher seu próprio vazio no Paraíso. Deus, que também vivia eternamente isolado, embora fontes apócrifas discordem desse fato ao referenciar Lilith como a ex-mulher renegada do Divino, resolveu atender ao pedido primordial. Nunca saberemos se Eva passou por algum crivo, se foi avaliada e aprovada por alguma família, e se os amigos e parentes foram com a cara e as vergonhas dela. O que sabemos é que Adão conheceu Eva e teve que se encantar com ela no primeiro dos primeiros encontros que a humanidade, a literatura, e deidade conceberam. E como essa história rendeu frutos pecaminosos, herdeiros e muita ficção, podemos dizer que esse blind date foi um sucesso! Essa peripécia artística teatral moldou principalmente a sociedade judaica que, desde então, vem (des)unindo incontáveis almas cabalisticamente incompletas. E eu, membro fálico do pacto firmado entre Abraão e o Divino Matchmaker, não poderia ser diferente. Participei de muitos desses encontros às escuras.

Podemos perceber todos os dias como a sociedade evoluiu. Antes éramos macacos desnudos poligâmicos, segundo a ficção evolucionista não adotada aqui, e hoje, após um grande mal estar na cultura, nos tornamos seres relativamente capazes, parcialmente monogâmicos, livre de odores e fezes, buscando perpetuar e assegurar a longevidade do nosso gene através do folclórico casamento. Tudo mudou, exceto a forma judaica de lutar contra a assimilação: os encontros às escuras continuam a todo vapor, porém com o auxílio contemporâneo da tecnologia.

A network judaica é muito forte. Informações circulam constantemente entre mães histéricas, rabinos barbudos e velhotas desmemoriadas. Recentemente essa Rede detectou a minha solteirice. Após ter namorado anos com não judias, descobriram que estava disponível um macho alfa judeu. Recebi algumas indicações, recomendações, sugestões, declarações e intimações de diversas judias prontas para reprodução. Entrei em contato com várias, conheci muitas, relacionei-me por frações mínimas e copulatórias de tempo com algumas, mas que não foram um grande sucesso como o tal do encontro primordial bíblico. Estava quase desistindo de praticar essa antiga modalidade e com isso jogar por terra (como fazia Onam) a minha possibilidade de um casamento judeu, quando me indicaram uma carioca via Facebook.

Fiquei admirado com seu perfil. Magistrada com lindos olhos verdes, pele clara, corpo malhado e muitas histórias em comum. Assim como eu, ela tinha morado em Israel, participado de um movimento juvenil, tomado gosto pelas viagens desbravadoras e também tinha o sonho secreto de ter muitos descendentes judeuzinhos. Trocamos algumas mensagens virtuais, mas ela nunca esboçou grande empolgação em me conhecer. Explico: uma magistrada no Brasil, apesar de ser tão qualificada quanto muitos outros profissionais, recebe um salário que desmerece qualquer outra ocupação (exceto a dos políticos, corruptos e repugnantes) além de possuir poder e hierarquia social superiores. Eu, apesar de 100% judeu, resolvi me dedicar à arte, à literatura à contemplação da Beleza (resumindo: um grande vagabundo ao olhar utilitarista), coisa que atrai uma parcela muita pequena das mulheres. Porém, conhecendo todas as histórias e poemas de amor, não poderia deixar de tentar conquistá-la sem antes lutar titanicamente. Propus um encontro às claras que foi aceito sem muita exaltação.

Viajei. Viajei em todos os sentidos. Tive que tomar o avião em direção à sua cidade e imaginei idealmente o encontro. Os corpos e as almas, assim como os falaciosos emails, se encontrariam? Preencheríamos o nosso Éden com muitos descendentes melequentos judeus? Ela seria minha uma grande merchante de filhos e de arte? Marcamos o nosso rendez-vous em um barzinho boêmio do Rio de Janeiro. Repleto de pessoas, ninguém saberia que naquela mesa ocorreria mais um dos históricos e antigos encontros arranjados. Em busca da inspiração para minha poesia, cheguei ao local combinado. Ela, radiante com seu vestido verde, dava-me esperanças e prometia-me devaneios. Diante da possibilidade de deixar essa minha vida errante, errando e desperdiçando minhas muitas sementinhas, resolvi empenhar-me na tarefa masculina da conquista. Dispus todo meu arsenal poético, cultural e lúdico. Contei e cantei histórias, músicas, casos e acasos. Inventei e me convenci de encontros às escuras que deram certo e que prosperam por gerações e gerações até chegar naquela fatídica mesa de bar.

