Sarah Kofman

Rua Labat Rua Ordener: quando as palavras não salvam

Eu sempre imaginei que as palavras salvariam. Sempre imaginei que o processo analítico de falar, juntamente com a escrita, poderia socorrer qualquer um, ou pelo menos aliviar o sofrimento que existe necessariamente na vida. Estava completamente enganado.

Estava morando nos EUA e fazia meus pós-doutorado em Harvard! Um lugar lindo, encantador e repleto de conhecimento (confesso, somente aqui, que eu definitivamente era o mais burro daquela universidade… mas, talvez, o mais empolgado!). Assisti uma disciplina sobre a participação francesa na Segunda Guerra e como eles vêm enfrentando o problema da memória e da culpa (a França é terrível: nunca assumiu a colaboração com o governo nazista. Resolveram recalcar essa parte da memória. Não é de se estranhar que hoje exista uma ascensão gigantesca do antissemitismo por lá). Foi então que li Rua Labat Rua Ordener pela primeira vez. Meu mundo desabou.

Meu Antiterapias já tinha sido premiado e meu novo livro Brochadas já tinha sido vendido para Rocco. Já me considerava um escritor (na verdade ainda ando repleto de dúvidas, mas preciso eventualmente preencher alguns formulários. Uso, depois do Prêmio, ‘escritor’ como profissão). E eu imaginava que a literatura me salvaria. Que ao falar das minhas memórias, das minhas questões judaicas, das minhas frivolidades e mesquinharias eu poderia me entender melhor e finalmente me salvar. Também imaginava que escrever um livro sobre brochadas me curaria dessa praga! Amém! Infelizmente tudo isso desmoronou ao ler o livro de Sarah Kofman.

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Sarah Kofman foi uma filósofa que escreveu duas dezenas de livros sobre diversos temas acadêmicos. Era considerada uma das mais importantes pesquisadoras na obra de Nietzsche. Falou sobre estética, psicanálise, arte. Releu e trouxe novas interpretações para os clássicos gregos. Foi professora na França, na prestigiosa École Normale Supérieure e em Sorbonne. Passou um período em Harvard. Era uma pessoa de difícil trato, que não gostava de ser tocada e nem de carinhos e elogios, e que vivia sempre regurgitando e com problemas estomacais. Tinha intensos problemas com suas memórias. O mundo desconhecia sua terrível história.

E num angustiante dia ela resolve escrever Rua Labat Rua Ordener e finalmente acaba contando sua vida. Ressalta que toda sua majestosa obra acadêmica teria sido somente uma preparação para escrita desse livro. Um livreto de pouco mais que oitenta páginas. Ela então conta ‘tudo’. Tudo que já tinha tentado contar (ou esquecer) antes. Conta que durante a Guerra sua mãe a escondeu na casa de uma mãe católica. Uma mãe católica que não gostava de judeus e queria limpá-la da praga do judaísmo. Ela, Sarah, era filha de um rabino, e por serem religiosos tinham uma alimentação especial. A mãe católica, com seus ódios e suas limitações, obrigava a pequena Sarah a comer coisas proibidas. Ela vivia em constante dor e relutava em aceitar essa vida imposta pelo Deus que tanto rezava. Foi aí que ela começou a regurgitar. Ela vomitava diariamente a vida que insistia e parecer real. Mas elas, ‘mãe’ e ‘filha’ acabaram gostando uma da outra. Afinal, Memé (a mãe católica) estava ‘salvando’ Sarah dos Campos de Extermínio.

Mas sua mãe judia ainda estava viva e escondida. Ambas podiam se encontrar secretamente. Porém esse encontro era muito pesado. Muito cheio de dor. Repleto de lembranças do Pai, que havia sido levado pelos colaboracionistas franceses aos nazistas e queimado nos fornos de Auschwitz. Sarah vivia um conflito de emoções, de sentimentos e de dores pela presença dessas duas mães. Dessas duas casas: uma na Rua Labat e outra na Rua Ordener. O tempo passou, cheio de pavor e pânico e ela surpreendentemente conseguiu ‘sobreviver’.

Ao fim da Guerra sua mãe judia veio lhe buscar, mas ela e Memé já estavam ligadas sentimentalmente talvez por culpa. Memé, não querendo largar da perversão por Sarah, resolve entrar com um processo pela sua guarda. O juiz (colaboracionista?) concede. Mas a mãe judia decide não respeitar a lei desse país que entregou voluntariamente milhares e milhares de crianças às fornalhas de Auschwitz. Sarah foi sequestrada pela própria mãe e acabou vivendo uma vida de entre mundos.

O livro segue contando as terríveis memórias de Sarah. Você se lamenta por ela. Você lamenta pela História. Você sofre uma outra dor, se ilude, e transforma o Holocausto em algo compreensível, apesar de assombroso e absurdo (mas isso é um erro. Ninguém, nunca, poderá saber o que foi aquilo. Mesmo assim precisamos continuar falando e lembrando para que não se repita). Chegando ao fim do livro, você acha que compreende Sarah, mas se surpreende com o desfecho de sua vida.

Meses depois de publicar esse livro e reavivar suas lembranças, Sarah se suicida. Seria esse o único caminho a seguir? Em algum momento, em algum dia, em algum instante Sarah realmente foi salva? Apesar de ter ‘sobrevivido’, realizado grandes feitos, escrito e perpetuado palavras e livros, ela nunca conseguiu superar seus momentos. Eu me pergunto com muita tristeza: será que existiu, de fato, algum sobrevivente do Holocausto? Rezo. Escrevo. Sonho. Mas duvido.

Texto originalmente publicado na fanpage do Skoob: https://goo.gl/90p4Nn