A magistrada mirava-me sem me admirar. Quando tinha uma oportunidade de voltar à vida real, contava-me sentenças e julgamentos realizados. Atrelava-se à praticidade e a utilidade de sua profissão. Atestava o valor e o lastro do dinheiro que poetas e sonhadores não possuíam. Tornava-se lentamente desinteressante, exceto pelos seus lindos olhos verdes e por sua desejosa bundinha. Os poetas, assim como os cegos, sabem ver na escuridão e imaginar as redondices drummondianas de sua divertida e saborosa nádega. Assim, sendo mais homem que poeta, mesmo sendo ela desinteressante e desinteressada, encantei-me com a possibilidade de possuir seu corpo adâmico.

Continuei tentando. A magistrada, após muito escutar, e com todo seu poder institucionalizado como renomada juíza e como mulher que escolhe se o primeiro encontro terminará na troca de líquidos, exclamou com muito desânimo: “Que legal. Você sabe um tanto de coisa inútil!”. Refleti bastante. Que declaração! Ela conseguiu resumir em algumas poucas palavras toda a questão artística, além de me eliminar de qualquer disputa pelo seu corpo e pelo seu coração. Resignei-me. Resignei-me em nome de todos os poetas, escritores, literatos e sonhadores. Recordei-me de Oscar Wilde: “all art is quite useless” e retomei a inutilidade das minhas palavras e ações.

Toda arte, inútil por definição, tem a função libertadora. A arte, diferente do direito aplicado, não tem que se atrelar à funcionalidade, à aplicabilidade e à defesa dos direitos fundamentais do cidadão. Não. A arte inútil visa o desenlace de tudo que nos prende e nos distancia da verdadeira contemplação e admiração pela Beleza. A Arte, diferente da vida, almeja a Idealização. A magistrada rica e repleta de utilidade buscava no encontro às escuras, não a complementação do seu eu, e sim o reflexo de sua imagem. Alguém que engrandecesse suas conquistas. Eu, poeta, buscava às escuras a minha imagem refletida nos lindos olhos verdes da judia. Não nos encontramos. Perpetuamos mais uma das muitas histórias fracassadas de amor. Desencontramo-nos às claras no sonho das almas às escuras. Ambos, cegos, não estávamos dispostos a nos complementar. Só agora percebo que o pragmatismo da magistrada precisava da liberdade artística e somente agora também entendo que a arte liberta, mas que não pode viver só.

Mais um dos muitos Jewish blind dates se realizou. Mais um dos muitos desencontros da vida. Mais uma história apócrifa dos casais que não se uniram. Se o primeiro encontro às escuras da humanidade, apadrinhado pelo Divino Matchmaker, foi um sucesso, o último, tendo eu como figurante e apadrinhado pela mulher do rabino, não teve êxito algum. Acho que vou recorrer à praticidade jurídica exigindo meus direitos como sonhador, poeta e judeu.

*Publicado originalmente no saopauloreview.com.br

Holocausto, Auschwitz ou Shoah?

Jacques Fux

Universidade Harvard / FAPESP Unicamp

Em 20 de Janeiro de 1942 aconteceu a Conferência de Wannsee. Liderada por Reinhard Heydrich, e com a presença do alto escalão do partido nazista, entre eles Adolf Eichmann, os participantes resolveram exterminar onze milhões de pessoas. Essa resolução ficaria sendo conhecida como a “Solução Final da questão judaica europeia”.

Os eficientes burocratas, entretanto, ainda teriam que definir algumas regras e classificações de quem se enquadraria nessa condenação. Resolveu-se que quem possuísse ao menos um avô ou avó de origem judaica seria caçado e ‘removido’ para os Campos de Concentração e Extermínio. Mesmo aqueles que estavam completamente assimilados à cultura alemã e que não se sentiam mais judeus, por exemplo, se enquadrariam na classificação. Gershom Scholem, um dos maiores estudiosos do misticismo judaico, narrou a incredulidade de muitos judeus alemães que se sentiram ultrajados ao serem levados de suas casas pois se achavam mais ‘alemães’ que os próprios perpetradores. Foi neste momento que o judeu percebeu que, mesmo estando completamente assimilado a outra cultura ou crença, seria sempre visto como diferente e estrangeiro.

Os eventos seguintes a essa conferência, apesar das nossas reais limitações em entendê-los, produziram uma das maiores catástrofes (talvez a maior) que a humanidade já conheceu. Essa indústria ou máquina da morte, que resultou na quase total destruição dos judeus da Europa, posteriormente recebeu alguns nomes: Holocausto, Shoah, Auschwitz, entre outros.

Uma das primeiras pessoas a usar o termo Holocausto para designar o aniquilamento das comunidades europeias durante a Segunda Guerra foi o escritor e prêmio Nobel Elie Wiesel. Sobrevivente, Wiesel perseguiu durante toda sua vida (e ainda persegue) uma forma de tentar descrever as atrocidades desse período. “Guerra, tragédia, destruição: essas palavras não me convinham e eu procurava uma outra. Nesta  época, eu estudava o sacrifício de Isaac e encontrei no texto o termo holocausto, em hebraico “ola”, que significa oferenda pelo fogo. Ele ressoava com tonalidade diferente, implicava um aspecto místico”. Assim o escritor passou a usar o termo Holocausto durante um período de sua vida

Posteriormente, o próprio escritor deixou de usar esse termo e preferiu criar outro: Événement ou Reino da Noite. Um estudo mais aprofundado sobre o termo revelou um sentido de ‘oferenda’ e de ‘sacrifício ritual’. Assim como, segundo a concepção católica, Cristo teria se sacrificado para expiar os pecados da humanidade, alguns estudiosos acreditam que o emprego conotativo do termo Holocausto poderia sugerir uma forma de sacrifício, de ‘dar-se em Holocausto’ para expiação de algum pecado, o que não poderia e deveria ser empregado neste caso.

O termo Shoah, encontrado no Deuteronômio, e que pode significar devastação, aniquilamento e destruição sem explicação, é o termo mais utilizado principalmente na França. A própria intraduzibilidade do termo Shoah ajudaria a tentar entender o que se passou durante a Solução Final. Um dos mais importantes filmes sobre o tema, produzido pelo diretor francês Claude Lazmann, e recém-lançado no Brasil, leva o nome de Shoah, contribuindo para a difusão do termo.

A cidade de Oswiecim, na Polônia, conhecida como Auschwitz, abrigou a maior indústria da morte até então conhecida. O gigantesco complexo de Auschwitz abrigava, simplificadamente, um Campo de Prisioneiros (Auschwitz I), um Campo de Extermínio (Auschwitz II – Birkenau) e um Campo de Concentração (Auschwitz III), próximo às indústrias alemãs que utilizavam trabalho escravo, como a Siemens e a Krupp.

Talvez o Campo de Extermínio Treblinka tenha sido mais eficiente que o complexo de Auschwitz, se olharmos para os números e o tempo que ficou em funcionamento. Entretanto, houve uma fuga de alguns prisioneiros em Treblinka e os alemães resolveram destruir todas as evidências do lugar. O local hoje não possui quase nenhum registro do que aconteceu e sobreviventes que puderam testemunhar foram muito poucos. Auschwitz, por sua vez, pode ser visitado e a estrutura do campo ainda se encontra quase intacta. Além disso, muitos sobreviventes puderam dar seu testemunho.

Assim, portanto, talvez o melhor termo para tentar denominar os acontecimentos posteriores à Conferência de Wannsee seja Shoah. Holocausto, muitas vezes, pode adquirir uma conotação negativa ao entendê-lo como sacrifício. Auschwitz, por sua vez, nomeia somente um dos lugares, terrível, mas que não abarca toda complexidade da solução final. Shoah, difícil de escrever, difícil de traduzir, difícil de expressar, talvez represente esse murmúrio e lamento que infelizmente o mundo conheceu.

*Texto publicado originalmente no São Paulo Review sobre Holocausto